As trilhas de Doyle

*Artigo publicado em junho de 1997, na revista Viva Música

O que Shakespeare, Charles Dickens, Jane Austen e mafiosos americanos têm em comum? A música de Patrick Doyle é a resposta. O compositor escocês – que começou sua carreira como ator – é hoje um dos nomes mais requisitados para criar trilhas sonoras de filmes de grande porte e, com isso, já acumulou duas indicações ao Oscar, além de vários outros prêmios.

A referência mais imediata para os fãs de cinema é associar o nome de Doyle ao do diretor Kenneth Branagh, com quem o compositor já trabalha há dez anos e para quem compôs sua primeira trilha sonora: a do filme Henrique V. “Este ainda é o. meu trabalho predileto e, por ter sido o primeiro, se torna ainda mais especial”, comenta Doyle em entrevista por telefone, da Inglaterra, onde está compondo para o próximo filme de Alfonso Cuarón, Great Expectations, baseado na obra de Charles Dickens.

Como ator, Doyle conheceu Branagh em 1987, quando entrou para sua companhia teatral, a Renaissance Theatre Company. Antes disso, estudou piano e formou-se na Royal Scottish Academy of Music and Drama, e manteve uma carreira dividida entre atuações (fez uma participação curta em Carruagens de Fogo) e composições para TV inglesa e peças teatrais. No Renaissance, continuou a acumular as duas funções até que conseguiu convencer a um relutante Branagh a deixá-lo compor a trilha de seu primeiro filme, Henrique V, em 1989. Isso mudou sua história.

“Antes, eu jamais sequer havia cogitado a idéia de compor para as telas, mas, como interpretar já não estava me satisfazendo, a oportunidade apareceu na hora certa. Confesso que o resultado final de Henrique V surpreendeu a mim e ao Kenneth”, relembra.

O sucesso da trilha sonora de Henrique V gerou uma série de convites para Doyle trabalhar com outros diretores como Regis Wargnier (Indochina e Une Femme Française), Brian de Palma (Pagamento Final, com Al Pacino e Sean Penn) e Ang Lee (Razão e Sensibilidade, com Emma Thompson e Kate Winslet). Com tanto trabalho no cinema a carreira de compositor teatral se encerrou. Doyle explica: “Compor para o teatro é escrever uma música que ligue cenas e que eventualmente ajude a ação. No cinema, a música é um elemento mais forte e é, certamente, um maior desafio”.

Ao longo desses anos, Doyle continuou a colaborar em outros filmes de Branagh, como Voltar a Morrer, Muito Barulho Por Nada, Frankenstein e, mais recentemente, Hamlet (pelo qual recebeu sua segunda indicação ao Oscar, este ano). Em todos os trabalhos, esteve presente nos sets de filmagem para melhor captar a atmosfera do filme, se inspirar com as interpretações dos atores e, em alguns casos, fazer uma ponta como ator.

Para os fãs de Branagh e Doyle, estas participações já geraram uma série de trivias trocadas via Internet para descobri-lo em cada filme. Em Henrique V ele é o soldado que puxa o canto de Non Nobis Domine, em Voltar a Morrer é um policial no hospital, em Muito Barulho Por Nada é Baltasar e canta Sigh No More Ladies, entre outras.

As trilhas de Patrick Doyle, nas lojas de CD, não são apenas encontradas nas sessões específicas de cinema, mas igualmente na sessão de clássicos. “Componho sinfonicamente e penso classicamente”, ele afirma. É fácil conferir isso através da lista de artistas com quem trabalha. A trilha de Henrique V foi regida por Simon Rattle e interpretada pela Birmingham Symphony Orchestra. Um trecho da trilha de Voltar a Morrer contém uma ópera, Razão e Sensibilidade traz a voz do soprano Jane Eaglen, assim como o tenor Plácido Domingo canta em Hamlet. Apesar disso, não cogita a idéia de escrever uma ópera inteira. “Um trabalho como esse requer um mínimo de dois anos de introspecção na composição e mais um sistema de ensaios. Estou muito satisfeito com o que tenho feito e, com tantos convites para compor para o cinema, me resta pouco tempo livre”, explica.

Ainda assim, Doyle faz concessões, como elogiada peça para soprano e coral, encomendada pelo príncipe Charles, para o aniversário de 90 anos da Rainha-mãe. “Foi uma boa experiência que repetiria se fosse convidado”, confessa o compositor.

No momento, dois trabalhos de Patrick Doyle podem ser apreciados no cinema: Hamlet, de Kenneth Branagh e Donnie Brasco, de Mike Newell, com Al Pacino e Johnny Depp no elenco. Além disso, Doyle vem mantendo reuniões com Branagh, visando o próximo projeto do diretor e compondo a trilha sonora do novo filme de Alfonso Cuarón (A Pequena Princesa, o primeiro, já está disponível em vídeo).

“Este será um trabalho absolutamente atípico para mim, já que vários artistas pops vão participar”, adianta. “Mas mais do que isso não revelo, vocês irão descobrir em breve”, provoca.

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s