Atenção: o texto contém spoilers do quarto episódio da segunda temporada de Black Doves, “The Opportunity to Be Savage”.
A segunda temporada de Black Doves finalmente começa a explicar os acontecimentos que transformaram Reed (Sarah Lancashire) na mulher implacável que conhecemos, e o quarto episódio talvez seja o mais interessante até agora justamente porque abandona temporariamente a correria da conspiração para investigar as consequências de decisões tomadas décadas antes. Ao recuperar uma operação realizada em Berlim Oriental, em 1988, Joe Barton estabelece um paralelo entre Reed e Helen (Keira Knightley), duas mulheres que construíram suas identidades profissionais a partir de mentiras, mas descobriram que era impossível representar uma vida durante tantos anos sem desenvolver sentimentos verdadeiros.
A diferença é que Reed parece ter aprendido a sobreviver eliminando qualquer possibilidade de demonstrar vulnerabilidade, enquanto Helen ainda insiste em acreditar que pode preservar a família e continuar trabalhando como espiã. O passado de sua chefe, entretanto, sugere que essa combinação pode ser muito mais perigosa do que ela imagina.
O episódio também recupera momentos importantes da trajetória de Sam (Ben Whishaw), especialmente sua passagem pela Itália, onde encontrou uma possibilidade de pertencimento que contrasta com a solidão e a violência de sua vida profissional. Se a primeira metade da temporada estava concentrada nos assassinatos e na descoberta de Wildflower, agora começamos a compreender que a conspiração nasceu de relações afetivas, ambições pessoais e uma traição cujas consequências jamais desapareceram.

Berlim Oriental, 1988: a verdadeira história de Wildflower
O principal flashback nos leva à Berlim Oriental de 1988, pouco antes da queda do Muro, quando uma jovem Elizabeth Reed trabalha infiltrada na Kestrel, organização radical que começa a conquistar influência internacional. Sua missão consiste em acompanhar as atividades do grupo e transmitir informações aos Black Doves, mas o trabalho já ultrapassou os limites de uma operação convencional.
Reed vive com Franz Meyer, integrante importante da Kestrel, e os dois têm uma filha de cinco anos chamada Vita. Como Helen faria décadas depois, ela construiu uma família durante uma missão de longa duração, embora seu relacionamento esteja sustentado por uma identidade falsa e por interesses que seu companheiro desconhece.
A situação é ainda mais complicada porque Reed mantém um relacionamento amoroso com Peter Maddison, responsável pelas operações dos Black Doves em Berlim. Ela deseja abandonar a missão e retornar à Inglaterra com Peter e a filha, mas ele não demonstra interesse em encerrar o trabalho, especialmente quando a Kestrel começa a se aproximar de Alexi Chernov, um oficial da KGB disposto a desertar.
Para Peter, permitir que a organização continue operando representa uma oportunidade de obter informações cada vez mais valiosas. Para Reed, significa prolongar indefinidamente uma vida que já não deseja manter, dividida entre o homem com quem vive, a filha que tiveram e o amante com quem pretende construir um futuro.
A situação se torna insustentável quando Franz revela que conseguiu documentos para que ele, Reed e Vita se mudem para Amsterdã, onde pretende expandir as atividades da Kestrel. A proposta representa uma ameaça aos planos de Reed, que percebe que poderá ser obrigada a abandonar Peter e continuar representando uma identidade que já não consegue suportar.
Em vez de enfrentar diretamente as consequências de suas escolhas, ela decide manipular os acontecimentos para conseguir aquilo que deseja.
A mentira que provocou um massacre
Reed inventa que a Kestrel está preparando um atentado com um carro-bomba, levando Peter e os superiores dos Black Doves a acreditar que a organização representa uma ameaça imediata. A informação falsa provoca a autorização de uma operação para eliminar seus integrantes, numa decisão que demonstra como uma mentira aparentemente estratégica pode adquirir consequências impossíveis de controlar.
É nesse momento que compreendemos o significado da expressão que Spitfire utilizou antes de ser assassinada por Sam no segundo episódio. Os agentes receberam uma oportunidade de agir com brutalidade e aproveitaram a autorização para executar os membros da Kestrel sem qualquer preocupação com julgamentos ou investigações.
A operação se transforma em um massacre, e Reed percebe tarde demais que sua tentativa de escapar de uma situação pessoal colocou em risco a vida de Franz e da própria filha. Quando ele retorna ao apartamento, ela revela que trabalha para os Black Doves e tenta convencê-lo a fugir com Vita antes que os outros agentes cheguem.
Franz mal consegue compreender a dimensão da traição quando Peter aparece e corta sua garganta. O homem que Reed acreditava amar acaba de assassinar o pai de sua filha, mas a situação se torna ainda mais desesperadora quando Peter descobre que a informação sobre o atentado havia sido inventada.
