Comparando os fenômenos

Game of Thrones e Vikings são séries que falam com um público semelhante e que foram contemporâneas, despertando paixão dos fãs igualmente. Mais ainda, foram gravadas nos mesmos estúdios, na Irlanda.

Game of Thrones se despediu em 2019 e Vikings, concluiu sua narrativa na virada de 2020 para 2021. A grande diferença está na conclusão. Enquanto Game of Thrones optou pelas surpresas, Vikings foi respeitosa com suas personagens, amarrando as questões em aberto e deixando o caminho para uma continuação.


Há algumas diferenças básicas. Enquanto Game of Thrones era sustentado por best-sellers e era um investimento da Warner, trazia dois novatos como show runners. Já Vikings nasceu do escolado e indicado ao Oscar Michael Hirst (Elizabeth, The Tudors) e inspirado em personagens verdadeiros, numa produção da MGM para o History Channel. A diferença autoral ficou mais clara na conclusão de ambas as séries, que reacendeu a tristeza e dor da ferida nos fãs sobre um dos piores finais de séries da História da TV, a de Game of Thrones.

O budget de produção de GOT era visivelmente superior ao de Vikings, mas não demorou muito para que houvesse rupturas entre os fãs. Boa parte dos meus amigos, por exemplo, acabou se dedicando mais à Ragnar Lothbrok do que à Jon Snow. Também achavam Lagertha mais forte do que Daenerys. O elemento mágico dos vikings estava na sua crença nos deuses pagãos, enquanto GOT era puramente e 100% fantasiosa.

O fato de que a trajetória dos vikings foi real, fez com que os relatos incríveis ganhasse outra perspectiva e permitiu a Michael Hirst construir melhores reviravoltas que seriam inacreditáveis se não fossem uma verídicas. A base ‘realista’ de Game of Thrones era aludir à Guerra das Rosas de alguma forma, seguindo de longe a saga dos Plantagenet. As metáforas dos Night Walkers, dos dragões e outros elementos sobrenaturais tinham sua lógica, mas afastavam identificação com o mundo real e uma boa parte da audiência.

As duas séries estudaram de alguma forma, assim como O Senhor dos Anéis, como o Poder corrompe almas e boas intenções. As duas séries divergem em suas conclusões. Abaixo, uma comparação entre personagens/ momentos parecidos e de conclusões distintas entre elas.

A maior parte das reclamações dos fãs radicais de Game of Thrones são sobre o destino de Daenerys Targaryen, que, em uma virada surpreendente, não era o que parecia ser há sete temporadas. Pessoalmente, eu gostei da opção porque além de já ter visto que ela estava indo para o caminho da loucura, como um Frodo corrompido pelo Anel do Poder, achei que foi sensacional inverter a história em apenas um segundo. Ela teria razão? Ela nunca foi quem achava que era? Cersei Lannister estaria certa sobre os Targaryens? A mudança fez de Daenerys uma personagem tridimensional, inicialmente com a melhor das intenções e ações, porém que sucumbiu ao jogo do trono.

Não sou atriz, mas imagino que a mudança radical da percepção de uma personagem fosse uma oportunidade incrível para mostrar a versatilidade. Porém, pelos relatos, Emilia Clarke teria ficado triste depois de ler o roteiro, passando horas andando sem destino, remoendo como seria a última imagem de Daenerys na série.

Tyrion Lannister, que rendeu vários merecidos Emmys a Peter Dinklage, também foi muito prejudicado na história. A narrativa em parte tinha sua condução, ele transitou entre todas as casas que brigavam pelo trono e com um cinismo que equilibravam a fantasia e o drama da história. No entanto, quando se aproximou do fim, perdeu toda perspicácia que o permitia ver além das pessoas. Para quem dizia que “bebia e sabia das coisas”, ele se enganou demais.

O mesmo não se pode falar de Jon Snow, que fez de Kit Harignton uma estrela. Jon Snow é melhor herói que é super herói e humano de todos os tempos na TV. Em anos em que anti-heróis lideravam as histórias e melhores séries, Jon Snow se destacava por sua integridade, generosidade e lealdade, sem jamais chegar sequer perto do ridículo.

