O difícil papel de Camilla

Era criança quando Charles e Diana se casaram, portanto acreditei no conto de fadas. Era adolescente quando li a versão da princesa Diana sobre o fim de seu casamento e fui impactada pela visão negativa que ela conferiu para o ex-marido, príncipe Charles e sua amante, hoje esposa, Camilla Parker-Bowles. Não há dúvida de que Diana via sua história como ela sentia e ela era uma mulher magoada. Dessa forma, Charles e Camilla eram pessoas insensíveis, cruéis e manipuladores.

Diana, infelizmente, faleceu quando ainda se sentia assim. Não saberemos se ela mudaria seu ponto de vista. Conheço mulheres que mesmo mais de 40 anos depois de terem sido trocadas, ainda ressentem a traição e não aceitam a história de amor dos outros. Possivelmente Diana jamais teria sido amigável com o ex e seus filhos não tivessem a boa convivência que vieram a ter. De novo, nunca saberemos.

O que vimos foi que, sem Diana, passou o tempo e Charles e Camilla finalmente se casaram. Com apenas a versão deles – bem mais light, claro – sendo compartilhada, passamos a olhar com menos reatividade para a narrativa do sofrimento que passaram até conseguirem ficar juntos. Segundo eles, “o sistema” foi o vilão, separando os amantes verdadeiros e ferindo Diana no processo. Mas o amor venceu no final.

Camilla, que era a vilã da Disney, sabiamente nunca forçou a mão em público. Manteve sua discrição, não mudou seu estilo de se vestir, não demonstra preocupação em condenar a versão de Diana ou nem mesmo a de Charles. Ele claramente é feliz ao seu lado e aparentemente é o que basta. Com a morte de Diana, ela não apenas finalmente se casou com Charles, mas passou a ser uma mãe para William e Harry. Ajudou a Kate Middleton a se ajustar na Família Real. Foi atenta à Meghan Markle. Harry é frequentemente e publicamente carinhoso com ela em público. Diana teria detestado, mas a vida seguiu e Camilla foi aceita. Inclusive pelos súditos.

A terceira temporada de The Crown, que mostrou o início do romance entre Camilla e Charles, foi até positiva, pois, segundo a série, os dois nunca tiveram chance. Foram separados por parentes porque Camilla tinha um passado e um presente, na forma do (então) namorado, Andrew Parker Bowles. Mesmo com Charles sendo claro que ela era “a escolhida”, não era aceitável. Nesta etapa da série da Netflix, ficou um sentimento de simpatia e de pena no ar, um lado de amor impossível que inspira os românticos. Camilla e Charles nunca estiveram mais populares.

Porém a curva era previsível e veio a quarta temporada, 99% baseada na versão de Diana sobre a história. A simpatia foi por água abaixo. A impopularidade voltou e agora, as queixas sobre o conteúdo.

Minha cultura de Família Real não é da série, que acho muito apurada. Portanto não me iludi de que, quando Diana entrasse na trama, a narrativa tomaria outra direção. Já falei sobre Charles em outro post, mas hoje penso em Camilla. Segundo tabloides britânicos, ela voltou a adotar a estratégia de ficar nos bastidores porque tem perfeita noção de que os admiradores de Diana ainda a vêem como destruidora de lares. E aqui está o problema na defesa do casal.

É compreensível de que tanto Charles quanto Camilla se vejam como inocentes. A história de como foram negados a se casarem desde o inicio não é questionável, ali nasceu a tragédia. Como a série comenta, já deveriam saber que traria problemas. A dinastia Windsor mudou o rumo por causa de um casamento, com um Rei abdicando o trono por amor. Uma princesa (Margaret), mesmo se submetendo a todas exigências absurdas de protocolo para se casar com quem queria, foi negada. Charles não apenas não teve opção, como foi pressionado para escolher alguém sem gastar tempo e todos os elementos de infelicidade foram se somando. Nem Diana negava isso.

Admitir responsabilidade e ter empatia me parece ser – ainda – o grande problema de Camilla e de Charles. Eles se vêem vitimizados no mesmo grau que Diana, mas a princesa estava certa, ela era a principal sacrificada. Camilla, diferentemente de Diana, não apenas conhecia bem as regras do jogo, era uma ótima jogadora. Ela aceitou a hipocrisia do papel de amante e estava ok com o status quo. Diana, que entrou na partida sem ter idéia, jamais consentiu que faria parte da equação. Foi um erro de Charles com uma consequência inegável.

Uma das coisas que o casal não entende em relação à Diana foi a frustração dela de que, mesmo com a interrupção do caso dos dois por alguns anos, Diana, percebeu que nunca teve a oportunidade real de ter um casamento com Charles. Tanto Camilla quanto Charles se indignam com a reação dela e da opinião pública, alegando que só reataram o romance depois de que o príncipe reconheceu que seu casamento com Diana não tinha recuperação. Diana nunca teve a mais remota chance de ter tido um casamento.

Seguindo o raciocínio de que eles que eram as vítimas, as fontes próximas ao casal insistem que a narrativa da quarta temporada de The Crown está errada. Na série, eles estão em constante contato e certamente ainda são amantes. Charles e Camilla só “retomaram” o caso entre eles em 1986. Isso faria de tudo que Diana sentiu e reclamou, mentira? Ou imaturidade? Insensibilidade?

O que parece faltar, na empatia da dor de Diana, é entender que traição no amor não é apenas física. Há traição sentimental. Mesmo que seja verdade que ficaram apenas amigos por cinco anos, com os dois em contato constante, o romance entre eles efetivamente nunca foi interrompido. Não foi capricho de Diana.

Camilla, embora claramente uma mulher racional, não ajudou. Hoje vemos que foi por amor, mas ela não contribuiu em mudar a partida quando foi colocada no banco. Poderíamos aceitar a sugestão implícita de que ela, assim como Diana, não tinha força para mudar as regras. Tentou ao se casar com outro, até de interromper o caso, mas não há histórico de que ela tenha efetivamente endurecido e forçado a Charles a esquecê-la. Se isso é verdade, como Diana acreditava, então Camilla também foi cruel com a princesa.

Ao que vejo, hoje, falta a Camilla e a Charles entenderem que não há como ter indignação sobre a negatividade sobre a relação deles no passado. A dor ficou eternizada com a morte prematura de Diana. Eles foram cruéis com ela, eles não vêem razão para se desculparem e não vêem o erro que cometeram. O amor verdadeiro entre os dois é lindo, porém ele foi inconsequente. Diana chutou o balde para que não ficasse na história como responsável. E, nem na época ou aparentemente agora, a ouvem. Por isso, não é disclaimer de série avisando que tem The Crown é uma “obra de ficção” que vai mudar alguma coisa.

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