Ao perceber que toda a operação foi desencadeada por uma mentira motivada pelo desejo de Reed de permanecer com ele, Peter reage violentamente e tenta estrangulá-la. Reed consegue alcançar uma arma e atira, matando o amante.
Em poucos minutos, a personagem perde os dois homens com quem havia construído relacionamentos, enquanto a missão que deveria garantir sua liberdade se transforma numa tragédia provocada por suas próprias decisões.
Reed ainda tenta destruir as gravações que poderiam revelar sua responsabilidade pelos acontecimentos e, durante a confusão, Vita desaparece. Quando os agentes Zeus e Spitfire chegam para retirá-la do local, ela afirma que Peter, Franz e a menina morreram.
A mentira permite que Reed preserve sua posição dentro dos Black Doves, mas também encerra qualquer possibilidade imediata de procurar a filha sem comprometer a versão oficial da operação.

Reed e Helen: duas mulheres que confundiram missão e identidade
A história de Berlim torna particularmente interessante a relação entre Reed e Helen, porque demonstra que as duas enfrentaram situações muito semelhantes em momentos diferentes de suas vidas.
Ambas foram enviadas para missões de longa duração, envolveram-se afetivamente com homens que desconheciam suas verdadeiras identidades e tiveram filhos durante relacionamentos inicialmente construídos sobre mentiras. A diferença está na maneira como reagiram quando os sentimentos passaram a interferir nas obrigações profissionais.
Helen continua insistindo que ama Wallace e os filhos, embora mantenha atividades clandestinas que colocam a família em risco. Reed, por outro lado, tentou resolver seu conflito eliminando as circunstâncias que a impediam de começar outra vida, provocando justamente a destruição daquilo que pretendia preservar.
É difícil não perceber uma dimensão trágica nessa repetição. Reed reconhece em Helen problemas que já enfrentou, mas parece incapaz de oferecer conselhos honestos, talvez porque isso exigisse admitir os próprios erros. Em vez de proteger sua agente de escolhas semelhantes, continua explorando sua capacidade de mentir e a disposição de colocar a vida pessoal em segundo plano.
O episódio também modifica a imagem de Reed como uma mulher que jamais permite que emoções interfiram em suas decisões. Sua frieza atual parece menos uma característica natural do que uma forma de sobrevivência construída depois de uma experiência devastadora.
Isso não significa que seus atos possam ser justificados pelo sofrimento, mas ajuda a compreender por que ela considera os vínculos afetivos tão perigosos.
O passado de Sam na Itália e a possibilidade de uma vida diferente
O episódio também retorna a um período anterior à primeira temporada, quando Sam se refugiou em uma pequena cidade italiana depois dos acontecimentos que quase provocaram a morte de Michael.
Sam havia cumprido uma missão naquele local, assassinando um padre chamado Aldo, e acaba retornando justamente à comunidade onde o homem vivia. Sua presença adquire uma dimensão quase penitencial, especialmente porque ele começa a desenvolver uma amizade com Matteo, proprietário de um bar que conhecia profundamente o religioso e havia mantido com ele uma ligação afetiva.
Matteo oferece a Sam uma acolhida que ele não encontra em Londres. Aos poucos, o assassino começa a ajudar no estabelecimento, participa da rotina da cidade e experimenta uma forma de convivência que não depende de ameaças, contratos ou identidades falsas.
A aproximação é construída por pequenos gestos cotidianos, e talvez seja justamente isso que a torne tão comovente. Sam não precisa salvar ninguém, eliminar um inimigo ou demonstrar qualquer habilidade extraordinária para ser aceito. Pela primeira vez, parece existir a possibilidade de uma vida na qual sua presença seja suficiente.
Entretanto, ele carrega a culpa pelo assassinato de Aldo e sabe que Matteo desconhece a verdadeira natureza de sua ligação com o homem que perdeu. O fato de permanecer naquele lugar pode ser interpretado tanto como uma tentativa de reparação quanto como uma forma de autopunição, porque Sam encontra conforto justamente entre as pessoas que prejudicou.
Há algo especialmente melancólico nessa trajetória. Ao contrário de Reed, que procura eliminar os vestígios de suas decisões, Sam parece incapaz de abandonar as consequências emocionais dos próprios atos.
Ele pode matar com impressionante eficiência, mas não consegue simplesmente esquecer as pessoas que morreram por suas mãos.
Reed encontra Sam e pede que ele mate Franz
A tranquilidade italiana termina quando Reed aparece procurando Sam, demonstrando mais uma vez que os Black Doves conseguem localizar seus agentes mesmo quando eles acreditam ter encontrado uma maneira de desaparecer.
