Um drama atrás do riso de Coppélia

Coppélia é um dos balés mais divertidos da dança, com uma música inspirada fe Leo Delibes, e trama leve. Porém, esconde uma triste história de bastidores.

Criado pelo brilhante Arthur Saint-Léon, na época oficialmente o coreógrafo do Ballet Imperial, na Rússia, e do Opera de Paris, Coppélia levou anos para ficar pronto porque Arthur se deslocava entre os países para fazer o trabalho em duas companhias.

Antes de Coppélia, Arthur criou o também icônico Giselle, dramático e inovador. Coppélia é, em sua essência, o oposto. Feito para rir e divertir, a trama, baseada em um conto de E. T. Hoffman, sobre um fabricante de bonecas polonês que sonha dar vida à sua principal boneca, Coppélia, usando de mágica. Porém é enganado por uma divertida heroína esperta e ciumenta. Coppélia antecipou outros ballets ao redor de “bonecos”, como O Quebra-nozes e Petrouchka.

Quando finalmente estreou, em 1870, a produção foi um sucesso fenomenal. Os bastidores, no entanto, pareciam sinalizar desde cedo as dificuldades que viriam à frente. Para dançar como Swanilda, coreógrafo francês inicialmente queria a bailarina alemã Adèle Grantzow, que dançava no Bolshoi, na Rússia. Ela se dedicou à criação, mas ao longo dos vários anos que levou para se terminar o balé, Adèle se machucou e teve que sair do elenco. Arthur então saiu na busca da substituta que deveria aprender tudo em tempo recorde. Escolheu então a adolescente Giuseppina Bozzacchi para o papel principal.

Giuseppina ainda não tinha estreado nos palcos mas tinha grande potencial. Seus primeiros passos, em Milão foram supervisionados por Amina Boschetti, mas logo se mudou para Paris onde seguiu os estudos. Quando Arthur Saint Leon a descobriu, tinha 16 anos.

Coppélia foi um sucesso estrondoso e Giuseppina virou uma estrela. A temporada foi curta, 18 noites, mas adorada. O próprio imperador Napoleão III esteve na noite de estreia, acompanhado por sua esposa. As apresentações foram interrompidas depois de apenas 9 semanas por causa da guerra entre França e Prussia, que fechou os teatros.

O conflito chegou à Paris, com a cidade sitiada. Arthur Saint Leon sofreu um infarto fulminante, aos 49 anos, deixando sua jovem musa desolada. Mas haveria mais tristezas.

Giuseppina se recusou a sair da cidade. Sem apresentações, os bailarinos ficaram sem salários e ela passou a ter dificuldades de alimentação. Enfraquecida, pegou catapora, na época uma doença muito perigosa. Sem defesas ou cuidados, a febre foi aumentando e não havia tratamento. No dia de seu aniversário de 17 anos, a jovem bailarina morreu, virando uma lenda de promessas não realizadas na Histórica da dança, como Emma Livry.

A tragédia guardada a ainda mais uma vítima. Adèle Grantzow, que seria a Swanilda principal, ficou gravemente doente e teve que amputar uma de suas pernas. Ainda assim, por ser leve e divertido, Coppélia é um dos balés mais dançados no mundo até hoje.

Marius Petipa adaptou a montagem de seu mentor, Arthur Saint Leon, na Russia e por isso ainda conhecemos o original. No Rio, a versão que é montada desde 1981 é a do American Ballet Theatre, de 1971, assinada por Enrique Martinez e criada para Carla Fracci e Erik Bruhn.

Uma das versões mais aplaudidas e inovadoras é a de Roland Petit. Nela, o Dr. Drosselmeyer é menos vilanesco ou cômico e mais visto como um “Fred Astaire”. Tive a grande chance de ver o coreografo dançar esse papel, em Paris, no final dos anos 1990s. Emocionante.

Alexandra Danilova foi uma Swanilda famosa nos e Moira Shearer aparece em uma cena do balé, no filme Sapatinhos Vermelhos.

Coppélia tem outra peculariedade. Na época, era um dos balés onde o papel principal masculino era dançado por mulheres travestidas. Mas isso é para outro post.

Veja Mikhail Baryshnikov e Gelsey Kirkland

E o genial Roland Petit

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