Quando Philip e Diana se desentenderam

A vida do príncipe Philip foi de superação. Do parto difícil, à fuga pela vida ainda bebê sendo colocado em caixa de laranjas para escapar, a mãe mentalmente perturbada, a irmã carinhosa que era nazista e morreu em um acidente de avião, a carreira militar interrompida pela ascensão da mulher ao trono, as crises políticas, as crises pessoais… em 99 anos, pode-se de dizer que Philip Mountbatten foi um sobrevivente. Tendo mantido a força e o dever acima da dor pessoal, mesmo com personalidade forte, ele tinha dificuldade de compreender sofrimento. Considerava manhas. E sabendo o que ele mesmo sacrificou em nome da Monarquia, era implacável. Ou parecia ser.

Antes de ter abertamente problemas com sua nora, Diana, Philip também viveu uma conturbada relação com o primogênito, Charles. A série The Crown recontou parte dessa história de um relacionamento fraturado e distante, onde o filho intelectual e sensível é tão diferente de seus pais. Porém, devido aos valores de seu tempo, quando chegou a hora, Philip insistiu que o futuro Rei da Inglaterra escolhesse uma consorte “digna” da posição. Algo que Elizabeth II fez ao escolher a ele, quando ainda era uma pré-adolescente.

Diana Spencer, com apenas 18 anos, era perfeita. A série da Netflix mostra como Philip, se encantou com a docilidade e beleza da jovem.

Em 11 anos de casamento o sogro passou a ser uma das pessoas a quem a princesa guardou maior ressentimento e ofensa. Ao que parece, o sentimento foi mútuo. A relação entre os dois será parte da próxima temporada também.

Sendo “relegado” à apagada posição de consorte, Philip sofreu com o sistema, mesmo sendo parte dele. Ele não aceitava exceções quando não pôde tê-las, por isso nem sempre era uma figura popular. Ainda assim, do seu jeito duro e “machão”, ele tentou acertar. Oferecia suas palavras de apoio em cartas e conversas francas, mas nem sempre encontrava compreensão do outro lado.

A princípio, Príncipe Philip era team Diana quando o filho não conduziu o casamento como esperado dele. Nem ele nem a Rainha aprovavam Camilla Parker Bowles e subestimaram a força do amor entre ela e Charles. Mais ainda, tendo se adaptado ao que era esperado dele, Philip não entendia como simplesmente alguém poderia bater o pé para ter o que queria e mudar as regras. Como militar e como súdito de sua esposa, ele tinha empatia pela dor, mas nenhuma tolerância com “rebeldia”. Tendo vivido na pele as dificuldades, acreditava ter estabelecido um modelo a ser seguido. Como se enganou.

Diana Spencer era doce e tímida, mas nunca foi uma personalidade fraca. Era uma jovem confusa e romântica, que queria o sonho prometido e não aceitou de forma alguma sobreviver a uma farsa. Philip, assim como seu neto William recentemente fez com o irmão Harry, queria ajudar, mas sempre manteve a Coroa à frente da família.

Em sua biografia, Diana comentou que ficou magoada com a incompreensão da Família Real aos seus problemas com saúde mental. Ela não menciona nenhuma vez o fato de que até isso era algo do qual Philip entendia perfeitamente bem, uma vez que sua mãe chegou a ser internada e foi afastada do público por sua instabilidade emocional. No livro, Diana menciona a falta de paciência do sogro para seus choros e tentativas de suicídio, e como o afastamento dos dois foi gradual e agressivo. O rompimento final veio justamente com o livro e as entrevistas.

Philip, é importante lembrar, era machista em uma sociedade machista. Ele não apoiava Charles na traição à esposa, mas não aceitava que Diana tentasse reconstruir sua vida com amantes também. Ele a criticou por ser uma “mãe possessiva” e, para piorar, “culpou” a nora pela derrota na reconciliação com Charles, como se todos os problemas psicológicos da princesa fossem a causa do rompimento e não uma consequência dele. Essa foi a gota final de qualquer amizade com o sogro. O ódio prevaleceu, e Diana passou a acreditar que Philip queria que ela ‘desaparecesse’, quase paranóica de que sua vida correria risco.

Não há uma biografia autorizada do Duque de Edimburgo que possa dar sua versão dos fatos. Há as cartas que escreveu para nora, entre 1992 e 1995, mas ele mesmo não se queixava em público ou dava entrevistas. Dizem que ele mesmo doente estava ciente da entrevista de Meghan Markle e príncipe Harry à Oprah, mas que teria sido poupado dos detalhes do que disseram. Para quem acompanhou sua trajetória com Diana, não há espaço para duvidar sua desaprovação do que o casal falou.

Por outro lado, o Philip “machão e grosso”, que cometia gafes e falava palavrões, foi um avô babão. Como pai, ele sabia da complicada estrutura da Realeza. Tendo visto as consequências disso de perto, ele se aproximou de William e Harry com maior dedicação, sugerindo à esposa para “treinar” William pessoalmente desde cedo. A conexão entre avós e netos é forte, mesmo que a relação com a mãe deles tenha sido tão conturbada.

No filme A Rainha, como se dizia na época, o maior opositor de que Elizabeth II prestasse homenagens à Diana foi Philip. Para ele, a nora tinha ofendido a Monarquia e era inadmissível se submeter à opinião popular. Como o roteiro era do mesmo Peter Morgan, deve se assumir que será a mesma ótica na série. Ainda que irritado em se submeter à Diana, Philip teve sensibilidade ao cuidar dos netos quando perderam sua mãe. William não queria andar atrás do caixão, mas o avô o apoiou. Aconselhou a superar e ir, mas que estaria com ele se fosse ou não. Literalmente. “Eu ando com você se quiser andar”, teria dito. E cumpriu sua palavra, ficando ao lado do neto todo o trajeto. William e Harry jamais esqueceram disso.

A próxima temporada de The Crown terá que forçosamente mostrar esse período de conflito entre Diana e Philip. A última cena entre os dois, houve um diálogo forte onde ele a avisa que a história não vai acabar bem para ela, uma ameaça velada para os que leram a biografia da princesa e um conselho realista para quem dá ao príncipe a motivação direta de ajudar. As gravações começam em julho de 2021, ainda sob a emoção da morte de Philip e das datas comemorativas que incluem o aniversário de casamento de William e Kate Middleton, da estátua em homenagem à Diana e, claro, a briga entre William e Harry. A expectativa de reconciliação entre os irmãos, em um conflito que espelha o de Diana e Philip, é um dos eventos mais fortes da história dos Windsors. Um capítulo ainda a ser escrito.

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