A eterna originalidade de The B-52s

Vou confessar e entregar a idade tamanha é minha adoração pela banda. Fui ao Rock In Rio para vê-los. Fui brindada de que na mesma noite tinha Queen, mas era o The B-52’s (na época com apóstrofo) que eu estava alucinada para ver ao vivo. Não me decepcionei. Em 2008, quando passaram pelo Rio, me despenquei para revê-los. De novo, espetaculares. E ainda agradeço à eles ter ganho um ipod da Apple quando ainda era novidade apenas por saber a cidade de onde o R. E. M. era. Amo Mike Stipe, claro, mas o que eu sabia era que o “R.E.M. era da mesma cidade que os B-52s, ou seja, Athens, Georgia”. Entendeu o sentimento?

Pois então, por nenhuma razão em especial essa semana bateu saudade dessa banda “futurista do futurismo”, “doidinha” e que para mim nunca deixou de ser o sinônimo de originalidade. Até John Lennon era fã. Foi graças a ouvir Rock Lobster que ele desistiu da aposentadoria da música, como revelou em uma entrevista à Rolling Stone, três dias antes de sua morte.

“Eu estava em um clube de dança uma noite nas Bermudas. No andar de cima, eles estavam tocando discoteca, e no andar de baixo eu de repente ouvi ‘Rock Lobster‘ dos B-52’s pela primeira vez. Você conhece? Soa como a música de Yoko [Ono]” ele disse sobre o grito de Cindy Wilson no final da música.”Eu disse a mim mesmo: ‘É hora de pegar o machado velho e acordar a esposa!'”, disse Lennon. Assim nasceu Double Fantasy. O que merece um post à parte, claro.

A trajetória do The B-52s foi marcarda por dor, sucesso, críticas e resistência. O grupo formado em uma pequena cidade no interior do estado sulista não tinha nada que dissesse o que essa banda iria apresentar. Não havia e não há nada igual.

No final dos anos 1970s, Athens era, nas palavras de Kate Pierson, que lá chegou com o “futuro ex-marido”, “uma cidade de agricultores: havia uma loja de ferragens, uma loja de ração e uma loja de sementes. Eu tinha esse lugar por 15 dólares por mês no meio de um campo, um barraco antigo e descolado – era o barraco do amor! Eu morava lá e formamos nosso próprio grupo de loucos: excêntricos e artistas apenas se divertindo juntos e criando nossa própria diversão. Estávamos saindo e invadindo festas juntos. Se houvesse cerveja grátis, iríamos invadir a festa e causar estragos. Uma vez eu levei uma mangueira de jardim para dentro de casa e borrifei. Felizmente eles eram meus amigos, e era uma casa alugada.” Ou seja, uma Party out of Bounds no Love Shack.

Claro que o grupo de excêntricos incluiam os irmãos Ricky e Cindy Wilson, Keith Strickland e Fred Schneider. Se deram tão bem que logo surgiu a ideia de formar uma banda. Tudo depois de uma sessão de improviso quando compartilharam uma bebida em chamas em um restaurante chinês. O primeiro show (com Wilson na guitarra) foi em 1977, em uma festa do Dia dos Namorados para seus amigos. “Somos todos grandes fãs de música. Fred tinha uma enorme coleção de discos. Ouvimos Perez Prado e Kai Winding, e soul music, trilhas sonoras de filmes B e Nino Rota. Não havia internet na época, então estávamos procurando inspiração nas enciclopédias”, Kate relembrou em uma entrevista ao The Guardian.

O nome da banda, ao contrário que se dizia no início, é por conta de um penteado dos anos 1960s, de colmeia, que remetia ao nariz da aeronave B-52 e que Pierson e Cindy Wilson usavam em apresentações. Chegaram a considerar nomes como Tina-Trons ou Fellini’s Children, mas Keith sonhou com o nome de B-52s.

Sem formação musical, a criatividade visual – com roupas de brechó – e o bom humor de suas letras logo se destacaram. O som deles definiu o movimento new wave, com uma combinação de dance, surf music e rock, com riffs de guitarra diferentes e criados por Ricky Wilson. Sua originalidade logo os levou para o coração punk de Nova York, o CBGB e também no conhecido Max’s Kansas City. O primeiro single, Rock Lobster, rendeu um contrato com uma gravadora e um álbum que vendeu meio milhão de cópias.

