Amanda Seyfried em You Can See Everything e no centro da polêmica

Meu dinheiro estava em Amanda Seyfried. Foi o que escrevi em setembro, quando Nathan Fielder e Lance Oppenheim apresentaram You Can See Everything no Festival de Telluride e pediram aos críticos que preservassem um segredo: a identidade de uma atriz famosa que aparecia no documentário sobre Elizabeth Holmes. Levantamos quatro possibilidades, incluindo Jennifer Lawrence, Emma Stone e Kate McKinnon, mas Amanda era a aposta mais forte. E acertamos.

Mais do que isso, antecipamos a lógica de sua participação. A atriz, vencedora do Emmy por interpretar a fundadora da Theranos em The Dropout, retornaria ao papel dentro de um filme que questiona justamente as fronteiras entre realidade e representação. Elizabeth Holmes interpretaria a si mesma diante das câmeras. Amanda interpretaria Holmes nas reconstituições. E Nathan Fielder observaria as duas, tentando descobrir se existe uma pessoa verdadeira escondida atrás de tantas camadas de performance.

Parecia uma ideia irresistivelmente metalinguística. Na prática, tornou-se ainda mais estranha. Porque Amanda Seyfried não faz apenas uma participação especial. Ela acaba ocupando um espaço fundamental no documentário e, inevitavelmente, envolvendo-se na discussão sobre quem está manipulando quem.

A atriz que já conhecia Elizabeth Holmes

A escolha de Amanda Seyfried parecia óbvia por uma razão: ela já havia construído uma das versões mais conhecidas de Elizabeth Holmes. Em The Dropout, acompanhamos a ascensão e a queda da empresária que prometia revolucionar a medicina com exames realizados a partir de poucas gotas de sangue. Amanda reproduziu sua voz grave, a postura cuidadosamente ensaiada, o olhar fixo e, sobretudo, a contradição entre a jovem que desejava mudar o mundo e a executiva que parecia disposta a sustentar uma mentira a qualquer preço.

A interpretação lhe rendeu um Emmy e tornou-se praticamente inseparável da imagem pública de Holmes. Uma ironia, considerando que a própria empresária nunca aceitou inteiramente essa representação.

Mas havia outra surpresa que não previmos. Emma Stone, uma das nossas candidatas ao papel misterioso, foi justamente quem ajudou a aproximar Amanda dos realizadores. A atriz conhece Nathan Fielder desde The Curse e acabou participando dos bastidores de uma maneira decisiva.

Amanda, inicialmente, hesitou. Afinal, já havia interpretado Holmes uma vez. Por que voltar a um universo que, de certa maneira, parecia encerrado?

A resposta está na própria estrutura de You Can See Everything.

Quando a ficção tenta preencher os vazios da realidade

O documentário começa acompanhando Elizabeth Holmes nos 34 dias anteriores ao início de sua pena de prisão, em maio de 2023. Nathan Fielder se instala na casa da empresária e de seu companheiro, Billy Evans, observa a rotina familiar, conversa com o casal e tenta compreender como alguém condenada por fraude continua sustentando sua inocência.

Mas, quando Holmes vai para a prisão, o filme perde sua personagem central. E é justamente nesse vazio que Amanda Seyfried entra.

Fielder a convida para assistir às gravações, discutir suas impressões e, finalmente, recriar conversas que não foram registradas pelas câmeras. Amanda interpreta Holmes novamente, mas agora trabalhando com transcrições, lembranças e a perspectiva de um homem que também passou a fazer parte da história.

A atriz que havia interpretado uma versão dramatizada de Elizabeth Holmes passa a reconstruir outra, desta vez mediada pelas memórias do próprio documentarista. É um jogo de espelhos fascinante. E profundamente desconfortável. Por que, afinal, o que estamos vendo? Elizabeth Holmes como realmente é? A versão que deseja vender de si mesma? A lembrança de Nathan Fielder? Ou a interpretação de Amanda Seyfried sobre todas essas versões?

O documentário parece sugerir que, mesmo quando acreditamos ter acesso à verdade, continuamos dependentes de quem está contando a história.

Elizabeth Holmes não gostou de se reconhecer

Uma das situações mais reveladoras envolve justamente The Dropout. Holmes, que não havia assistido à série, é confrontada com sua versão ficcional. A experiência provoca desconforto, irritação e lágrimas.

Para uma mulher que sempre procurou controlar sua própria narrativa, deve ser perturbador descobrir que a imagem pela qual milhões de pessoas a reconhecem foi construída por outra pessoa.

E não por qualquer pessoa. Amanda Seyfried recebeu elogios justamente pela precisão com que reproduziu seus gestos e sua maneira de falar.

Holmes questiona essa representação e responsabiliza a série pela hostilidade que enfrenta. O interessante, porém, é que a precisão de uma interpretação não equivale necessariamente à verdade sobre uma pessoa. Amanda pode ter reproduzido perfeitamente seus maneirismos sem jamais conhecer a mulher por trás deles.

É esse o paradoxo que o documentário explora.

A própria Amanda acaba confrontada com uma questão inesperada: depois de passar tanto tempo interpretando Elizabeth Holmes, até que ponto acredita conhecê-la?

A empatia de Amanda e as críticas

O que torna a participação de Amanda mais interessante é que ela não se limita a confirmar a imagem de Holmes como uma manipuladora extraordinária. A atriz procura compreender suas motivações, percebe vulnerabilidades e demonstra empatia.

Isso provocou reações divididas.

