O escândalo de John Profumo: filmes, verdade e The Crown

Há cerca de 60 anos, o Reino Unido testemunhou um escândalo sexual que abalou o Governo conservador e entrou para a História como o Caso Profumo, por causa do envolvimento do Secretário de Guerra e membro do Parlamento, John Profumo, e uma rede de exploração sexual de jovens. Pela semelhança de alguns fatores com o atual crise institucional envolvendo o Príncipe Andrew e sua ligação com Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein, claramente acobertada pela Família Real por pelo menos 2 anos, muita gente voltou a falar de Christine Keeler, a jovem de 19 anos que contribuiu para o fim da carreira política de um dos mais admirados homens na Inglaterra.

A história de Christine, que virou referência pop, rendeu séries, documentários, livros e filmes. Ainda no ano em que tudo acontecia, em 1963, saiu o longa The Keeler Affair, para o qual foi criada a icônica foto de Christine em uma cadeira, nua. Depois, a versão mais famosa é a de 1989, dirigida por Michael Caton-Jones e estrelado por Joanne Whaley (na época assinando ainda Whaley-Kilmer), John Hurt e Ian McKellen. Escândalo a História que seduziu o mundo fez sucesso de crítica na época, com canção escrita pelos Pet Shop Boys, cantada por Dusty Springfield (Nothing Has Been Proved), além de trazer o que foi considerado ousado, com cenas de nudismo e bacanais.
Mais recentemente, The Crown encontrou uma forma de incluir o fato que – por surpresa, não envolvia ninguém da Família Real – insinuando que Príncipe Philip também estaria envolvido com o que acontecia na casa do osteopata Stephen Ward. Se chegarem às temporadas 8 e 9, não precisarão forçar mais a mão.

O peso do escândalo tinha como fachada a preocupação de Segurança Nacional, afinal, em plena Guerra Fria, o Secretário de Guerra, John Profumo, compartilhava a mesma amante, Christine Keeler, com o Diplomata russo e suposto espião, Eugene Ivanov. Na verdade, toda narrativa era para condenar a liberdade sexual feminina (dando seus primeiros passos nos anos 1960s, quando a onda libertária de sexo e drogas ficou conhecida como Swingin London) e expor a hiprocrisia da hierarquia da sociedade britânica.

No meio dessa história toda, o filme de 1989 argumenta que está o único a pagar a conta, o médico Stephen Ward. Foi ele que “descobriu” Christine, aos 18 anos, em um cabaré no Soho e a “adotou”, a apresentando para os amigos nobres e influentes. A relação dos dois, segundo o filme e Christine, foi platônica. Há relatos de que Ward estava trabalhando com a MI5 para convencer a Ivanov a desertar, o que que fazia se sentir um “James Bond”. É importante lembrar que, na Guerra Fria, espionagem dos dois lados era quase romanceada em filmes e livros, portanto homens “comuns” se sentiam mais importantes participando desses riscos.

Vamos revisitar a História?

O Caso Profumo

O “Caso Profumo”, como ficou conhecido, ainda não foi 100% esclarecido porque um de seus principais vértices morreu em silêncio, em 1963.

John Profumo, ou Jack, foi um herói de Guerra britânico que entrou para política em 1940. Adorado publicamente (e pela Família Real), era cotado para Primeiro Ministro, porém, “o escândalo” interrompeu essa trajetória.

Em julho de 1961, Profumo foi apresentado à Christine Keeler, em uma festa na piscina na casa do Visconde Astor. Christine estava ali como acompanhante do médico osteopata, Stephen Ward, que circulava entre as festas tradicionais e mais “abertas” da sociedade inglesa, sempre com jovens e belas ao seu lado. Nunca se soube ao certo quando o affair entre Profumo e Christine começou, mas parece que foi quase imediato.

Christine, como meninas típicas de sua idade em tempos mais liberais, tinha uma série de homens em sua vida, incluindo diplomata russo, Eugene Ivanov e o traficante Johnny Edgecombe. Ela morava com Stephen, mas não era uma relação romântica. Usada por homens, ela involuntariamente abalaria a política inglesa.



Segundo consta, o affair com Profumo foi breve, de apenas algumas semanas. O MI5, que acompanhava Ivanov e sabia de tudo, alertou ao Secretário dos riscos, que rompeu com Christine. Sua escapada só veio à público por causa de um incidente entre namorados que acabou atraindo a atenção da polícia e precipitou todo drama.

Quando Christine tentou se afastar de Johhny Edgecombe, o traficante passou a ameaçá-la. Com medo, voltou ao apartamento de Stephen, onde estava sua amiga Mandy Rice-Davies, para se esconder. Quando Christine se recusou a receber Johnny, ele disparou vários tiros contra a porta, sendo preso em seguida. Os tablóides não demoraram para perceber que, em vez do tiroteio em um bairro de dinheiro, havia uma história maior, por causa da ligação de Christine com homens poderosos.

Para piorar tudo, em vez de comparecer ao julgamento de Johnny, Christine “desapareceu”. Foi a deixa para os tablóides contarem mais sobre ela e seus outros romances. Logo o nome de Profumo estava colado às manchetes. Em março de 1963, sem poder mais evitar seu nome no meio de tudo, o Secretário de Guerra mentiu ao Parlamento que a conhecia, mas que jamais teria tido um caso com Christine. As evidências do contrário foram sendo expostas e o público passou a devorar o escândalo.

Dez semanas após sua declaração no Parlamento, Profumo se sentiu forçado a assumir a verdade, pedindo desculpas e abdicando de sua vida pública. Passou a viver fazendo caridade, com o apoio irrestrito de sua esposa. Em 1975, recebeu o perdão Real e foi condecorado como Sir. Ele nunca falou publicamente sobre o caso até sua morte, em 2006.



