Alicent Hightower: antagonista em House of the Dragon?

As gravações de House of the Dragon ainda não terminaram e é quase certo que a tradição de lançar qualquer conteúdo de Game of Thrones em abril possa ser descartada, ainda que a estréia esteja confirmada para 2022.

Para fãs, os detalhes intricados de uma saga sem mocinhos é o atrativo da franquia. Depois da conclusão da série da HBO, que reverteu papéis e até hoje gera polêmica por ter transformado Daenerys Targaryen em uma sanguinária e vingativa Rainha, há uma grande ansiedade para as próximas rivalidades femininas em House of the Dragon, assim como se preparar para conhecer as novas personagens.

Por isso vou tentar colocar em evidência alguns detalhes dos livros que terão influência na série. Começando por Alicent Hightower.

Em perspectiva: mudança cultural impactou GOT

Antes de embarcar na trajetória de House of the Dragon, vale relembrar o que houve com Game of Thrones.

Os livros de George R.R.Martin são da virada do milênio, quase duas décadas antes do movimento #metoo. A série, que estava no ar durante a mudança cultural no qual o feminismo passou a quebrar paradigmas e pregar sororidade, sofreu diretamente com os novos padrões. Enquanto o autor ressaltava o absurdo da violência contra as mulheres, nos livros e na série, elas nem sempre se entendiam. Porém, aos poucos, de coadjuvantes e passivas, ganharam protagonismo, impactando o desenvolvimento do arco de personagens como Jon Snow e Tyrion Lannister, “mocinhos” tradicionais que, de inteligentes e nobres, passaram para covardes e despreparados. Sansa e Arya Stark se beneficiaram com o novo momento, representando no final o ideal feminista de apoio mútuo e de liderança.

Em House of the Dragon, as duas personagens femininas de maior destaque estão de novo de lados opostos, refletindo o que foi vivido por Cersei Lannister e Daenerys Targaryen. A princípio (afinal isso é Game of Thrones), serão Alicent Hightower e Rhaenerys Targaryen que vão demandar nossa atenção.

Ah, se não leu os livros, desculpe. É um post com muitos spoilers.

Alicent: peça central no jogo de poder

Interpretada por Olivia Cooke e Emilia Carey (quando jovem), Alicent será a “nossa nova Cersei”, aparentemente. Os paralelos são óbvios: filha de Otto Hightower (Rhys Ifans), Mão de dois reis, a jovem foi trazida para Corte com 15 anos, ganhando a confiança do Rei Jaehaerys I, ficando amiga de Rhaenerys Targaryen e depois se tornando esposa de Viserys I. Aparentemente apenas uma peça do jogo de poder e influência do pai, Alicent vai liderar o coração da Guerra sangrenta que vai abalar a trajetória dos Targaryens.

A primeira diferença entre Cersei e Alicent é apesar de próxima dos irmãos próximos, mas há nada comprometedor. Incesto nunca foi problema em Westeros, uma vez que os Targaryens preferem casar enre si. Por isso o estranhamento que Viserys I, viúvo, tenha negado se unir à sobrinha para se casar com alguém de fora da Casa Targaryen, no caso, Alicent.

A filha de Otto já era muito próxima do Rei Jaehaerys I, tanto que estava ao lado dele quando morreu. A relação levantou dúvidas de que a menina de apenas 15 anos pudesse ter sido amante do Rei, mas, em geral, se aceita que a relação fosse de pai e filha.

O que é para se prestar atenção é a versão que coloca Alicent na cama de Daemon Targaryen (Matt Smith), antes de se casar com o irmão dele, Viserys I (Paddy Considine). Pois é. Nos livros, apenas uma fofoca, mas parece que tem algum fundamento, pois, foi mais ou menos nesse período que o pai de Alicent, Otto, passou a antagonizar abertamente com o príncipe. Daemon, aliás, fará jus a seu nome (Demonio) e será o grande conquistador de mulheres em House of the Dragon. Seja como for, se houve romance, sedução ou estupro, após o casamento Alicent passa a ser inimiga do cunhado, especialmente depois de ter três filhos de Viserys, incluindo dois meninos, praticamente destruindo a chance de Daemon um dia herdar o Trono de Ferro.

Golpe de estado ou respeito à lei sálica?

