Inventando Anna parece cair no golpe de sua personagem central

Para quem não acompanhou ou leu os artigos que revelaram para o mundo quem era Anna Delvey, ou Sorokin, precisa ser sempre lembrado de que Inventando Anna é uma história verdadeira. Quando a cada capítulo alegam que “é tudo verdade exceto pelas parte inventadas” estão se referindo às mentiras de Anna, que está sob custódia e esperando extradição dos Estados Unidos para a Alemanha.

Se você ainda não viu a série ou leu sobre Anna, o aviso.

A história de Anna é fascinante por ser misteriosa e simples ao mesmo tempo. Anna é uma jovem ambiciosa e golpista, que chegou foi para os Estados Unidos como estagiária de uma revista francesa e que viveu por vários anos a vida de uma milionária, posando como “herdeira alemã” e tirando vantagem de ricos ou simplesmente fraudando bancos para conseguir fundos para seu estilo de vida. O Marcelo VIP de saias.

Anna tinha um sonho de criar um clube privado e ultra sofisticado, conseguindo chegar perto de realizar seu projeto antes de se encalacrar financeiramente quando o dinheiro esperado não entrou. Uma repórter pescou a história e seu artigo na New Yorker é a base da série.

A verdadeira Anna Sorokin queria Jennifer Lawrence ou Margot Kiddie para interpretá-la, mas não deve ter ficado desapontada com Julia Garner, que está assustadoramente igual à ela. Embora críticos americanos tenham reclamado de seu carregado sotaque alemão, quase irritante, ela está sendo fiel à descrição da jornalista Jessica Pressler, transformada em Vivian Kent.

Se há uma coisa que fica clara na série é que Anna é uma exímia manipuladora e que permanece um certo mistério justamente porque quem tem contato com ela, acaba se encantando. Como a própria Julia Garner. De certa forma, é o que compromete a narrativa de Inventando Anna.

É importante prestar atenção em um detalhe que é recontado na série. Jessica, ou Vivian, é furada por uma das vítimas de Anna, Rachel Williams, que escreve um relato na 1ª pessoa para Vanity Fair antes do artigo da The Cut, de Jessica. Uma matéria não anula a outra, mas atrapalhou inclusive que Shonda Rimes pudesse ter criado a série da Netflix antes de 2022. Rachel, que não é retratada com metade da simpatia dos autores reservaram para Anna, escreveu um best seller sobre o ocorrido e “sua” versão é a que está sendo trabalhada para HBO Max, assinada por ninguém menos do que  Lena Dunham de Girls. Ela expressou sua preocupação de que a versão de Shonda fosse pró-Anna. E aqui está o problema de Inventando Anna.

A narrativa separa por episódios testemunhos chave sobre o que aconteceu. Todos, até a fase do julgamento, muito fiéis ao artigo de Jessica. O menos simpático, claro, sendo o episódio de Rachel. No entanto, nos últimos momentos, a própria repórter obcecada em desmascarar Anna, passa a ter um papel dúbio de ajudar na defesa e a carismática Anna Chlumsky, com exagerados tiques nervosos, passa a ser confusa. Segundo Shonda, Anna não merecia a punição severa que levou e isso só aconteceu porque ela é mulher e estrangeira. A série induz que as vítimas do esquema eram tão culpadas quanto Anna por quererem a vida de luxo e terem usufruído sem pestanejar, só se virando contra ela quando efetivamente tiveram que pagar alguma coisa. Culpam a defesa que não comprou a versão de Anna como uma grande empresária e até a repórter por ter feito a matéria que despertou o interesse na golpista, também provocando uma sentença pior. O que fica claro é que todos caíram na manipulação de Anna, quase que uma heroína ou Robin Hood de saias. Se tivessem acabado na sentença teria sido melhor.

A verdade é que Anna Sorokin cometeu crimes financeiros sérios para alcançar um padrão de vida muito além de suas possibilidades. As pessoas que embarcaram nas suas mentiras permanecem sendo vítimas, não cúmplices. Querer luxo não é crime. Aceitar uma pessoa milionária e generosa dando presentes não é crime ou vergonha. Mas Inventando Anna culpa as vítimas para justificar que Anna Sorokin agiu sob a aprovação e incentivo de pessoas que acreditaram na mentira dela. É preocupante a narrativa pró-crime. Anna merecia 12 anos de prisão? Não sei. Certamente outros conseguiram melhor defesa para se livrar da cadeira, mas uma coisa não isenta a outra.

Inventando Anna é viciante, consegue criar tensões em momentos pequenos, mas caiu no golpe da personagem. Ao revelar a verdade da origem da personagem, o faz para nos dar pena e quase torcer por ela. Uma inversão de valores preocupante. Ladrões empáticos não são novidade. Anna Delvey virou um fenômeno nas redes sociais, mas a invenção dela – desde o nome ao Instituto Anna Delvey – era uma farsa, e pior, uma fraude. Ela precisava ser parada e presa. Não é para ter pena.

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