Para alguns espectadores, existe algo desconfortável em oferecer tanta compreensão a uma empresária condenada por enganar investidores e associada ao colapso de uma companhia que fazia promessas perigosas sobre diagnósticos médicos. A empatia poderia, nessa leitura, contribuir para suavizar sua responsabilidade.

Mas compreender não é absolver. E talvez essa seja justamente a distinção mais importante do filme.

Amanda, ao que indicam os relatos sobre o documentário, não está interessada apenas na figura pública de Holmes. Está tentando alcançar a mulher por trás dela. O problema é que essa investigação também pode ser conduzida por alguém que domina extraordinariamente bem a arte de convencer os outros.

Nathan Fielder enfrenta a mesma dificuldade. Quanto mais próximo de Holmes, mais difícil parece estabelecer onde termina a sinceridade e começa a encenação.

Há, portanto, uma pergunta incômoda que não diz respeito apenas a Amanda: será que a proximidade facilita o acesso à verdade ou nos torna mais vulneráveis à manipulação?

Billy Evans e o confronto que muda tudo

A situação fica ainda mais complicada quando Amanda conhece Billy Evans, companheiro de Holmes e pai de seus dois filhos.

O que inicialmente parecia uma conversa sobre a empresária acaba se transformando em um confronto sobre controle, representação e interesses pessoais. Fielder descobre que Evans teria tentado negociar uma participação nos lucros do documentário, e Amanda decide acompanhá-lo em uma visita para investigar se Holmes sabia dessa iniciativa.

Evans também revela que administra a conta de Holmes na rede social X, chegando a publicar mensagens em nome dela. De repente, o documentário deixa de questionar apenas se Elizabeth manipula as pessoas para perguntar se ela própria está sendo manipulada.

E Amanda acaba no meio desse conflito.

Durante um jantar, Evans critica sua interpretação em The Dropout, e a conversa toma um rumo inesperado quando ele menciona Charlie Kirk, ativista conservador americano assassinado em 2025. Admirador de Kirk, Evans confronta a atriz por seus comentários sobre o ativista, cuja retórica ela havia criticado publicamente, embora também tivesse condenado seu assassinato.

A discussão se torna pessoal e desconfortável. Amanda e Fielder acabam deixando a casa sem esclarecer definitivamente o que Holmes sabia sobre as negociações do companheiro.

A atriz, que entrou no documentário para interpretar uma personagem, agora se vê envolvida em uma investigação real, precisando escolher o que revelar, o que perguntar e até quando está representando a si mesma.

É uma inversão curiosa: Amanda Seyfried passa a atuar como Amanda Seyfried.

A contradição que incomodou o público

A participação da atriz também provocou críticas nas redes sociais. Alguns espectadores questionaram a maneira como ela demonstra solidariedade por Holmes e, posteriormente, reage quando sua própria responsabilidade na construção da imagem pública da empresária é colocada em discussão.

Em outras palavras, Amanda parece disposta a considerar Elizabeth uma vítima de manipulação masculina, mas se mostra menos confortável quando surge a possibilidade de que The Dropout também tenha contribuído para o sofrimento daquela mulher.

A contradição é interessante porque humaniza a atriz sem necessariamente torná-la incoerente. É mais fácil defender a complexidade de outra pessoa quando não somos obrigados a reconhecer nossa participação em sua história.

Mas também seria injusto reduzir sua presença a esse episódio. Parte significativa da crítica especializada considera sua atuação um dos grandes acontecimentos do documentário. Amanda é elogiada não apenas por voltar a interpretar Holmes, mas por permitir que sua própria relação com a personagem seja questionada.

O curioso é que, durante as entrevistas realizadas após a estreia, ela também tem demonstrado dificuldade em explicar a experiência. No evento de gala do Academy Museum, suas respostas evasivas chamaram atenção, como se ainda estivesse procurando uma maneira de falar sobre um trabalho que não se encaixa facilmente nas categorias de ficção e documentário.

Talvez porque nem ela mesma tenha conseguido definir exatamente onde terminou sua atuação.

A mulher, a atriz e o jogo de espelhos

Há uma ironia deliciosa em toda essa história. Jennifer Lawrence, que também estava na nossa lista de possíveis atrizes misteriosas, abandonou o projeto Bad Blood, no qual interpretaria Elizabeth Holmes, depois de assistir a The Dropout. Considerou que Amanda Seyfried já havia feito o papel de maneira tão perfeita que não faria sentido tentar novamente.

Agora, a própria Amanda descobre que interpretar Holmes perfeitamente não significa necessariamente compreendê-la.

É justamente essa diferença que parece sustentar You Can See Everything. Podemos estudar uma pessoa, reproduzir seus gestos, reconhecer suas contradições e ainda assim não saber o que ela pensa. Podemos ter acesso à intimidade de alguém sem jamais alcançar sua verdade.

Elizabeth Holmes construiu uma carreira vendendo uma promessa que não conseguia cumprir. Depois de sua condenação, continua reivindicando o direito de contar sua própria história. Billy Evans parece interessado em administrar essa narrativa. Nathan Fielder pretende desconstruí-la. E Amanda Seyfried, que já ajudou a definir como o público enxerga Holmes, volta para descobrir o que talvez tenha deixado escapar.

Em setembro, escrevi que, se Amanda surgisse no documentário para reconstruir a versão de Holmes sobre os acontecimentos, Fielder teria criado um jogo de espelhos perfeito. Era exatamente o que imaginávamos. Só não previmos que a própria atriz acabaria presa dentro dele. E talvez essa seja a maior provocação de You Can See Everything: podemos ver tudo, como promete o título, e ainda assim não compreender absolutamente nada.


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