O verdadeiro poder das mulheres de Game of Thrones

Quando George R R Martin começou a saga de Game Of Thrones o mundo era bem diferente. Décadas antes do movimento do #metoo, a história inspirada na Guerra das Rosas, retratava um universo semelhante ao medieval, onde as mulheres tinham que se submeter ao machismo reinante, mesmo sendo uma obra de fantasia. Ainda que fortes, as heroínas não eram poupadas de violência, humilhação e falta de protagonismo. Sexo era usado contra elas e por elas. Embora incômodo – Daenerys Targaryen tinha menos de 15 anos quando foi vendida pelo irmão e violentada pelo marido – era, como se defendia, “condizente” com a época.

A série de mesmo nome na HBO era, até a quarta temporada, bastante fiel aos livros e muito se questionou da violência contra mulheres e nudez feminina quase gratuita, entre outras coisas. A aparente vilã, Cersei Lannister tem filhos nascidos de uma relação incestuosa com o irmão gêmeo e tem duas frases fortes sobre Poder. “Quando se joga o jogo dos tronos ou se ganha ou morre” e “o verdadeiro poder das mulheres está entre suas pernas”. Ui.

A segunda afirmação, em tempos atuais, não teria passado batido. Não chega a cancelar a obra, mas ressalta o quanto avançamos nos últimos anos. É um conceito que ainda encontra eco entre os machistas e que mesmo dentro da série, mudou. Não por iniciativa dos showrunners, mas porque Game of Thrones, a série, não teria tido fôlego se não se adaptasse. Os livros, ainda não concluídos, estão em uma arapuca.

As mulheres de GOT ganharam protagonismo e inutilizaram os heróis tradicionais. É hora para comentar. Tem SPOILER.

Na 1a temporada, Arya e Sansa Stark são crianças. Embora Arya queira lutar “como um homem” e seja encorajada pelo pai, é “contra” a normalidade. Sansa quer se casar e ser rainha, mas passa pelas maiores torturas físicas e psicológicas da série. Sem autoestima e se dizendo burra, ela tem a maior transformação de toda a série e não fosse os dias de hoje, dificilmente teria terminado poderosa e Rainha do Norte. Nem Arya teria terminado a guerra de três mil anos contra os night walkers, que parecia ser o destino de Jon Snow, o herói. As duas estavam destinadas a fins infelizes e coadjuvantes mas, literalmente, reescreveram suas trajetórias.

As adultas tiveram menos sorte. Catelyn Stark foi morta. Cersei Lannister, que era manipuladora e tida como “ineficiente” em política, igualmente inépta para reinar, conseguiu eliminar quase todos seus inimigos e – temos que dar crédito – não apenas recuperou a economia falida que recebeu com a Coroa como foi brilhante na estratégia de Guerra. Inclusive chegou muito perto de vencer Daenerys mesmo sem a ajuda de nenhum dragão. Se dá pouco crédito a Cersei por ser tão consistentemente má, mas foi (brevemente) uma grande Rainha.

A trajetória e destino de Daenerys Targaryen é um dos mais polêmicos da História da TV. Aparentemente a mais fiel ao livro, ela tem uma virada que se encaixa na trama enna época em que foi imaginada, mas que destoou do que se aceita hoje. Daenerys está na saga para recuperar o trono tirado de sua família.

Porém, com o poder de três dragões sob seu comando, “enlouquece”, mata inocentes e “precisa” ser morta por Jon Snow para que o mundo seja salvo. No final das contas foi “mocinha” por sete temporadas para virar clichê no final. Mais uma mulher sem estrutura emocional que perde a razão quando é rejeitada pelo amante e o povo.

Não incomodei com a “virada” de Daenerys, embora a personagem que vimos crescer jamais seria a genocida dos últimos episódios. Vaidosa, ambiciosa e até levemente enlouquecida? Sim, mas genocida? No caso dela a loucura parecia mais um desfecho dramático do que machismo, mas posso estar errada.

Jon Snow foi a principal “vítima” de tudo. Lutou pelo certo e se manteve íntegro, mas proporcionalmente às mudanças de Sansa, em especial, foi perdendo relevância. Perdeu a Batalha dos Bastardos por não seguir os conselhos de Sansa, que virou o jogo. Não matou o Night King porque Arya era mais ágil e matou o vilão. E para fechar com chave de ouro, foi o escolhido para trair e matar Daenerys, sendo exilado e perdendo o trono que era seu por direito. E Jon foi um dos raros homens respeitosos e íntegros da história. Coitado…

Foi para Sansa que Cersei ensinou o pensamento machista sobre o poder feminino. E, embora nem tanto popular como o resto, não sucumbiu ao jogo. Sansa foi a melhor jogadora de todos e a grande vencedora do Jogo dos Tronos. Se o escritor tivesse acabado os livros a tempo, dificilmente a conclusão da história seria a mesma. Em geral, as mulheres sairam por cima. A ver como será com House of the Dragon, que terá questões bem parecidas.

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s