Charles Dickens já era um autor respeitado quando publicou seu 13º livro: Grande Esperanças (Great Expectations), em 1861. Viria a ser seu penúltimo romance completo. Embora seja a figura masculina de Pip que nos conduza na primeira pessoa, desde a infância até sua vida como adulto, são as mulheres que definem seu destino. Em especial Estella e assustadora Senhorita Havisham, dois estereótipos de mulheres frias, manipuladoras e vingativas.
Grandes Esperanças é um dos maiores clássicos da literatura mundial, em especial inglesa, que destaca os problemas sociais da época vitoriana através do amadurecimento de um jovem órfão ambicioso, navegando por cenários de pobreza, prisões, correntes assim como os de luxo e devassidão, temas favoritos de Dickens, que também incluem amor e rejeição. É também um dos favoritos do cinema e da TV, com adaptações de David Lean, Alfonso Cuarón e Mike Newell, entre outros. Atores como Ralph Fiennes, Robert De Niro e Ethan Hawk deram vida à Pip e Magwitch,e entre as atrizes, Claire Bloom, Vanessa Kirby e Gwyneth Paltrow criaram Estellas famosas, mas é justamente o papel da complexa Senhorita Havisham que desafia mais as mulheres: de Martita Hunt a Charlotte Rampling, Helena Boham-Carter, Anne Bancroft, Gillian Anderson ou Olivia Colman (a mais recente) deram interpretações emocionantes.

Chamada de idosa, de louca, vingativa, amargurada, viciada em ópio e manipuladora, ela é uma mulher rica que mora em uma mansão decadente com sua filha adotiva, Estella, obcecada em se vingar dos homens que considera todos malignos. O fato de que sua casa tem os relógios quebrados em um único horário, que usa um velho vestido de noiva todos os dias de sua vida só reforçam o frágil estado mental que ficou depois de sido rejeitada pelo noivo no altar, na frente de todos. Mais d que se prometer nunca mais ter seu coração partido, quer quebrar os de todos os homens que se apaixonarem de verdade. Para isso ela usa a bela Estella.
Maníaca e obsessiva, a Srta. Havisham é quase sempre mostrada feiel. aolivro, uma espécie de ‘noiva-cadáver’ que consegue alcançar seu objetivo com Pip, que cai na armadilha de amar Estella, mas percebe que sua vingança não “corrige” o passado, apenas causa mais dor. É um papel que demanda nuance porque é ao mesmo tempo patético, assustador e empático.
Com exceção de Biddy, em geral as mulheres no universo do livro são negativas. Além da Srta. Havisham, Estella também é distante e cruel e a irmã de Pip é dominadora e agressiva com ele (para alguns deixando no menino a associar maltrato à amor). Alguns leitores identificaram uma pedofilia implícita na relação de Havisham com Pip, numa sedução claustrofóbica. Não sei, mas todas mulheres são de alguma forma “punidas” no final.

Embora não exista uma comprovação documentada, há uma aceitação universal de que Charles Dickens tenha se inspirado em uma história real para criar a icônica Srta. Havisham. Seria uma australiana rica, Eliza Emily Donnithorne cuja humilhação pública de ter sido abandonada no altar a levaram ter uma crise nervosa e se isolar de qualquer relação pessoal até sua morte. Outros acreditam que foi a inglesa Margaret Catherine Dick que teria sido a triste musa da personagem, pois viveu uma vida reclusa depois de ter sido abandonada no altar, mas há a corrente que sugere que foi Alice Pinard-Dôges, que cometeu suicídio em 1894, que seria a verdadeira fonte. O fato de termos pelo menos três mulheres marcadas pelo abandono. ehumilhação é ainda mais triste.
O mais popular, no entanto, é que Eliza seja a ‘verdadeira Srta. Havisham’ pois sua história é documentada e parecida com a do livro e o autor teria escutado sobre ela por meio de sua amizade com Caroline Chisholm, sua amiga pessoal que era vizinha dos Donnithornes. Seja como for, o drama é tocante.
Eliza Emily, tinha duas irmãs, mas foi a única a sobreviver um surto de cólera que tirou a vida delas quando ainda viviam em Calcutá. Seu pai tentou arranjar casamentos entre ela e os filhos de ex-colegas da Companhia das Índias Orientais na Índia, mas ela se recusava a aceitar todos os candidatos, trazendo tensão para dentro de casa. Em uma ida à Igreja, conheceu um jovem inglês, George Cuthbertson, que era funcionário da companhia de navegação e os dois rapidamente se apaixonaram, apesar de que ele sendo de classe inferior era um problema e eles tentaram manter o relacionamento em segredo, mas logo o pai de Eliza descobriu tudo, a proibindo de seguir com George. Claro que ela não o obedeceu. Depois de muitas tentativas frustradas de separá-los, Sr. Donnithorne deu a permissão para o namoro com a esperança de ser apenas uma rebeldia de Eliza. Mais uma vez se enganou. Quando George a pediu em casamento, o pai da moça então exigiu que renunciasse ao emprego e vivesse de uma mesada com Eliza, o que seria efetivamente uma redução material, mas, como já tinham enfrentado mais obstáculos, ela jamais viu o dinheiro como problema. Pois no dia do casamento, ele simplesmente desapareceu.

Eliza estava vestida de noiva, os convidado reunidos e o café da manhã do casamento pronto para ser servido. Em uma crise nervosa, ela teria exigido que tudo ficasse exatamente como estava, incluindo a comida. Alguns dizem que ela estava grávida e deu a filha para adoção, abafando o ainda maior escândalo de ter sido mãe solteira. Há a versão de que a criança teria morrido no parto, piorando o estado mental da moça. Sem surpresa, ela passou a evitar qualquer companhia ou até sair de casa. Baixou as cortinas de sua casa e passou a viver como eremita, mas com a porta da frente entreaberta no caso de George um dia voltar para ela. O fim dele, aliás, é incerto, dizem que morreu um ano depois em Delhi.
Eliza herdou a fortuna do pai e passou a viver sozinha na casa onde o jardim não era mais cuidado e parecia mais um fantasma do que uma pessoa viva. Ela morreu em 1886, aos 60 anos, de doença cardíaca (coração partido?) e a lenda diz que foi encontrada ainda vestida de noiva. Na casa toda empoeirada, havia vestígios de que o banquete de casamento ficou intocado desde o dia do abandono.
Sendo um clássico, claro que Grandes Esperanças foi adaptado para os palcos, para o cinema e a TV. A primeira nas telas foi de 1917, mas a mais famosa é a de 1946, de David Lean, mas todas de uma forma ou de outra, alteram a história.
A linda versão de Alfonso Cuarón transporta a história para uma Nova York contemporânea e tem uma trilha sonora emocionante de Patrick Doyle (tenho uma entrevista com o compositor na época e ele cantou o tema central ara mim antes mesmo de gravá-lo) e uma Gwyneth Paltrow no auge de sua juventude e fama, em um figurino icônico dos anos 1990s, todos em verde. E uma participação da lendária Anne Bancroft como “Nora Dinsmoor” em vez de chamá-la de Havisham. Outra versão comentada foi a da BBC de 2011, com Gillian Anderson e Vanessa Kirby, um ano antes do filme de Mike Newell com Helena Boham Carter. Atualmente disponível no Starplus é a versão de 2023 da história, adaptada por Steven Knight e Olivia Colman dando show como Havisham. Falarei mais em breve!

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