Há episódios de Dark Matter que nos deixam sem fôlego pela tensão, pelos perigos da Caixa ou pela quantidade de realidades que parecem se multiplicar sem controle. E há aqueles que nos emocionam justamente porque fazem o contrário. O oitavo episódio da segunda temporada, The Basic Oneness of Everything, pertence ao segundo grupo. É intimista, delicado, lindamente interpretado e, como já havia acontecido no quinto episódio, um dos melhores momentos da série. Uma história sobre escolhas, perdas e, principalmente, sobre a possibilidade de recomeçar. Mesmo quando tudo parece perdido.
A história começa dois anos antes. Jason (Joel Edgerton) e Amanda (Alice Braga) chegam a uma realidade desconhecida depois de uma viagem que deu terrivelmente errado. Amanda está gravemente ferida, com um pulmão perfurado por um galho, e Jason tenta desesperadamente salvá-la. Quem surge para ajudá-los é Laurel (Margo Martindale), uma mulher que vive praticamente isolada em uma casa enorme e que, por sorte, tem experiência como enfermeira militar e civil.

Laurel consegue ajudar Jason a salvar Amanda. Também cuida dos ferimentos dele e permite que os dois permaneçam em sua casa durante a longa recuperação. O que começa como uma emergência médica acaba transformando a vida dos três.
Aos poucos, conhecemos a história de Laurel. Naquela realidade, Chicago sofreu um atentado com uma bomba suja, conhecido como 5/20. Sua casa chegou a funcionar como hospital improvisado, mas as consequências políticas da tragédia foram ainda mais devastadoras. O governo se tornou autoritário, a liberdade desapareceu e Rory, o grande amor de Laurel, foi preso por possuir material proibido. Morreu sob custódia, sem que ela sequer soubesse exatamente do que ele era acusado. Desde então, Laurel escolheu não confiar em ninguém. Fechou as portas da casa e, de certa forma, da própria vida.
Até a chegada de Jason e Amanda.
A Caixa também pode levar alguém para casa
O que torna o episódio tão especial é a maneira como transforma o conceito da Caixa. Estamos acostumados a vê-la como um instrumento de fuga, descoberta, ambição ou perigo. Mas aqui ela se torna também uma possibilidade de acolhimento.
Jason permanece ao lado de Amanda durante semanas, embora continue desesperado para encontrar Daniela e Charlie. Abandoná-la seria repetir, em alguma medida, o egoísmo de outras versões de si mesmo, capazes de sacrificar vidas alheias para conseguir aquilo que desejam.
Mas há algo mais acontecendo. Enquanto Amanda se recupera, os dois se aproximam de uma maneira diferente. O cuidado vira intimidade, a intimidade vira afeto e, sem perceberem inteiramente, eles começam a construir uma relação. Quando Amanda finalmente está recuperada, os dois retomam as viagens. Jason continua procurando a família, sem sucesso.
Enquanto isso, Laurel recebe outros visitantes. Entre eles, Leighton, em sua versão mais hippie e aventureira, e Blair, profundamente traumatizada pelas experiências que viveu. Cada um chega carregando suas próprias histórias, medos e perdas. E Laurel, que havia decidido nunca mais permitir a entrada de alguém em sua vida, transforma a casa numa espécie de porto seguro para viajantes do multiverso.
É uma das ideias mais bonitas do episódio. Enquanto tantos personagens atravessam universos tentando encontrar alguma coisa, Laurel encontra uma razão para viver sem precisar sair de casa. Aos poucos, ela também volta a sair, a confiar, a estabelecer vínculos. Sua generosidade salva os outros, mas acaba salvando a si mesma.

