A distopia e brilhantismo de Round 6

Tem gente que iguala fenômenos – quando há unanimidade – como falta de qualidade. Como se o que fosse bom, poucos soubessem. Portanto quando séries como Game of Thrones ou A Casa de Papel, apenas para citar dois exemplos, caem no gosto global e popular, pessoas encontram razões para desfazer deles. Vai ser difícil com a série sul-coreana Squid Game, ou aqui, Round 6. É quase que obrigatória assistir.

A série mais assistida da Netflix e no mundo todo, virou referência popular. Estive em duas reuniões de trabalho onde exemplos de Round 6 foram usados na conversa, se não tivesse assistido, estaria boiando. Se você ainda não a viu, fica meu conselho: CORRA. Vai maratonar e passar dias pensando na profundidade incômoda da história. Incômoda, fascinante e bem contada.

Narrativa inteligente, amarrada combinada com visual único

A história começa com nosso anti-herói, viciado em jogos e perdido na vida indo parar, junto com 455 outras pessoas, em um galpão estranho, onde todos são “convidados” a participar de uma competição por dinheiro. No início, não sabem a quantia, mas as regras aparentemente são simples, apenas 3, assim como os jogos, todos sem exceção, infantis. Mas claro que há muito mais do que parece ser.

Agora os spoilers.

Os competidores não demoram a descobrir que o jogo é de fato simples: ou você ganha e vive, ou perde e morre. Em uma primeira rodada, mais de duzentos são eliminados por causa da boneca que detecta movimento. A violência os choca como aos desavisados, na tela e em casa. E é apenas o começo.

O suspense é crescente, assim como o drama humano. Quando confrontados entre escolhas vitais ou de ganhar bilhões, o pior surge nas pessoas. E mesmo quando não acontece imediatamente, ainda assim, todos são forçados a fazer uma escolha cruel em algum momento.

Se fosse possível tudo piora quando eles são lembrados de que quanto menos competidores, maior será o prêmio, portanto a guerra não tem mais descanso. É o confronto pela sobrevivência alternado pela ganância autorizada e instigada. É uma metáfora que se aplica à qualquer cultura, por isso o fenômeno.

Críticas à misoginia e outras

As personagens femininas não têm protagonismo na série. São poucas que são destacadas, e com pouco a dizer. Mas elas representam o machismo ainda reinante – são as últimas a serem escolhidas para entrar para equipes e quando entram, são desprezadas por suas fraquezas. Ou são objetos sexuais. É incômodo porque queremos exemplos de heroínas, mas dentro de um universo opressor, é realista.

O diretor Hwang Dong-hyuk, que criou a série em 2008, mas apenas em 2021 encontrou o momento para produzi-la, fala também de racismo, vivido pela personagem feminina Sae-byok (interpretada pela modelo Jung Ho-yeon), que desertou da Coréia do Norte e é desprezada por sua origem e gênero, apesar de ser uma das sobreviventes mais fortes. E o doce imigrante paquistanês Ali, que – como estrangeiro – encontra poucos apoiadores.

Dong-hyuk também usa nosso anti-herói, Gi-hun, como símbolo do trabalhador fracassado que não consegue sair da pobreza. E o contraste entre classes fica claro entre os que competem, entre os que competem, como Cho Sang-woo, e os que controlam o jogo.

Jogos infantis, nostalgia e violência

O roteiro de Round 6 é um dos melhores já apresentados nos últimos anos. Não há erros. Começamos com os dois protagonistas, crianças, jogando Squid Game, explicando as regras de defesa e ataque e como é um jogo de estratégia pela sobrevivência. Quando finalmente o Squid Game entra na competição, estamos desgastados, angustiados, mas sabemos o resultado. Ainda assim, é emocionante.

O principal spoiler da série é indicado desde o início, mas quando revelado, nos deixa de queixo aberto. Mesmo com a dica óbvia, só entendemos no final.

A distopia da sociedade dependente de dinheiro, precisando ganhar mais, viciada em reality shows é um contraste com a simplicidade dos jogos infantis. Alguns não lembram como era ser inocente, uma parte importante para ganhar o foco para vencer a prova, mas ao mesmo tempo a nostalgia pode ser a armadilha para a queda. É muito inteligente e necessário. Infelizmente, ao contrário de Parasita, que pôde chegar ao Oscar como estrangeiro, Round 6 não terá a mesma oportunidade no Emmy, apenas no chamado Emmy Internacional. De todas as séries que vi em 2021, não foram poucas, e que gostei, essa absolutamente foi para o pedestal. Vale cada elogio, cada momento. Não perca.

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