A inevitabilidade de The Matrix-Resurrections

Quando The Matrix chegou aos cinemas, em 1999, foi um fenômeno. Mas isso, todos sabem. Keanu Reeves, que é uma estrela única em Hollywood, topou o desafio recusado por outros atores e embarcou em uma das mais lucrativas franquias do cinema, algo também que todos sabem. Sou do grupo que parou de gostar de tudo ainda no 1º filme, que ainda considero insuperável, com filosofia atrás da história, cenas de ação inovadoras e ótimo storytelling.

Em um fast forward bem típico de um universo matrixiano, 20 anos depois, a WarnerBros decidiu reavivar a marca. Há um diálogo no em The Matrix Resurrections que explicita isso, o que fica como piada interna do elenco e produtores, mas também que coloca tudo em perspectiva. Em um mundo redesenhado, onde Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carrie Ann Moss) vivem felizes e separados, os sentimentos nos movem a sacudir a nova realidade e voltar a busca pela verdade. Neo e Trinity, ou Thomas Anderson e Tiffany, sabem que há algo mais, mas estão mais velhos e menos inquietos. A energia do amor dos dois, no entanto, é maior que algoritmos. Como diz o perspicaz Agente Smith, é “inevitável”.



Inevitável… será mesmo?

Em perspectiva de business, seria inevitável em algum momento querer apostar em um sucesso como The Matrix, para gerar mais receita. A onda de revivals está forte, impulsionada pelos sempre nostálgicos 20 anos (a moda sempre repesca estilos a cada 2 décadas, por exemplo), talvez por ser um tempo que está longe, mas que ainda sabemos reconhecer e sentir próximos (mas isso é um essay à parte). Estranho que ainda não tenham voltado para a reunion de Velocidade Máxima com o mesmo Keanu e Sandra Bullock. Talvez porque a idéia seja tão ruim que nem Keanu topou fazer o segundo filme…

E não há dúvida de que The Matrix Resurrections é um filme para os fãs, repleto de easter eggs, auto referências, flashbacks e pistas (o óculos azul do analista não foi nada sutil). E se auto critica, como no diálogo em que o “novo” Agente Smith conversa com Neo/Thomas e menciona o desejo da WarnerBros de retomar a franquia, “com ou sem” o elenco original, justificando explicitamente o retorno.

Keanu e Carrie Ann estão ótimos, mesmo com a passagem do tempo. Jonathan Groff herdou o impossível desafio de substituir Hugo Weaving, que criou uma personagem icônica e que, quase participou do filme, mas outros compromissos o impediram. Embora Jonathan esteja bem, sentimos falta do original. Teria feito muito mais impacto ver Smith e Neo trabalhando juntos em uma empresa de videogames do que um rosto novo, constantemente sendo explicado. Outra ausência sentida é a de Morpheus (Lawrence Fishburne), vivido agora por Yahya Abdul-Mateen II. Havia uma química do quarteto original que sente a quebra.

Se a trilogia original de The Matrix trouxe a questão da dúvida do mundo real e o manipulado por máquinas, The Matrix Resurrections é um “rom-scific” – um filme romântico. Sim, um filme de amor e nostalgia, tudo que nossas mentes buscam para conforto e que se baseiam em sentimentos. A história começa 20 anos depois do último filme. Thomas Anderson é uma estrela do universo de games, tendo criado The Matrix. Faz análise (com Neil Patrick Harris como o psicólogo) e está medicado com pílulas azuis, que o ajudam em momentos de ansiedade. Thomas é atraído por um mulher que sempre encontra no café, Tifanny, que é casada e tem dois filhos. Ela também tem suas ansiedades, que são estranhos sonhos de um universo bem realista, como o jogo criado por Thomas. Quando Bugs (Jessica Henwick) quebra o programa revelando a Thomas a verdade, ele reencontra o “novo” Morpheus e, bem decide recuperar Trinity.

Críticos se dividem quanto ao resultado. Alguns sentem falta de mais cenas de ação (certamente guardadas para a continuação) e todos mantém a dúvida se precisávamos ver a franquia reativada. Seria mesmo inevitável?

O que Lana Wachowski aproveita é, já que o filme seria feito com ela ou não, inserir novos questionamentos uma vez que em 20 anos, tanto mudou. The Matrix Resurrections é paradoxalmente para os fãs, mas também para um público novo, que espera um discussão mais profunda sobre destino, máquinas ou nostalgia. É irregular e deixa mais uma inevitabilidade implícita: a de que veremos Neo e Trinity novamente.

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