A segunda temporada de MobLand chegou à metade e, com apenas 38 minutos, o quinto episódio, “Birdland”, consegue fazer o que os quatro anteriores vinham preparando: transformar uma guerra de ameaças e provocações em um conflito aberto. O resultado é explosivo, violento e, em vários momentos, absurdamente conveniente. Afinal, os Harrigan parecem ter um talento extraordinário para sobreviver às próprias decisões. Ou melhor, às decisões desastrosas de Conrad (Pierce Brosnan) e Maeve (Helen Mirren). E, como sempre, quem precisa resolver tudo é Harry Da Souza (Tom Hardy).
O episódio começa com as consequências do ataque de Conrad aos homens de Frankie Cooper (Johnny Flynn). Além dos quatro mortos, Conrad levou um prisioneiro, JoJo, que agora está sendo torturado na propriedade da família, em Cotswolds. Harry chega acompanhado de Kevin (Paddy Considine) e Bella (Lara Pulver) e rapidamente percebe a dimensão do problema. Conrad não está apenas desafiando Frankie: está provocando uma guerra que talvez não tenha condições de vencer.
Harry encerra o interrogatório matando JoJo e depois conta a Conrad que o prisioneiro morreu por perda de sangue. É mais uma decisão que mostra o quanto o braço direito dos Harrigan já opera independentemente das ordens do chefe. Harry continua sendo leal, mas sua lealdade não significa obediência cega. Pelo contrário: quanto mais Conrad perde o controle, mais Harry precisa agir por conta própria.

E Conrad está perdendo o controle. Entre explosões de violência, provocações contra Kevin e uma confiança cada vez menos justificada na própria autoridade, o patriarca parece incapaz de perceber que sua família está desmoronando. E o mais curioso é que ele continua enxergando Harry como um possível problema, enquanto se deixa manipular pela pessoa que representa a maior ameaça interna aos Harrigan: sua própria mulher.
Maeve é o verdadeiro perigo
Helen Mirren continua se divertindo extraordinariamente com Maeve, uma personagem que já ultrapassou todos os limites do aceitável. O problema é que, desta vez, a perversidade da matriarca começa a flertar com a caricatura. Maeve parece interessada em destruir qualquer pessoa que possa interferir em seu controle da família, mesmo quando isso significa sacrificar os próprios parentes.
Ela continua determinada a eliminar Seraphina (Mandeep Dhillon), usando anticongelante para envenená-la. Conrad chega a descobrir o produto e confronta a mulher, mas basta Maeve recorrer à sua habitual manipulação emocional para recuperar o controle da situação. É impressionante como um homem tão brutal pode ser tão facilmente conduzido por ela.
Mas a perversidade mais assustadora está reservada a Eddie (Anson Boon). A viagem do rapaz à Irlanda, acompanhado de Gina (Teddie Allen), finalmente revela seu verdadeiro propósito. Não se trata de férias, de negócios ou sequer de um favor familiar. Maeve enviou Eddie para assassinar um criminoso conhecido como Medusa, interpretado por Colm Meaney.

Em um hotel em Kenmare, Eddie encontra uma arma e instruções. Sua missão é levar a cabeça de Medusa para Maeve. Simples assim. Como se mandar um rapaz praticamente inexperiente enfrentar um criminoso cercado de homens armados fosse uma tarefa perfeitamente razoável.
A sequência chega a ser tragicômica quando Eddie precisa procurar tutoriais na internet para aprender a usar uma arma. Gina percebe imediatamente o absurdo da situação e tenta convencê-lo a desistir, mas ele insiste. Naturalmente, tudo dá errado. Eddie acaba capturado e, diante do perigo, revela sem hesitar quem o enviou: Maeve.
A grande questão é entender o que Maeve realmente pretende. Quer eliminar Medusa? Quer se livrar de Eddie? Está usando Gina como parte de algum plano ainda não revelado? Ou simplesmente perdeu qualquer capacidade de distinguir estratégia de crueldade? A série ainda não esclareceu essa ligação, mas começa a ficar difícil acreditar que todas as suas decisões fazem parte de algum plano genial.
Harry não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo
Enquanto isso, Harry tenta reunir os Harrigan em Cotswolds para discutir a ameaça de Frankie. O encontro deveria permitir alguma organização da família, mas se transforma em mais uma demonstração de sua incapacidade de permanecer unida.
Seraphina também está envolvida em um jogo perigosíssimo. Depois de sua aproximação com Kat McAllister (Janet McTeer), Harry consegue convencê-la a trabalhar como agente dupla. O problema é que, em MobLand, ninguém parece capaz de guardar um segredo por muito tempo. Uma informação sobre a reunião da família acaba chegando aos inimigos, que identificam a oportunidade perfeita para atacar.
Quando Paul (Emmett J. Scanlan) descobre a verdadeira missão de Eddie e avisa Harry, ele precisa tomar uma decisão. E, pela primeira vez, coloca o resgate de Gina e Eddie acima da segurança imediata dos Harrigan.
Harry pega um helicóptero e segue para a Irlanda, onde encontra os dois em perigo. A operação é rápida, brutal e eficiente. Medusa e seus homens são eliminados com uma precisão quase sobrenatural. Tom Hardy faz o que sabe fazer melhor: poucos gestos, poucas palavras e uma violência assustadoramente controlada.

