Quem foi Marie-Andrée Leclerc, a cúmplice do “Serpente”

Esse post tem spoilers de O Paraíso e a Serpente.

A canadense Marie-Andrée Leclerc morreu em 20 de abril de 1984, de câncer, aos 38 anos. Sua história é associada eternamente ao tenebroso assassino Charles Sobhraj, de quem foi amante, cúmplice e parceira em vários golpes e crimes entre os anos 1975 e 1976, que é recontada na série da Netflix, O Paraíso e a Serpente.

A natureza da relação entre Marie-Andrée, tanto na série quanto na vida real, permaneceu um certo enigma. O que fez uma mulher vivida de 30 anos, com trabalho e segurança no Canadá, largar tudo para ir viver um grande amor com um desconhecido? Mais uma mulher vítima de “amor bandido”, que foi minimamente cúmplice de mais de 10 mortes entre 1975 e 1976, na Ásia.

Marie-Andrée nasceu em Quebec, onde era enfermeira. Foi noiva, mas não chegou a se casar. Conheceu Charles Sobhraj durante uma viagem à Índia, em 1975, onde iniciaram um romance. Os dois trocaram cartas de amor por três meses até que ele mandou uma passagem para Marie-Andrée ir ao seu encontro na Tailândia. Porém, imediatamente após o reencontro, ela descobriu a verdadeira natureza do namorado.

De fora parecia que ela era apaixonada e submissa a Charles. Mais tarde, ao escrever sua autobiografia, Marie-Andrée alegou que teria sido coagida a participar dos golpes, preparando as drogas que eles misturavam nas bebidas das vítimas e depois viajando com ele como se fosse sua esposa. Não combina com os testemunhos contra ela.

Na série, Marie-Andrée – usando o nome de Dominique – também ajudava a Charles a escolher as pessoas em que dariam os golpes assim como era ela quem as abordava pessoalmente. Portanto era mais ativa do que queria admitir depois. O Paraíso e a Serpente deixa implícita a manipulação de Charles, ressaltando a baixa autoestima de Marie-Andrée, porém não explica suas escolhas. Sua vizinha, Nicole, acreditava (e acredita até hoje) no medo que a canadense sentia do namorado. Há uma frase que está na série, em que Marie-Andrée fala dos ciúmes de Charles e que é uma prisioneira dele, sem passaporte ou dinheiro, acreditando que ele a mataria se tentasse fugir. Essa frase foi mencionada no testemunho de Nicole.

Marie-Andrée Leclerc em 1975

No entanto, o depoimento de uma das raras vítimas a escapar com vida, o francês Dominique Veylau, foi determinante na condenação de Marie-Andrée. Afinal era ela quem preparava as drogas aplicadas nos turistas, incluindo Dominique, e viajou com os passaportes roubados mais de uma vez, acompanhando o namorado. Ela nunca teria sido publicamente ameaçada, fazia aparentemente por opção.

Charles e Marie-Andrée foram presos em 1976, na Índia, onde foram condenados a 12 anos de prisão. Foi nessa época que escreveu o livro, Je Reviens, na qual afirmou que nunca foi apaixonada por Charles Sobhraj, argumentando ter sido vítima de manipulação, violência e ameaças. Além da versão de Dominique e os diários pessoais que escreveu descrevendo sua paixão por Charles, Marie-Andrée chegou a testemunhar a favor do parceiro, por isso essas coisas contradizem sua biografia.

Marie-Andrée Leclerc em 1984, pouco antes de sua morte

Ainda na prisão, Marie-Andrée foi diagnosticada com câncer de ovário, em 1983. Apelou na justiça e foi liberada para passar seu último ano de vida no Canadá, onde concedeu entrevistas defendendo sua inocência. Difícil acreditar nela quando esteve ao lado do assassino, drogando as vítimas que ele acabou por assassinar.

A atriz, Jenna Coleman, leu seus diários e biografia para se preparar para o papel e tenta passar empatia. A atriz defende a tese de lavagem cerebral como o motivo de sua participação. Ela preferia viver a ilusão do que encarar a realidade.

A trajetória de Marie-Andrée lembra, de certa forma, a relação entre a empresária Ghislaine Maxwell e o pedófilo Jeffrey Epstein. Ghislaine, que será julgada em julho pela participação em uma rede internacional de exploração de menores, insiste em sua inocência, embora uma série de vítimas a identifiquem como parceira ativa do falecido Epstein em seus crimes. Ghislaine e Epstein teriam sido namorados em algum período e ele se referia a ela como sua “melhor amiga”. São mulheres que em algum momento querem mudar de papel, mas não tem como negar os fatos. Ghislaine é para outro post. No caso de Marie-Andrée Leclerc, sua morte dolorosa, mas rápida, não permite elucidar a principal questão em torno de todas as mortes: por que?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s