Jason precisa compreender o que realmente deseja
Quando Jason e Amanda retornam à casa de Laurel, ainda não encontraram a realidade que procuravam. Laurel, agora experiente em receber viajantes, compartilha o que aprendeu sobre a Caixa: não basta desejar um destino. É preciso compreender a ligação emocional com aquilo que se busca.
Amanda percebe que Jason continua preso à busca por Daniela e Charlie e decide ficar. Naquela realidade, a Amanda original nunca deixou o Brasil, o que lhe permitiria construir uma nova existência sem ocupar o lugar de alguém. É uma escolha dolorosa, mas generosa. Ela ama Jason o suficiente para deixá-lo partir. E ele parte.
Só que, desta vez, acontece algo diferente. Jason não consegue encontrar a família porque seus pensamentos continuam voltando para Amanda. O que ele não havia compreendido é que, durante todo aquele tempo, uma nova vida havia começado a se formar diante de seus olhos. A Caixa não estava necessariamente falhando. Talvez estivesse respondendo a sentimentos que ele ainda não conseguia reconhecer. Jason finalmente entende que se apaixonou por Amanda. E volta.
Não porque tenha encontrado Daniela e Charlie, nem porque tenha desistido simplesmente de tudo o que viveu. Mas porque aceita que uma vida diferente também pode ser verdadeira, feliz e digna de ser escolhida.
Ele e Amanda decidem permanecer com Laurel, formando uma nova família, construída não pelos laços de sangue ou por uma realidade original, mas pela decisão de estarem juntos.
Charlie encontra o pai. Mas não exatamente o seu pai
É então que o episódio finalmente alcança o momento em que terminou o anterior. Charlie (Oakes Fegley), que entrou na Caixa procurando Max, chega à casa de Laurel. E encontra Jason.
Para Charlie, é um reencontro inesperado e profundamente emocionante. Aquele homem tem o rosto, a voz e os gestos de seu pai, mas não é o Jason com quem ele vive. É uma versão que passou anos tentando reencontrar a família e acabou seguindo outro caminho. O encontro é particularmente bonito porque Jason sabe o que significa procurar alguém através de inúmeras realidades. Conhece a esperança, a frustração e o risco de se perder na busca. Mesmo assim, incentiva Charlie a continuar procurando Max.
Não há garantia de que o garoto encontrará o irmão. Talvez encontre apenas outra versão dele. Talvez descubra que aquilo que procura não pode ser recuperado da maneira que imagina. Mas Jason compreende que algumas respostas só podem ser encontradas vivendo a experiência.
E o encontro também lhe oferece algo que parecia impossível: a oportunidade de abraçar Charlie outra vez. Quando o garoto parte, Jason permanece na casa que escolheu como lar. Amanda retorna, e a vida continua. Uma porta se fecha e outra se abre, quase literalmente.

Interpretações magníficas e uma trilha sonora emocionante
É impossível falar deste episódio sem destacar o elenco. Joel Edgerton faz um trabalho extraordinário ao interpretar mais uma versão de Jason, trazendo diferenças sutis a um homem que reconhecemos, mas que já não é exatamente aquele que conhecemos. Sua atuação é contida, sensível e profundamente humana.
Alice Braga está igualmente maravilhosa. Sua Amanda combina vulnerabilidade, força e uma generosidade que nunca parece artificial. A química entre os dois é evidente, e a relação cresce sem que a série precise recorrer a grandes declarações.
E Margo Martindale? Bem, Margo Martindale é Margo Martindale. Uma atriz extraordinária, capaz de transformar um silêncio, um olhar ou um gesto de hospitalidade em algo absolutamente emocionante. Sua Laurel é uma mulher destruída pela perda, que reaprende a viver cuidando de pessoas que literalmente aparecem em sua casa vindas de outros mundos.
Tudo é acompanhado por uma belíssima trilha sonora. A identidade musical criada por Jason Hill continua marcando a série, enquanto Mac Quayle assina a trilha instrumental desta temporada. E o encerramento com Rosalía e Carminho cantando Memória, do álbum Lux, é especialmente feliz. Um fado sobre aquilo que permanece depois que tanta coisa desapareceu. Difícil imaginar uma escolha mais adequada.
Dark Matter consegue, assim, realizar algo que nem sempre é simples numa série de ficção científica: usar uma premissa extraordinária para falar de sentimentos absolutamente comuns. O medo de perder, a saudade, o amor, a culpa e a dificuldade de aceitar que não podemos viver todas as vidas que imaginamos.
A Caixa oferece possibilidades infinitas, mas nenhuma delas garante felicidade. E talvez seja esse o grande aprendizado de Jason. Não existe necessariamente uma única realidade perfeita esperando para ser encontrada. Existe aquela em que conseguimos reconhecer o amor, aceitar as perdas e decidir ficar.
Depois de tantos episódios mostrando personagens obcecados em conquistar, modificar ou controlar universos, é emocionante acompanhar alguém que finalmente compreende o valor de construir uma vida no mundo em que está.
E, convenhamos, às vezes encontrar um lugar onde somos amados é a maior aventura de todas.
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