Se até o casameto Alicent era apenas uma comandada pelo pai, ela passa a ter envolvimento político direto depois de ser mãe. Quando Viserys I ficou viúvo e perdeu seu único filho homem, Otto Hightower estava entre os que convenceram ao Rei de nomear a filha, Rhaenerys, como herdeira, quebrando a tradição de que mulheres perdiam lugar na linhagem para os homens. Fez isso para que Daemon Targaryen não conseguisse o que queria, mas o tiro saiu pela culatra, como veremos à frente.

A partir do momento em que Alicent providenciou um herdeiro masculino, esperava-se que Viserys I voltasse atrás, mas se manteve irredutível e apoiador de Rhaenerys como Rainha, plantando o cisma entre filha e madrasta. Lembrando que em tese ambas foram conquistadas por Daemon, o triângulo amoroso pode secretamente ter proporcionado mais um elemento na rivalidade das duas.

Rhanerys terá um post à parte, aqui é mencionada para ressaltar que a relação das duas amigas de infância as coloca disputando o mesmo amor e o mesmo objetivo, criando um antagonismo irrevercível. Daemon não era apaixonado por nenhuma das duas em especial, mas tem toda cara de colaborar para um clima ruim entre elas.

Outro homem que estava no meio de Alicent e Rhaenerys é justamente Viserys I. Pelos historiadores, a Rainha não se conformava com a preferência e proximidade entre pai e filha e a raiva mútua foi repassada para seus filhos.

Se ouro e dourado tinham força no guarda-roupa de Cersei, Alicent prefere a cor verde. É algo a aprender imediatamente: Westeros se divide em cores. Quem apóia a Rainha, usa verde. Os fiéis à Rhaenryra, demonstram usando preto. Isso fica claro no torneio que aparece no trailer da série.

Série pode ser sobre Targaryens, mas o jogo ainda é pelo trono

Embora House of the Dragon não seja chamada de Game of Thrones, é ainda o mesmo jogo. O objetivo de todos é estar no Trono de Ferro. Alianças e casamentos só têm esse mesmo objetivo e nenhuma personagem tem outra motivação. Dito isso, Alicent começa mostrar sua sede própria conduzindo as vidas de seus filhos. Sem conseguir alterar a ordem sucessória, fez campanha para que sua enteada se casasse com seu primogênito, mesmo que fosse mais de 10 anos mais velha. Unindo Rhaenerys à Aegon, na tradição dos Targaryens de casar irmãos, seria efetivamenet o filho de Alicent que comandaria Westeros, não Rhaenyra. Não é surpresa que foi nesse mesmo período que as fofocas de Daemon com a sobrinha surgiram, pois o príncipe sempre quis ser Rei. Mas a estratégia de Alicent estava tão obvia que nem Viserys I a aceitou, em especial porque sabia que Rhaenerys e Aegon I se detestavam.

Se não bastassem estarem disputando o trono, o afeto do Rei, terem compartilhado um amante em Daemon, Alicent e Rhaenerys se desentendem também por outro homem, Ser Criston Cole (Fabien Frankel). Ser Criston era a obsessão e paixão de Rhaenerys, mas algo se passa entre eles e rompem feio, com o Comandante da Guarda do Rei passando a adotar a cor verde e ser o braço direito de Alicent. Duplamente atingindo ao coração da rancorosa Rhaenerys.

A princesa herdeira se casa com o primo, Ser Laenor Velaryon, que era conhecido por amar mais homens do que mulheres. Como os fihos de Rhaenerys são morenos, a crença geral é de que o verdadeiro pai seja Ser Harwin Strong, mas Viserys I ignora qualquer suspeita e confia na filha. Mais tarde, quando Laenor morre e Rhaenerys se casa com Daemon, Alicent se ofende quando o filho deles é batizado com o mesmo nome de seu filho, Aegon. É a segunda razão para ter ainda mais raiva da enteada.

Para amenizar o clima cada vez mais belicoso, depois que os netos e os filhos brigam, com um deles perdendo o olho, Viserys I isola Rhaenerys em Dragonstone. Uma decisão infeliz que mais tarde dará espaço para Alicent agir. As brigas entre eles continua, custando eventualmente a vida de um dos filhos da herdeira do Trono, cada vez mais vingativa.

Morte do Rei, que sobe ao trono?

