A coragem e a derrota de Amber Heard

Amber Heard é uma mulher forte, corajosa e articulada em seu discurso, muito mais do se comprararmos o que vimos Johnny Depp no julgamento que ocupou as redes sociais e conversas ao redor do mundo. A atriz o acusa há anos de violência doméstica e abuso, motivos principais para o divórcio após um casamento de pouco mais de alguns anos. Ganhou a causa duas vezes quando ele a acusou de difamação, mas, quando o julgamento virou um reality acompanhado ao vivo pelo YouTube, perdeu. Vai recorrer da decisão, mas muita coisa pode ser analisada de toda novela, onde essa derrota ou vitória demandam mais nuances do que nossa sociedade binária pode aceitar.

Quando Amber Heard apareceu com o rosto machucado e se separou de Johnny Depp, uma das mais queridas e poderosas estrelas de Hollywood, não foi exatamente um choque. O ator, que não é de dar muitas entrevistas, era conhecido pelas intensidades de suas relações amorosas, por beber e usar drogas e ter algumas lendas de violência alegadas a ele. Até então, essas histórias – baseadas em quartos de hotéis destruídos e etc – não atrapalharam a carreira dele como ator, mas, Amber o acusou exatamente na virada do movimento do #metoo e tudo mudou.

No dia 18 de dezembro de 2018, a atriz assinou um artigo no Washington Post para falar do #metoo e encorajar as mulheres a mudar o comportamento, a serem mais corajosas. Para reforçar seu argumento, sem citar o ex-marido, ela dá uma série de exemplos da sociedade e julgamentos externos sobre questões delicadas e – acima de tudo – falava da falta de equidade quando homens e mulheres discutem em posições opostas. No argumento de Amber Heard, o artigo não era sobre Johnny Depp e ela ainda acredita nisso. Porém, ao falar na primeira pessoa e citar que teve “a rara vantagem de ver, em tempo real, como as instituições protegem os homens acusados ​​de abuso”, ela estava falando do ator. Ela mesma admitiu quando pressionada e com isso, perdeu o processo.

Amber Heard não está errada quando, em 2018, disse que sentiu “como se estivesse sendo julgada no tribunal da opinião pública”, mesmo que na época ainda não tivesse vivido nem a metade do drama. Não recuou nem assim. Está empenhada, mais do que nunca, a dar seu rosto à uma causa nobre feminista, mas não encontra apoio unânime nem entre as mulheres.

A atriz é sem nenhuma dúvida, como falei, articulada. Mas não é empatica ou carismática. É duro reconhecer que – nesse caso os conservadores que me perdoem, absurdamente se aplica ainda mais para as mulheres – falar a verdade não é o suficiente. E Amber Heard não falou apenas verdades, foi pega mentindo sobre alguns dos fatos cruciais e onde deveria ter sido honesta, para não comprometer sua credibilidade. Mas mentiu, aparentemente, para não ser condenada no “tribunal da opinião pública”.

Mentiu que o artigo não era sobre Johnny Depp. Mentiu que estava com nariz quebrado e maquiado em aparições públicas. Mentiu que não deixou fezes humanas na cama do casal para ofender o ex-marido. Mentiu que não avisou antecipadamente à TMZ que iria acusar o ator de violência doméstica, para ser fotografada com o rosto machucado. Também mentiu que não veio dela, ou de pessoas próximas, o vídeo de Johnny Depp alterado em casa batendo em portas. Essas mentiras, que se tivesse admitido serem verdades, comprometeram qualquer outra acusação que faça ou tenha feito. Ainda mais com as gravações aparece rindo e admitindo que agredia o marido, o chamando de fraco e uma piada.

Não sou advogada e falo apenas da experiência que tenho fazendo matérias sobre a Justiça. No tribunal, para que exista base de equilíbrio, apenas fatos são levados em consideração. O fato principal era o de que fosse reconhecido que Amber falou de Johnny no seu artigo, alegando acusações que não tinham ainda sido confrontadas em um local neutro e portanto, estava difamando o ator. Por isso ela perdeu nesse primeiro momento.

Para comprovar que é inocente, Johnny Depp abriu sua vida pessoal como jamais antes e se colocou como uma vítima vulnerável. Admitiu sua dependência química e alcólica, compartilhou sua dor em estar apaixonado e em uma relação abusiva que o remetia à sua relação abusiva com sua mãe e sem esforço recuperou a simpatia pública. Foi uma estratégia arriscada porque em tempos de cancelamento, sincericídio é quase uma sentença de morte, mas ele tinha menos a perder.

Dessa forma, quando se tenta colocar a questão de violência contra mulheres no coração da polêmica, não funciona. Amber argumenta que esse era seu único objetivo no artigo e apenas exerceu seu direito constitucional de liberdade de expressão para compartilhar seu testemunho. Se apenas fosse simples assim. Para uma pessoa tão articulada, sua argumentação parece até inocente, porque, claro, há mais sutilezas do que arfirmar que podemos escrever o que quisermos onde quisermos sobre nós mesmos quando o que falamos atinge diretamente terceiros.

Ela tem razão quando questiona se as testemunhas de defesa do ex não teriam interesse financeiro para defendê-lo, porém o que insentou o ator das acusações foi o fato de que Amber citou Kate Moss em um momento, abrindo a oportunidade de que a modelo falasse pela primera vez em público e sob juramento que o ator jamais a agrediu verbalmente ou fisicamente. Foram os anos de namoro com ela que a imagem de destruidor foi associada a Johnny e agora oficialmente foi arquivada como uma mentira. Outro depoimento que enterrou a defesa da atriz foi o do editor da TMZ, que deixou claro como o site funciona e como o vídeo e a foto foram armadas pela atriz ou alguém próximo a ela. Com esses dois testemunhos, Johnny Depp desfez os argumentos de ser uma pessoa agressiva e colocou na conta da ex-mulher a questão da malícia, que é o que hoje a opinião pública usa contra ela.

Nem tudo são flores. A psicóloga que prestou depoimento em defesa do ator reconheceu que a relação do casal era de agressão mútua e que, isso é importante, Amber deu um gatilho no comportamento do ex. Ou seja, ele sim a agrediu em alguns momentos.

O desfavor que toda essa discussão traz para o feminismo é a de que as mulheres ainda têm que argumentar, registrar e justificar muito mais quando acusam um homem do que na situação inversa. É verdade, mesmo que incômoda. Porém, simplificar que Amber Heard inventou tudo para ficar famosa é igualmente perigoso. Infelizmente, hoje convivemos com pessoas que sofrem de desequilíbrios narcissistas que as fazem capazes de qualquer coisa para estarem em evidência. Para Amber, é uma viagem sem volta. Ela tem que se manter firme com o que conta, mas precisa escolher a versão que é verdadeira e se manter nela. A vitimização não se encaixa com o quer alcançar e foi quando caiu nessa armadilha que suas histórias pareceram incoerentes.

Não queria Amber Heard como o rosto de nenhuma campanha feminista. Porém, como mulher, não quero outra destruída quando fala de algo tão sério, tão frequente e absurdo como violência doméstica. Ela perdeu sua causa contra Johnny Depp, já anunciou que a briga continua, mas essa derrota foi muito significativa. Juntar a bandeira feminista à essa história é muito infeliz. Heard versus Depp não é o símbolo do #metoo. Que os homens tóxicos não consigam fazer com que seja.

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