A maldição da Mansão de Bly

O livro A Volta do Parafuso, clássico de Henry James, foi publicado em 1898. Como tudo que o escritor americano fez, é brilhante. Não é longo e definitivamente apavorante. Ele usou os elementos tradicionais góticos – uma mansão isolada, fantasmas, crime, sexo, religião – e acrescentou duas crianças à trama. É a tal “volta do parafuso” que dá título à obra e amarra todos os ítens de uma boa história de horror. Para fechar a equação, quem conduz a narrativa na primeira pessoa é uma jovem governanta com uma suscetibilidade (ou imaginação?) perigosa para assuntos do além. A fórmula é infalível.

Histórias de fantasmas são sensacionais quando tem uma mente brilhante como a de Henry James. A obra é atemporal e fala com tantas pessoas de diferentes culturas e crenças justamente porque ele estabelece na governanta o que pode ser usado contra ela mesma. A juventude, a repressão sexual, a inexperiência, a obsessão religiosa e o medo do desconhecido. Há sempre a opção igualmente aplicável tanto para ser uma história de fantasmas quanto a de uma mente delirante depois de pressões extraordinárias. O filme Os Inocentes, lançado há 60 anos, captou com perfeição o que livro ofereceu, com um roteiro assinado por Truman Capote e William Archibald. Vamos falar do filme com mais detalhes em outro post, no momento o foco é a série A Maldição da Mansão de Bly, da Netflix.

Parte da franquia The Haunting, que estreou em 2018 com a adaptação de outra obra de horror, A Maldição da Mansão Hill, A Maldição da Mansão de Bly se inspira em A Volta do Parafuso, trazendo a trama para os anos 1980s e repetindo boa parte do elenco da série anterior. Agora é hora para confirmar que teremos SPOILERS.


A Maldição da Mansão de Bly foi um dos temas mais procurados no Google Trends de 2020, um fenômeno da pandemia. É divertida, mas derrapa no clichê e até cafonice. Os três primeiros episódios são efetivamente calcados na história de Henry James, com algumas liberdades poéticas que estavam toleráveis. A ótima Victoria Pedretti captou bem a instabilidade emocional da governanta, essencial para a abertura com o sobrenatural. Um dos problemas de Os Inocentes está justamente na idade avançada de Deborah Kerr, pois uma pessoa mais vivida em tese não teria se deixado influenciar como ela. Portanto, a juventude de Victoria é um acerto.

Outro ponto positivo é a atuação dos atores mirins Amelie Bea Smith (Flora) e Benjamin Evan Ainsworth (Miles). Flora e Miles SPOILER ALERT, que na verdade estão encarnados por adultos, precisam ter a duplicidade da inocência infantil e a coerência de uma atuação adulta. Os dois tiram de letra e garantem toda credibilidade para história. E a trilha sonora dos The Newton Brothers resgata a perfeita O Willow Waly e apresenta temas lindíssimos novos.

A Maldição da Mansão de Bly derrapa quando se afasta da trama de A Volta do Parafuso, incluindo mais elementos completamente desnecessários, como incluir a história da Dama do Lago. No original de Henry James e no filme Os Inocentes, a imagem é apavorante. Em Maldição de Bly, perdeu peso e na verdade só complica uma história que já estava resolvida antes. Uma pena, porque começa de forma promissora.

Se você não leu o livro nem viu o filme de 1961, vai curtir. Porém, recomendo que vá à fonte original porque ela é excepcional.

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