A fantasia de um amor platônico

Margaret Pole e Thomas More são pessoas reais, que existiram e que foram canonizadas pela Igreja Católica. Como a série The Spanish Princess sugere, eles devem ter se conhecido na corte do Rei Henrique VIII, porém não há registro de interação, amizade ou sequer, amor. É uma liberdade poética das mais ousadas da série, que já levou a Rainha Catarina de Aragão – grávida – para o campo de batalha liderando um exército (isso, também, não aconteceu). Mas, para românticos, a possibilidade é de fato, bonita.

Catarina de Aragão, na série, foi para o campo de batalha, mesmo grávida

A história de Margaret Pole, assim como na série, foi triste e trágica. Acompanhamos sua trajetória desde The White Queen, sofremos com seu destino em The White Princess e estamos ansiosos para ver como será o final em The Spanish Princess. Assim como outras que na série ficaram apenas coadjuvantes – Margaret Beaufort teve destaque, mas nunca simpático – Margaret Pole merecia uma temporada ou mais para ela.

A verdadeira Margaret, assim como na série, era para estar na linha de frente na sucessão. Seu pai, duque de Clarence, se desentendeu com o irmão, o Rei Eduardo IV (tema de The White Queen). Um dos “irmãos York”, ele se envolveu em um infeliz golpe de estado e foi executado, embora alguns historiadores digam que ele “se afogou em um barril de vinho” acidentalmente.

Do lado materno, Margaret Pole era neta de um dos homens mais poderosos da Inglaterra, Richard Neville, o conde de Warwick, também executado como traidor. Em “desgraça” por estar ligada à uma linha “rebelde”, Margaret perdeu prestígio na família. Seus irmãos, os herdeiros da Coroa depois que os filhos de Eduardo IV desapareceram na Torre de Londres, foram executados em tempo também apontados como traidores. Margaret foi casada com um nobre, mas bem abaixo de sua posição de princesa. A união não foi infeliz, como mostra a série, mas ao ficar viúva, Margaret voltou a sofrer.

Na série, Margaret é uma tia querida de Henrique VIII. Ela era mais ligada ao irmão dele, Arthur, por isso sua relação com Catarina de Aragão se estabeleceu assim que a princesa espanhola chegou ao Reino Unido. As duas não eram amigas de cara, mas criaram uma conexão importante. Embora Margaret tenha se envolvido em armações contra a Coroa, por hora, está fiel aos Tudors.

Na temporada atual, Margaret Pole é interpretada por Laura Carmichael, que ganhou fama dando vida a outra nobre sofrida, a Lady Edith de Downton Abbey. Assim como Edith, que não era originalmente “simpática”, o carisma e doçura de Laura vão nos conquistando e ver a falta de sorte de Margaret se torna ainda mais doloroso com seu controle emocional.

Spoiler alert para quem não conhece a história de Margaret Pole, que não deve entrar em The Spanish Princess. Um de seus filhos será opositor ferrenho por parte da Igreja contra o divórcio de Henrique VIII e Catarina de Aragão. Porém, de uma forma jamais comprovada 100%, o nome da própria Margaret estará envolvido. Ela será presa e executada, mas sua morte foi tão horrível que é citada em todos os livros de História.

A violência de sua execução deram a ela também o papel de mártir para o Catolicismo e ela foi canonizada como Santa. Para os mórbidos e curiosos, assim foi a morte dela: condenados por traição eram, em geral, enforcados mas, antes de morrer, eram estripados vivos. Porque Margaret era nobre, mais ainda, uma princesa, ela “ganhou” o “direito” de uma “simples” decapitação. Agora que vem o pior e há duas versões. A primeira diz que o carrasco era inexperiente e errou o golpe várias vezes – 11 vezes, para ser exata – até conseguir matar Margaret, que sofreu com muita dor vários dos golpes (o primeiro foi no ombro). A segunda versão diz que Margaret se recusou a deitar para a decapitação, e, ao receber o primeiro golpe no ombro, tentou fugir para dificultar o trabalho. Por isso, precisou de 11 golpes para ser morta. O ponto comum foi de que foi violento e difícil. Ele cortou seu pescoço, ombros e cabeças várias vezes, fazendo-os em pedaços.

Uma das maiores liberdades que The Spanish Princess vem tomando nos últimos episódios é de dar a Maggie Pole um alento romântico, na pele do igualmente santo e mártir, Thomas More.

Interpretado por Andrew Buchan (que vimos em The Crown como Andrew Parker Bowles), Thomas More foi um advogado e filósofo executado por Henrique VIII por se opor ao divórcio do Rei para se casar com Ana Bolena.

Thomas era um dos principais conselheiros de Henrique, brilhante e estudioso e um homem extremamente católico. Em The Spanish Princess, ele observa a dignidade e integridade de Maggie, primeiro de longe e aos poucos, mais próximo. Cuidou da educação de seu filho (que mais tarde leva a mãe à desgraça e morte) e abertamente transforma a amizade dos dois em um amor platônico. O contraste das decisões dos dois em relação às paixões e ações dos Tudors, que traem, lutam e misturam casamento e política, é um dos diferenciais.

A série cria uma oportunidade para que eles tenham um momento para eles sonhem com o amor verdadeiro mas que, SPOILER ALERT, não consumam. Romance clássico e discreto.

O verdadeiro Thomas More foi executado alguns anos antes de Margaret Pole. Os dois se conheciam, sem dúvida, e estiveram em várias ocasiões no mesmo lugar. Porém não há registros de nenhuma relação entre eles, seja de amizade ou amor.

Como católico, Thomas não aceitou a decisão de Henrique VIII de rejeitar um casamento de 17 anos como inválido. Para se casar com Catarina, Henrique e ela lutaram com a Igreja para ter a autorização (ela era viúva do irmão mais velho do Rei, impossibilitando (pela Bíblia) a união) portanto para o advogado não havia argumento para questionar o que eles lutaram para aprovar, ainda mais porque era por um novo amor. No entanto, Thomas era astuto, sua oposição era silenciosa. Se afastou da Corte para não cometer traição e assim pretendia terminar seus dias, fiel à Deus e ao Rei. A pressão política impediu que seus planos fossem realizados. Preso e julgado, ele admitiu ao fim que era contra o casamento e contra as mudanças religiosas lideradas por Henrique. Foi decapitado e canonizado, citado para sempre como um dos exemplos de integridade e defesa jurídica.

Não se pode afirmar com a mesma veemência que Margaret Pole tenha sido, como mostra a série, a alma gêmea de Thomas More. Mas que o romance casto e impossível dos dois é um dos pontos altos da série, ninguém duvida.

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