Ela revela que Franz sobreviveu ao ataque de 1988 e foi localizado décadas depois em Roma, onde aparentemente levava uma vida discreta. Para Reed, a descoberta representa uma ameaça imediata, porque o homem conhece sua verdadeira identidade e pode revelar a mentira que provocou o massacre da Kestrel.
Reed deseja que Sam encontre Franz e o elimine, encerrando definitivamente um capítulo do passado que acreditava enterrado.
Sam aceita investigar o paradeiro do homem e descobre que ele deixou a Itália e retornou à Inglaterra, estabelecendo-se em uma propriedade em Dorset. Entretanto, depois de localizar seu novo endereço, decide que não deseja continuar a missão.
A recusa é significativa porque demonstra uma mudança na relação de Sam com a profissão. Ele continua sendo capaz de matar, mas começa a questionar por que deveria fazê-lo e, principalmente, quem realmente se beneficia dos assassinatos que executa.
Reed não demonstra grande interesse pelos sentimentos do agente nem pelo significado que a vida na Itália adquiriu para ele. Sua preocupação permanece concentrada em eliminar Franz, e, diante da recusa, decide recorrer a outra pessoa.
A escolhida é Helen.

Helen, Wallace e o assassinato que mudou tudo
A narrativa retorna a outro momento do passado, quando Helen e Wallace estão passando alguns dias em Dorset com os filhos ainda bebês. Wallace ocupa o cargo de ministro da Defesa, e a família parece tentar encontrar algum equilíbrio entre as obrigações políticas e as dificuldades cotidianas de criar duas crianças pequenas.
Helen está exausta, enfrentando a rotina intensa da maternidade e a necessidade de dividir responsabilidades com um marido cuja carreira exige cada vez mais dedicação. É uma fase particularmente reveladora da personagem, porque demonstra que sua vida como esposa e mãe também possui dificuldades reais, independentemente das atividades clandestinas.
A babá Marie acompanha a família, e a presença dela reforça como a casa dos Webb já estava organizada em torno de uma estrutura de apoio que permitiria a Helen continuar trabalhando para os Black Doves.
Durante a viagem, Reed entra em contato e informa que precisa que Helen elimine um homem hospedado numa propriedade próxima. A agente reage com resistência porque assassinar pessoas não faz parte de suas atividades habituais, mas sua chefe insiste que a missão é necessária.
Reed já havia deixado uma arma escondida na casa, demonstrando que preparou a operação antes mesmo de consultar Helen. A facilidade com que organiza tudo reforça a natureza manipuladora de sua relação com os agentes, que frequentemente descobrem estar envolvidos em situações sobre as quais nunca tiveram verdadeiro poder de decisão.
Helen acaba aceitando e vai até a propriedade onde Franz está vivendo.
O assassinato de Franz e a última revelação
Quando Helen encontra Franz, descobre um homem envelhecido e gravemente doente, que enfrenta um câncer e parece compreender que seu passado finalmente o alcançou.
A conversa entre os dois é especialmente perturbadora porque não existe uma ameaça imediata que justifique o assassinato. Franz não está armado nem parece interessado em atacar Helen, e sua morte ocorre principalmente porque Reed deseja impedir que ele revele acontecimentos que poderiam comprometer sua posição dentro da organização.
O homem compreende que foi localizado pela antiga companheira e demonstra surpresa por ela não ter vindo pessoalmente. Sua reação revela que, apesar das décadas transcorridas, ainda existe uma história entre os dois que não foi inteiramente encerrada.
Antes de morrer, Franz pede que Helen transmita uma mensagem a Reed: ele encontrou Vita.
A revelação confirma que a menina sobreviveu ao massacre de Berlim e que Franz conseguiu descobrir seu paradeiro, embora o episódio ainda não explique o que aconteceu com ela durante os anos em que permaneceu desaparecida.
Helen cumpre a missão e mata Franz, tornando-se responsável por um assassinato que não apenas compromete sua relação com os Black Doves, mas também estabelece uma ligação direta entre sua própria história e a conspiração atual.
Quando Reed recebe a informação de que Vita está viva, sua reação demonstra que a notícia a atinge profundamente. A mulher acostumada a controlar praticamente todos os acontecimentos descobre que o passado que tentou apagar continua existindo e que sua filha pode conhecer a verdade sobre aquilo que aconteceu em Berlim.
Também compreendemos finalmente a origem da gravação utilizada por Patrick para chantagear Sam. As imagens de Helen assassinando um homem indefeso não representam um episódio isolado de sua vida profissional, mas uma operação clandestina organizada por Reed para encobrir os próprios crimes.