O rei morreu dormindo, aparentemente por causas naturais embora a suspeita de envenenamento estivesse sobre os ombros da rainha. Com a ajuda de Ser Criston, Alicent esconde a notícia para conseguir coroar o filho antes de que Rhaenyra fosse avisada da morte do pai. Quando a princesa é informada das duas coisas, que Viserys I morreu e que Aegon II, seu irmão, usurpou a Coroa, passa mal e aborta uma filha. A partir desse momento, recuperar o Trono se confunde com aniquilar os verdes, começando A Dança dos Dragões, valendo violência inimaginável.

Quando isso tudo acontece, Aegon II, primogênito de Alicent e rival de Rhaenyra no poder, já está casado com sua irmã, Helaena, com 3 filhos inclusive. Em uma ação surpresa, homens da facção preta conseguem capturar Alicent, quando ela está com Helaena e os netos. Eles forçam que a nova Rainha escolha qual dos filhos vai ter que sacrificar. Helaena escolhe o caçula, mas os homens matam o mais velho e as mulheres são obrigadas a assistir o assassinato. Halaena nunca mais recupera a sanidade. A essa altura, não há mais esperança para que Alicent e Rhaenyra voltem a se entender.

A guerra segue com baixas dos dois lados, mas com Daemon – superior em estratégias – conseguindo vitórias importantes para os pretos. Quando Aegon II “perde” King’s Landing, ao fazer uma opção errada de ataque, Alicent é feita prisioneira da enteada e Daemon, que poupam sua vida mas tem que saber que seu pai e irmão são executados e que sua única filha, Halaena, se mata (ou é jogada da torre). Para piorar, seu segundo filho, Daeron (o que tinha apenas um olho, lembra?) é morto em uma batalha, mas também mata Daemon Targaryen na mesma luta. Enquanto isso, Aegon II se esconde em Dragonstone aguardando fazer um contra-ataque.

Muito sangue, vingança e reviravoltas

O destino de Alicent tem a ajuda do total desequilíbrio psicológico de Rhaenerys, paranóica e sanguinária, que não consegue manter o controle de King’s Landing, especialmente sem Daemon e Lorde Corlys Velaryon. O sogro a deixou pelos verdes depois que Rhaenerys sacrificou um de seus filhos bastardos por suspeita – infundada – de traição. Para piorar, a população se revolta e ataca Dragonpit, matando vários dos dragões. Rhaenyra voa até Dragonstone para reencontrar o filho, mas é pega de surpresa pelo irmão Aegon II, que mantinha Aegon III (sobrinho), prisioneiro. Sem nem aguardar julgamento, Aegon II manda seu dragão devorar a irmã, na frente de todos, inlcusive o filho dela.

A vitória dos verdes é breve. Alicent não concorda com a decisão do conselho de que sua neta se case com o filho de Rhaenyra, Aegon III, ainda traumatizado com a violenta morte de sua mãe. Tortuosamente, no entanto, é o que vai garantir que sua linhagem permaneça no trono porque quase imediatamente Aegon II é envenenado e justamente sucedido pelo sobrinho. Alicent ainda tenta convencer a neta, Jaehaera, a matar o marido em nome dos verdes, mas é em vão. É o filho de Rhaenyra que ira o novo Rei de Westeros.

Sem aceitar a “derrota”, Alicent é condenada ao isolamento longe da Corte, onde passa os dias chorando e rezando, falando sozinha e passando a detestar a cor verde. Morreu durante uma pandemia de febre, poucos anos depois. Suas últimas palavras foram de que sentia saudades dos filhos, a quem queria reencontrar, especialmente a filha, Helaena. Mencionou também o Rei Jaehaerys I, dizendo que iria ler para ele, como fazia quando jovem e ele elogiava sua voz.

Com nomes parecidos e interesses cruzados, é mesmo difícil entender de primeira a complexidade. Em resumo, Alicent Hightower e Rhaenyra Targaryen entram no Jogo dos Tronos como peças de estratéfia dos homens ao seu redor. Daemon Targaryen, que vamos falar em outra oportunidade, é o “Littlefinger” da vez, manipulando todos e todas para tentar chegar ao trono. Alicent e Rhaenyra disputam o amor do Rei, o poder e defendem suas famílias, mas perdem todos. Ironicamente é a união de seus herdeiros que garante o futuro dos Targaryens, através do casamento de Aegon III e Jaehaera. Infelizmente após um dos maiores derramamentos de sangue da História de Westeros.

Você vai torcer pelos verdes ou pretos?

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