O Jubileu de Platina de Elizabeth II

Se é karma, a conta veio com juros e dividendos. Há 30 anos, a Rainha Elizabeth II considerou 1992 um annus horribilis e isso porque estava falando das separações dos três filhos – Anne, Charles e Andrew – assim como o incêndio no Castelo de Windsor. Como classificaria 2021? ou 2020? Os últimos três anos têm sido drama e escândalo atrás drama e escândalo e morte. Sem pausa. E logo no ano do Jubileu de Platina!

O marco histórico de Elizabeth II é impressionante. O único outro monarca a alcançar essa marca foi o Rei Louis XIV, no século 18. O Rei Soleil reinou a França por 72 anos, mas como subiu ao trono aos 5 anos de vida, só agiu como regente efetivamente 18 anos depois, ou seja, reinou sozinho por 54 anos. Lilibet subiu ao trono aos 25 anos de vida e desde então é um marco fixo não apenas para seus súditos, mas para o mundo todo. É a Rainha Pop que, aos 95 anos que serão completados em abril, é meio que a avó de todos.

Mas como a História vai olhar para seus 70 anos como Rainha?

Elizabeth II era uma mulher jovem, recém casada e mãe de dois filhos, acompanhando o marido em seu posto no exterior quando seu pai faleceu, para surpresa de todos, em 1952, apenas 16 anos depois de ser coroado quando o irmão abdicou do Trono por amor. Os fatos que a colocaram na Coroa tiveram grande peso em todo seu reinado, não apenas o início.

Criada em um ambiente de muito amor, Elizabeth conseguiu escolher um marido pelo qual era apaixonada. Em tese, teria pelo menos mais 10 anos antes que seu pai pudesse considerar o início de seu treinamento. O reinado estava longe de seus pensamentos. Mas é importante lembrar que seu pai, um homem tímido, sem grandes ambições e dedicado, jamais pensou em ser Rei. Quando seu irmão, Edward VIII se viu obrigado a escolher entre a mulher que amava – uma americana divorciada – e o dever, não pensou duas vezes antes de seguir o coração.

Como segunda e última opção, George VI não teve direito a escolha. Lilibet cresceu com sua mãe culpando o sofrimento do pai, resignado e sério, à imprudência de um irmão egoísta que não estava pronto de se sacrificar por sua função. A semente de considerar Dever antes de tudo foi plantada no exemplo do pai-ídolo e nas queixas maternas sobre o tio. E a colheita veio com muita dor para todos ao redorda jovem Rainha, que jurou que dedicaria sua vida – curta ou longa – à Coroa. O discurso, que entrou no 2º episódio da série The Crown é igualmente o terceiro fator importante da regência de Elizabeth II. Dever, discrição, sacrifício e compromisso até a morte, esses são os valores da Rainha. O DNA do tio voltou para atormentá-la multiplas vezes e sobrepor em boa parte o seu legado.

É fato que ninguém contava com a longevidade dos Windsors-Mountbatten. George VI morreu aos 57 anos. A expectativa mais razoável seria de uma vida de pouco mais de 70 anos, mas a Rainha-mãe morreu com 101 anos e Príncipe Philip duas semanas antes de seu centenário. Aos 95 e ainda dirigindo, não parece impossível imaginar a Rainha ainda no trono por mais 6 anos, mesmo com alguns sustos de saúde recente. Príncipe Charles só será coroado após sua morte, portanto estará beirando os 80 anos. Será dificilimo substituir uma soberana tão popular como sua mãe, será uma função infeliz, mas, depois de esperar por pelo menos 5 décadas, ele jamais consideraria abdicar para que o filho, Príncipe William, subisse ao trono. Na melhor das hipóteses, caso a Monarquia ainda exista, William só receberá a Coroa em mais 20 ou mais anos. Será bem mais fácil substituir um eterno impopular Charles, certamente. Mas voltemos à Rainha.

Elizabeth II assumiu seu papel de regente no dia 06 de fevereiro de 1952. O povo britânico, entrando em anos de prosperidade após duas Guerras Mundiais, abraçou com fervor a jovem rainha. Sua coroação, registrada para a História com vídeo e fotos, foi emocionante. Se ainda estiver no Trono em 2024 – ou seja, em apenas dois anos – ela alcança a marca do Rei francês. Se for apenas um ano a mais, ninguém jamais tira dela o recorde de um reinando tão longo. Acredito nela.

Porém, o Jubileu de Platina vem com mais tristezas do que festa. O mundo está ainda tentando sobreviver à uma das piores pandemias da História e como idosos são os mais vulneráveis, Elizabeth II tem ficado isolada e resguardada. Além disso, em tempos em que divórcio não afetam mais como antes, está lidando com a morte do marido, de amigos, do rompimento do neto, Príncipe Harry, que ao fazer a mesma escolha do tio bisavô 84 anos depois, causou o mesmo escândalo em pleno século 21. Acusações de racismo, de bate boca, de baixaria via imprensa e principalmente a possibilidade de ver seu filho, Andrew, sendo condenado à prisão por estupro ocupam mais os jornais e redes sociais do que a programação de desfiles e cerimônias comemorativas.

Mas Elizabeth II, como boa taurina que é, não é adepta à mudanças. Para ela, nunca reclamar em público é tão vital como respirar. Viúva e sofrendo, não chora em público, não se estende em suas menções a Philip além de palavras como “meu querido marido”. Quando vem da Rainha, é visto com a condescendência de jovens em relação a idosos. “Coitada”, é o que mais se ouve. Mas a vida quase sacerdotal é uma escolha da Rainha, uma que é imposta a todos seus herdeiros, não importa a dor ou consequêcia.

Antes de Diana, a Princesa Margaret foi uma das almas destruídas pela tradição que destroi a vida dos “estepes”. Margaret não pode se casar com o homem que amava, foi arrogante, antipática e unanimamente vista como infeliz. Philip também sofreu. Charles não pôde se casar com a mulher que amava, Camilla Parker Bowles. Ao se “sacrificar” pela futura posição de regente, destruiu a vida de uma jovem de 19 anos, Diana Spencer, apenas para anos depois bater o pé por sua felicidade. Seu final feliz com Camilla foi alcançado com as lágrimas de Diana e dos filhos. Uma mancha que o persegue com razão. No entanto é preciso lembrar que ele tentou obedecer e copiar sua mãe, sem alcançar seu objetivo.

A festa do Jubileu segue programada com desfiles e outros eventos públicos, mesmo com a presença reduzida da homenageada. Um detalhe mórbido e mencionado é de que possivelmente essa seja a última aparição da Rainha em eventos desse porte. O dia de Charles ser Rei está realmente perto.

A memória de Elizabeth II está ameaçada por sua constância e apreciação pela tradição. Falar em modernizar costumes – como Meghan Markle e Harry pregam – é visto como ofensivo, mas será o grande desafio para Charles e William, pois os súditos querem uma Monarquia moderna, o que coloca em questão muitas das hipocrisias da nobreza. Do tipo, Harry não poder pagar por uma escolta que tenha acesso às informações de inteligência que ponha em efetiva segurança. Nem mesmo a morte de Diana, há 25 anos, parece ajudar ao menos uma reflexão. Não é surpresa que Meghan tenha desistido em apenas 2 anos. A regência de Elizabeth II mantém seus valores do século 20, não incorpora os atuais que prezam inclusão, transparência e coerência. E, pelo bem e pelo mal, esse será seu legado. Um lado associando à constância, mas, os críticos atribuindo à teimosia. Com o drama ainda em andamento, 2022 promete apagar o annus horribilis.

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