Não é fácil fazer o herói. As melhores falas vão para os vilões, a inteligência e tudo o mais. A morte de Jon Snow parou o mundo, mas a batalha dos bastardos já foi um prenúncio de o quanto iriam destruí-lo na série.

Vimos em sete temporadas que Jon tinha que enfrentar o Night King, o grande vilão mudo que vinha destruindo o mundo dos vivos enquanto a humanidade seguia brigando por um trono feio e inútil diante da Morte. Porém, os show runners decidiram que seria melhor que não apenas Jon não matasse seu arqui-inimigo, mas que estivesse longe no momento, gritando com um dragão. Literalmente. Era como se Bjorn Ironside escapasse ileso de Ivar e tivesse ido enfrentar os russos, só no último momento ficasse longe e Ingrid fizesse todo o trabalho sozinha. Não, né?

Investimos 10 anos na história do Jon, o único que temia e avisava sobre o Night King para no final termos Arya, que só soube do perigo no episódio 3 da última temporada, voando do além para facilmente matar o vilão que era imbatível há três mil anos. Isso porque os show runners acharam – corretamente – que jamais imaginaríamos isso. Talvez apenas porque essa fosse uma péssima idéia.

O paralelo com Vikings pode ser de novo feito com Arya, Ivar e Hvitserk. Desde a temporada 4, Ivar prometeu matar Lagertha para vingar o assassinato de sua mãe. Na cultura viking, ele tinha direito a isso. Passou a temporada 5 se chamando de Deus e dizendo que iria matá-la. Por sua vez, Hvitserk aparentemente não se importava com a vingança da mãe, mas anunciava a cada cena que iria matar Ivar. Chegou a temporada 6 e, surpresa, Hvitserk mata Lagertha achando que estava matando Ivar.

Vikings, mesmo com falhas, manteve uma coerência que Game of Thrones perdeu. A complexidade da relação familiar entre os filhos de Ragnar compensava as falsas promessas ou reconciliações. Por mais que fossem ligados, ao trocar Jon e Arya de função o drama perdeu sentido. Foi fácil para Arya, foi frustrante para todos nós e Jon. A ele coube matar Daenerys, que todos amavam. Como se Bjorn tivesse matado a própria mãe ao tentar atacar Ivar.

E Bran Stark? Alô, Ivar! Um deficiente físico superar as dificuldades de tempos medievais era algo inspirador e até inovador. Ivar foi apresentado como um vilão, uma espécie de Ramsay Bolton e Joffrey Baratheon, mas sua redenção foi bonita, fez sentido e ele não se afastou tanto de sua essência cruel e sangrenta.

Com Bran Stark perdeu a habilidade de andar e sua missão na história parecia ser se transformar no 3 Eyed Raven, uma espécie de Seer, com poderes de viajar no tempo. Não era isso. Na verdade, era para que ele fosse Rei no lugar do verdadeiro herdeiro, Jon Snow. Nada de errado com Bran ser o rei e Jon escolher o exílio. Mas a versão final temos um Jon Snow inútil, confuso e punido com exílio, mesmo depois de “salvar” mais uma vez todo mundo matando Daenerys. Ficou um vazio.

Por isso o sacrifício de ver Ivar, dar sua vida pela de Hvitserk na batalha final de Viking, foi tão emocionante quanto surpreendente. Sem se distanciar de sua essência cruel, afinal ele matou vários soldados, seus ossos estavam quebrando, a dor estava insuportável e ele, sabendo o que viria, escolheu salvar o irmão. Mesmo que parecesse tolo se deixar facilmente esfaquear por um soldado, foi uma virada de jogo. Assim como quando ele surpreendeu Bjorn e feriu mortalmente seu próprio irmão.

As comparações entre Vikings e Game of Thrones estão longe de terminar, pois ambas já estão com seus spin offs em produção. Vikings: Valhalla vai avançar no tempo e contar a história de outros vikings conhecidos. Desta vez é a Netflix que investe na produção. Já a HBO, aposta em House of Dragons que volta ao período anterior a Game of Thrones e contará a saga da família Targaryen. Ambas são esperadas para 2022. Falta muito!
Valar Morghullis.

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