É uma sequência que reforça uma das contradições mais interessantes de Harry. Ele é um assassino profissional, mas também parece ser o único personagem que ainda entende alguma coisa sobre responsabilidade e proteção. Não significa que seja moralmente superior aos outros. Significa apenas que possui limites que Maeve e Conrad já ultrapassaram há muito tempo.
A guerra finalmente chega em casa
A ausência de Harry, entretanto, custa caro. Frankie organiza um ataque contra a propriedade dos Harrigan, usando informações que chegaram por meio da rede de alianças e traições envolvendo Seraphina, Donnie e Kat.
O resultado é uma verdadeira operação de guerra. Homens armados invadem a propriedade, os seguranças são mortos e os Harrigan precisam fugir às pressas. Conrad, Maeve, Kevin, Bella, Seraphina e Paul conseguem escapar de helicóptero, enquanto a fortaleza da família é tomada.
É uma sequência eletrizante, embora seja impossível ignorar a generosidade do roteiro. Com tantos homens armados, tantos tiros e uma operação planejada, Frankie não consegue eliminar um único membro central da família. Os Harrigan escapam praticamente intactos de um ataque que deveria representar uma catástrofe.
Mas, mesmo sem uma morte importante, a derrota é significativa. Pela primeira vez, Frankie consegue atingir diretamente o coração do império dos Harrigan. A família perde sua segurança, sua base de operações e, sobretudo, a ilusão de invulnerabilidade.
E há uma ironia cruel: Maeve, que desconfia de Harry e trabalha constantemente para enfraquecê-lo, foi justamente quem criou as circunstâncias que obrigaram o homem a abandonar a propriedade. Se não tivesse enviado Eddie à Irlanda, Harry estaria presente para organizar a defesa.

E agora?
Há ainda duas questões importantes. A primeira envolve Jan (Joanne Froggatt), que encontra uma chamada perdida de Seraphina no telefone de Donnie e começa a perceber que Harry talvez estivesse falando a verdade sobre o que vinha acontecendo. Depois da humilhação provocada pelo vídeo de sua relação com Jamie, essa descoberta pode mudar a dinâmica entre os dois.
A segunda é a investigação sobre a morte do policial Finch. Kavanagh começa a perceber que o suposto suicídio não é tão simples quanto parece, criando mais uma ameaça para Harry justamente quando ele já precisa administrar uma guerra.
“Birdland” é um bom episódio, especialmente pelo ritmo e pela maneira como coloca os personagens diante das consequências de suas decisões. Mas também expõe algumas fragilidades da temporada. Conrad está se tornando repetitivo em sua brutalidade, Maeve começa a parecer uma vilã de desenho animado e a incompetência dos Harrigan é tão grande que chega a desafiar a credibilidade.
Ainda assim, Helen Mirren e Pierce Brosnan continuam deliciosamente exagerados, enquanto Tom Hardy sustenta a série com uma interpretação econômica, quase silenciosa. Harry não precisa gritar para demonstrar autoridade. Aliás, ele é praticamente o único que não precisa.
Aos poucos, MobLand deixa de ser apenas uma história sobre uma família criminosa ameaçada por inimigos externos para se tornar algo muito mais interessante: uma família que está destruindo a si mesma.
E, neste momento, a pergunta talvez não seja mais se Harry conseguirá salvar os Harrigan. É por quanto tempo ele ainda vai querer fazê-lo.
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