Sobre o reencontro em da Família Real: a questão é o presente, não o legado

O Jubileu de Platina da Rainha Elizabeth II deixou há tempos de ser sobre o que foram os 70 anos de seu reinado e passou a significar o que será da monarquia britânica. E logo, tipo em 5 anos. Aos 96 anos de vida, com a saúde claramente fragilizada pelo tempo e a Covid-19, a soberana que acostumamos a ter como referência de estabilidade, está na fase de despedidas. A essa altura é uma questão matemática, pois a 4 anos de seu centenário (que tenho confiança que vai inclusive ultrapassar) teremos a comprovação de que ela é uma highlander*!
(*referência pop para millenials: citação do filme de 1986, Highlander, O Guerreiro Imortal, sobre imortais vivendo entre nós)

Todo processo de modernização da monarquia foi lento nesses 70 anos. Quando Príncipe Philip desagradou o sistema ao trazer as câmeras para registrar a intimidade da família, nos anos 1970s, abriu de alguma forma, mesmo que involuntariamente, as portas para os tabloides e paparazzi. Mas acertou: ficaram mais populares e passaram a ser vistos como celebridades.

Depois, na década seguinte, com a rebelde e incomparável Princesa Diana, avançaram para uma proximidade com os súditos, lavando roupa suja de traições em público e falando de assuntos delicados e tabu, como disturbio alimentares e depressão.

Com sua morte prematura da princesa, logo na virada do milênio, foi Elizabeth II que retomou seu protagonismo pelos próximos 20 anos. Precisou que um de seus netos se apaixonasse perdidamente, e chutasse o balde, para que “voltassem para o começo”. Afinal, um príncipe abrindo mão de tudo por uma divorciada americana sugere que o ciclo nunca avançou um milímetro em vez de ter chegado “ao fim”, ou, ao “futuro”. Para Família Real, a questão e o drama são exatamente os mesmos de 85 anos atrás. Como ainda falar em “modernização”?

Há dois anos, entrevistei uma especialista em vidas passadas para discutirmos hipoteticamente (claro!) o que muitos definem como “resgate familiar” dos Windsors. As personagens são exatamente as mesmas e o ponto em comum está na única testemunha viva de todo conflito: a própria Rainha. A entrevista era para ter sido publicada em CLAUDIA, mas ficou inédita porque rapidamente Harry e Meghan romperam com a tradição e decidiram viver o presente. Em outras palavras, Harry colocou a Rainha no único papel que permite para que possa ser feliz, o de avó. Ela não é mais sua chefe, nem seu pai, nem seu irmão. Ele ainda aparente uma dependência financeira com o sistema que critica ao ganhar relevância justamente por estar mudando as coisas, mas essa é uma equação a ser avaliada na próxima década. Impossível ser 100% isento no momento.

Há de se defender o casal rebelde em alguns aspectos. Mesmo que internamente exista problemas de personalidade, eles efetivamente estão mais aptos na comunicação atual do que a Firma. E vamos dar o crédito a Meghan Markle porque ela é genial em estratégia de comunicação e posicionamento de marca. Harry encontrou o apoio que queria para realizar seus sonhos de independência, mas a cabeça claramente é ela. Não é machismo e não estou usando a palavra “culpa”, porque ela não deve nem pode ser apontada como autora de nada. As mudanças vieram do desejo do príncipe, ela é uma mulher moderna, independente que não “precisa” se submeter ao regime ultrapassado da monarquia. A “culpa”, não é dela.

Meghan Markle é uma Angelina Jolie, pela falta de melhor referência. Assim como a atriz fez a reescritura de uma “louquinha talentosa” para humanitária respeitada, Meghan entendeu como se colocar, como abraçar as causas relevantes e que tenham ligação com a sua trajetória. Ela quis trazer isso para a Família Real britânica, que, ao reagir negativamente com base nos valores pré-milleniall, está pagando (caro) por ter rejeitado ao menos considerar ter dado voz a ela. Veremos em 2030 como a balança vai pender, hoje não está legal para os “tradicionais”.

Isso tudo, mais uma vez, vai ganhar o mundo dentro da Catedral de Saint Paul. Depois de termos testemunhado o maior gelo Histórico de uma família em crise, em 2020. Difícil não antecipar tensão. Quando vi o príncipe William e Kate Middleton tão revoltados a ponto de terem sido deliberadamente grosseiros com Harry e Meghan na frente das câmeras, eu juro que falei alto: “Ih, eles vão se arrepender disso”. Fácil conclusão. Tudo que fazemos ou dizemos de cabeça quente tende a escapar o bom senso assim que o tempo esfria tudo. O impasse segue o mesmo e as opiniões dos casais claramente seguem em posições opostas, mas nada que é tão público é esquecido e a imagem foi uma das mais marcantes da década.

A convite da Rainha, todos estarão novamente no mesmo local, juntos, rezando. Se se falarem, serão julgados pela formalidade ou informalidade. E julgados de “falsos” ou “arrependidos”. Se não se falarem, vão encarar a cultura do cancelamento. Não importa o que seja feito, o Jubileu de Platina não é mais sobre legados ou futuros, é sobre o presente, ou seja, sobre Harry e Meghan. Que estão registrando tudo para o especial deles na Netflix e guardando toda negociação para o livro dele, a ser lançado ainda esse ano. No momento, a hashtag é correta: Meghan e Harry “venceram”.

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