“Fred realmente se inspirou quando estava em uma discoteca e viu esses crustáceos projetados nas paredes. No início, o sucesso do Rock Lobster foi uma completa surpresa. Estávamos dizendo um ao outro: ‘Isso é tão estranho; quem vai ouvir isso?” Quando tocamos nossa primeira festa em Atenas, nossos amigos todos dançaram: isso é um ótimo sinal. Sabíamos que estávamos no caminho certo,” lembrou Katie.

Com o segundo álbum, Wild Planet, veio o reconhecimento mundial e clássicos como Private Idaho, mesmo que fossem chamados “futuristas do futurismo” ou “doidinhos”. Estrelas disputadas, foram produzidos por David Byrne e estavam ascendendo quando veio a tragédia pessoal. Ricky Wilson, líder e compositor dos sucessos do grupo, de repente, ficou doente durante as gravações de Bouncing Off the Satellites. “Ele simplesmente não conseguia lidar com toda a jam do grupo. Estava fragmentado e me senti alienada, como acho que Fred também,” lembra a vocalista.

Hoje é admitido que Ricky tenha morrido de doença relacionada à Aids, mas na época a doença foi mantida em segredo de todos os seus companheiros de banda, mesmo sua irmã. O único que soube da verdadem pouco antes de sua morte foi Keith. “Vimos Ricky emagrecer e perguntamos: ‘Você está bem?’ E ele disse: ‘Ah, parei de comer comida mexicana’. Ele adorava comida mexicana. Um dia ele não apareceu para o ensaio. Keith me ligou no dia seguinte e disse: “Ricky está no hospital e pode morrer.” Foi a coisa mais chocante. Parecia que nós, especialmente Cindy, nunca superaríamos isso. Olhando para trás, estávamos em negação. Achamos que algo estava errado, mas nunca sonhamos que ele morreria de repente,” confessou Katie.

Ricky faleceu poucos meses antes da apresentação no Rock in Rio e foi Keith que levantou o grupo, deixando a bateria e assumindo a guitarra. “Ele foi o catalisador. Foi uma coisa de cura. Sentimos que, em homenagem a Ricky, tínhamos que fazer isso”, explicou a cantora.

Houve momentos de separações. Cindy chegou a deixar a banda e Fred e Katie tentaram carreiras solo, mas o B-52s nunca chegou a “acabar”. Depois de um hiato de quase 15 anos, em 2008 o B-52s lançou o excelente álbum Funplex, com o qual voltou ao Brasil e mostrou a mesma energia 23 anos depois de terem se apresentado no país pela primeira vez. Homenageando Felinni (Juliet of Spirits é uma das canções do álbum, em referência a um de seus filmes), o grupo ainda estava no quarteto que conquistou o mundo. Foi incrível.

Embora tenham variado entre nem sempre usarem as perucas e fantasias dos anos iniciais, Katie e Cindy seguem se divertindo. “Cindy e eu, desde o início, não nos vestimos para a beleza. Usávamos perucas malucas e roupas malucas. Então nós nunca estávamos tentando ser glamourosas. Mas não tínhamos um líder e todos contribuímos igualmente,” Katie riu.

Para superar a dor da perda e o desafio do tempo demanda muita afinidade e amor, algo que claramente ainda une os membros da banda. Keith deixou de viajar, mas Fred, Cindy e Katie seguem com a banda. “Ainda somos amigos, o que é um milagre depois de 40 anos de turnê. Também fizemos muitas pausas e não fizemos tantos discos, então tiramos a pressão. Somos amigos o suficiente para dar espaço um ao outro, e sabemos o que aperta os botões um do outro. Então nós tentamos não ir lá. É como aquelas famílias onde é disfuncional e às vezes é melhor não dizer as coisas. Mas ainda saímos juntos, comemos juntos e festejamos juntos. Isso é meio milagroso, que nos amamos,” explica Katie. E nós amamos eles. Sempre.

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