Em “Mank”, David Fincher mergulha na história do maior filme de todos os tempos

Cidadão Kane é apontado há quase 80 anos como o melhor filme de todos os tempos. E é.

Das várias lendas que existem sobre os bastidores do filme dirigido e estrelado por Orson Welles, com meros 25 anos de vida na época, o mais doloroso mito sobre a produção diz que Orson – que ganhou o Oscar de Melhor Roteiro ao lado do co-autor Herman J. Mankiewicz não escreveu uma linha sequer da obra.

Quem “revelou” a “verdade” foi a crítica Pauline Kael, em um livro em que argumenta que a genialidade de Orson esteve “apenas” nos ângulos inovadores na época. Todo o texto, também pioneiro na quebra de linearidade e final surpreendente, seria exclusivamente da brilhante mente de Herman, mais conhecido como Mank. Embora os defensores de Orson tenham tentado desfazer essa idéia, que nasceu da briga entre os dois sobre os créditos, David Fincher SPOILER ALERT é pró-Kael e Mank é a história de como o ex-jornalista alcoólatra desenvolveu o mais brilhante roteiro de todos os tempos.

Para apreciar Mank, é preciso ter visto Cidadão Kane. (E quem já viu, vai querer rever mais uma vez assim que o filme acabar). O roteiro do pai de David, Jack Fincher, é repleto de metalinguagem e será mais reconhecido por cinéfilos. Desde a fotografia em preto e branco, as atuações teatrais dos anos 1940s, as idas e vindas entre “passado” e “presente”, Mank não perde tempo fazendo muitas apresentações ou explicações de quem é quem ou o que estão fazendo. Quem não tem conhecimento prévio dos nomes de peso em Hollywood na época, das políticas de estúdio ou da mídia, pode levar algum tempo para apreciar a inteligência de Mank, mas consegue se prender e acompanhar.

MANK (2020) Gary Oldman as Herman Mankiewicz. Cr: NETFLIX

Os fãs de Cidadão Kane ficam frustrados que Mank SPOILER ALERT não responde dúvidas específicas sobre o clássico, desde que quem teria escolhido o tema da história (a vida de William Randolph Hearst) ou justamente se a participação de Orson no roteiro possa ter sido – como dizem muitos – em uma das cinco revisões do roteiro final que chegou às telas. Não é essencial para os Finchers. Pai e filho focaram na fonte que une Mank e Cidadão Kane, que é a motivação corajosa e precisão do roteirista, que conviveu com Hearst e esteve em seu palácio, para criar o maior filme de todos os tempos.

A importância de Mank está justamente nessa questão. Hearst estava vivo quando Cidadão Kane chegou aos cinemas e ficou furioso com o filme, tendo perseguido tanto Orson quanto Mank após o lançamento. SPOILER ALERT. Na visão de Fincher, frustração e culpa motivaram o roteirista a ir na jugular do bilionário, sem poupar nem mesmo a doce Marion Davies. Mank estava enojado com a manipulação política de Hearst, que usou de fake news para mudar o resultado das eleições na Califórnia e consequentemente destruiu a alma e a vida de um amigo do jornalista. Sim, Fincher mostra o quanto Cidadão Kane segue atual e relevante.

Gary Oldman é Mank e sendo “o ator dos atores” que é, não consegue não ser maravilhoso. A sagacidade mordaz e bêbada de Herman J. Mankiewicz são perfeitas na atuação de Gary, que pode receber mais uma indicação ao Oscar por ela.

David Fincher é um dos maiores diretores dos últimos anos em Hollywood e, certamente, Netflix, onde é a força criativa de House of Cards e Mindhunter. Embora tenha chegado à fama com filmes de ficção, Seven e Clube da Luta são perfeitos, o diretor passeia também por literaturas clássicas e recentes, O Curioso Caso de Benjamin Button, Gone Girl e A Garota do Dragão Tatuado são alguns exemplos, mas são nas biografias que ele realmente se destaca, como A Rede Social e Zodíaco. Você sente o prazer dele em Mank.

Será curioso ver se a Academia vai reconhecer Mank com indicações (além de Gary Oldman) porque o antagonista na história é justamente Irving Thalberg, o produtor e diretor linha dura que esteve à frente dos anos dourados da MGM. No Oscar, desde 1937, há uma premiação especial para produtores que é justamente o Prêmio Memorial Irving G. Thalberg (Irving G. Thalberg Memorial Award). A intenção é homenagear profissionais dedicados a produção de filmes de qualidade. Se Mank estiver entre os Melhores Filmes do Ano, será, minimamente, irônico. Ao mesmo tempo, importante.

Mank já está disponível na Netflix. Veja quem é quem em Mank, aqui.

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