Williams e Eleanor finalmente enfrentam os próprios sentimentos
Enquanto os flashbacks explicam a origem da conspiração, a narrativa atual acompanha Williams (Ella Lily Hyland) e Eleanor (Gabrielle Creevy), que aceitaram um contrato para assassinar Laila (Ambika Mod), sem perceber inteiramente como a missão poderia colocá-las em conflito com Helen e Sam.
Williams recebeu a proposta enquanto estava alcoolizada e, ao tentar executar o trabalho, acaba provocando uma troca de tiros que deixa as duas assassinas encurraladas. Laila continua viva e responde aos disparos, demonstrando que não será uma vítima tão fácil quanto suas perseguidoras imaginavam.
É nesse cenário absolutamente inadequado que Williams decide finalmente falar sobre os sentimentos que desenvolveu por Eleanor. Depois de passar boa parte da temporada demonstrando ciúme de seus relacionamentos, admite que provavelmente está apaixonada pela parceira, para em seguida reconhecer que tem praticamente certeza disso.
A declaração, feita enquanto as duas precisam encontrar uma maneira de escapar dos tiros, resume perfeitamente a combinação de romance, violência e humor absurdo que define Black Doves.
Williams acaba utilizando uma granada de fumaça para permitir a fuga, adiando qualquer resposta definitiva de Eleanor. As duas ainda precisarão resolver tanto seus sentimentos quanto o problema de terem aceitado um contrato contra alguém ligada às operações de Helen.
Com Sam prestes a procurá-las para participar do resgate de Reed, o episódio termina preparando um confronto no qual antigas alianças poderão se revelar muito menos confiáveis do que pareciam.

O passado nunca desaparece em Black Doves
O quarto episódio é particularmente interessante porque demonstra que a conspiração contra os Black Doves não nasceu necessariamente de uma disputa política ou de interesses internacionais, mas de uma decisão pessoal tomada por uma agente que acreditava conseguir manipular os acontecimentos para alcançar aquilo que desejava.
Reed provocou uma operação de extermínio porque queria escapar de uma vida que havia deixado de fazer sentido, mas acabou perdendo o amante, o companheiro e a filha. Sua tentativa de encobrir os acontecimentos permitiu que construísse uma carreira poderosa dentro da organização, embora o preço tenha sido transformar-se numa pessoa incapaz de reconhecer as próprias vulnerabilidades.
A comparação com Helen é inevitável. As duas mulheres confundiram identidades profissionais com relações pessoais e passaram anos sustentando histórias que não poderiam permanecer secretas indefinidamente. Reed parece representar o futuro mais sombrio de Helen, caso continue acreditando que poderá preservar a família enquanto manipula todos ao seu redor.
Sam oferece um contraste importante porque sua relação com o passado é marcada justamente pela incapacidade de esquecer. Enquanto Reed organiza assassinatos para eliminar pessoas que poderiam revelar seus erros, ele procura uma espécie de reparação junto àqueles que sofreram as consequências de seus atos, embora não consiga oferecer a verdade sobre sua responsabilidade.
Essa diferença ajuda a explicar por que a amizade entre Helen e Sam é tão importante, mas também tão problemática. Ele demonstra uma disposição quase ilimitada para protegê-la, enquanto ela frequentemente reproduz os mesmos mecanismos de manipulação que aprendeu com Reed.
Há ainda uma questão moral que o episódio torna impossível ignorar. Os Black Doves se apresentam como uma organização interessada exclusivamente em informações, sem compromissos ideológicos, mas sua atuação depende de pessoas capazes de mentir, manipular e matar para preservar interesses particulares. A liberdade que oferecem aos agentes parece existir apenas enquanto suas escolhas não ameaçam a estrutura de poder.
A descoberta de que Vita sobreviveu e a confirmação de que Franz foi assassinado por Helen demonstram que o passado de Reed está diretamente ligado aos acontecimentos que agora ameaçam destruir a organização. Ao mesmo tempo, a preparação do resgate coloca Sam diante de uma contradição quase impossível, porque ele recebeu ordens de eliminar justamente a mulher que sua melhor amiga pretende salvar.
O episódio termina deixando claro que ninguém conseguirá resolver a conspiração simplesmente eliminando os envolvidos, porque a violência que Reed tentou esconder durante décadas continua produzindo novas vítimas.
Talvez essa seja a grande ironia de Black Doves: seus personagens são extraordinariamente eficientes para apagar evidências, eliminar inimigos e inventar identidades, mas demonstram uma incapacidade quase absoluta de lidar com as consequências emocionais de suas escolhas.
Reed passou a vida tentando fazer o passado desaparecer, enquanto Sam procura desesperadamente uma maneira de conviver com aquilo que fez. Helen, por sua vez, continua acreditando que poderá escapar das duas possibilidades, sem perceber que a história de sua chefe talvez seja o aviso mais claro sobre o futuro que a espera.
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