De volta ã 1963, Christine reapareceu e, assim como Mandy, foi apresentada como prostituta, algo que negavam. Stephen Ward passou a ser identificado como cafetão, sendo isolado e abandonado pelos amigos. Foi a julgamento, mas, antes da conclusão óbvia, se matou com overdose de remédios antes de ouvir sua condenação in absentia por “viver imoralmente pelo que recebia das jovens”. Sua morte acabou por gerar mais teorias conspiratórias sobre a história, que perduram até hoje.

Christine também foi condenada à prisão, por perjúrio. A jovem ficou nove meses atrás das grades. Ao sair, ao contrário de Mandy que logo virou celebridade e fez de tudo para tirar dinheiro da situação, permaneceu discreta. Se casou duas vezes e teve filhos, só escrevendo sua biografia em 2001.

O drama foi um dos mais marcantes na História do Reino Unido, por isso, entrou também em The Crown. Falaremos em seguida sobre isso.

O filme de 1989: respeito no Festival de Cannes

Ironicamente, Escândalo a História que seduziu o mundo foi dos primeiros filmes de destaque da Miramax, a produtora de Harvey Weinstein. Surgiu com o conceito de miniserie, mas virou um longa-metragem quando, pasmem, o pai de Ghislaine Maxwell, Robert Maxwell, financiou o argumento, em 1985. A controvérsia em torno de toda história tinha grande apelo e Harvey apostou no mega-sucesso do filme. Assim, a história foi para o cinema.

Uma das coisas que podemos reparar vendo o filme é que – por ter sido originalmente pensado para 4 episódios de 1h, – o corte deixa a narrativa solta, confusa com a entrada e saída de alguns personagens. A outra é que há, naturalmente, cenas de nudismo e sexo, mas isso porque Harvey Weinstein apreciava a repercussão que recebia pela nudez em seus filmes, encorajando esse tipo de conteúdo. Décadas depois essa informação ganha outra perspectiva, não?

O grande destaque do filme de 1989 é a grande atuação de John Hurt como Stephen Ward. Ele dá a complexidade necessária para uma personalidade tão controversa, assim como humanidade para relação dele com Christine Keeler. Na época de lançamento, Christine ainda estava viva (assim como Profumo) e apoiou a produção.

No entanto, ao longo dos anos Scandal ou Escândalo a História que seduziu o mundo acabou caindo no esquecimento e é difícil de encontrar. Hoje é engraçado rever Ian McKellen, ainda desconhecido do grade público, com a maquiagem que o faz parecer com John Profumo, mas sua atuação também é precisa e delicada. É difícil imaginar Joanne Whaley como uma menina de 19 anos, mas está bem no papel. E a ponta do vocalista do Fine Young Cannibals, Roland Gift, é uma trivia para os fãs de música.

Uma foto referência na cultura pop

Uma imagem que traduz mil palavras. Em 1963, Christine Keeler fez uma sessão de fotos das quais saiu a que ficaria ligada eternamente à sua imagem. Essa.

A foto foi feita por Lewis Morley para o cartaz do filme The Keeler Affair, mas os negativos foram roubados pelo Sunday Mirror (de Robert Maxwell). Hoje faz parte do acervo do National Portrait Gallery, tamanha sua importância artística. Sem surpresa, é o cartaz de Escândalo a História que seduziu o mundo.

The Crown: fechando a 2ª temporada

O Caso Profumo não tinha como ficar de fora de The Crown, mas não teve nada a ver com a Família Real. O que usaram foi o fato de que, sim, Stephen Ward conhecia tanto Príncipe Philip como a Princesa Margaret, cujos retratos ele desenhou de fato em vida real. Stephen era um talentoso retratista, mas era um hobby seu desenhar pessoas com quem tinha contato.

Em The Crown, os roteiristas usam a ligação de Philip com o médico, aludindo às escapadas do marido da Rainha e como o affair teria sido abafado. Não há evidências para nenhuma relação que não superficial entre eles.

John Profumo pode reaparecer em breve. O Ex-Secretário, que ganhou o “perdão” em 1975, foi um dos raros convidados do jantar de aniversário de 70 anos de Margaret Thatcher, que incluiu Elizabeth II. Ele teve a honra de ser sentad ao lado da Rainha. Afinal, Thatcher o chamava de Herói Nacional e Profumo manteve sua longa amizade com a Rainha-mãe, visitando com frequência Clarence Hall. Discreto, quando o filme saiu, em 1989, houve um jantar a casa da rainha para o qual ele achou melhor declinar aparecer, para não a ligar às fofocas. A Rainha-Mãe não aceitou a recusa. Que tal?

A série promete acabar no Jubileu de Ouro, se mudarem de idéia e irem até o de Platina, a história poderá se amarrar melhor… não?

A polêmica sobre Stephen Ward

No meio de tantas versões, a história de Stephen Ward jamais foi esclarecida. Anos depois, veio à tona de que era informante da MI5, portanto sua relação com Ivanov foi reforçada com esta relação. Christine o acusa de ser espião para os russos em sua biografia, mas documentos revelam o contrário, que sim, trabalhava coma inteligência britânica.

Sua memória portanto fica marcada pelo abandono e ter sido o escolhido para pagar o pato sozinho. Há versões de que não teria se matado, mas assassinado, para que não revelasse a verdade no tribunal. Em 2014, houve uma tentativa de revisitar sua condenação, mas algumas transcições vitais foram “perdidas” e, em 2017, a sentença mantida. A documentação permanece em sigilo nos Arquivos Nacionais até 2046. Aí sim, uma boa história a contar.

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