A mulher que amou Rainha Elizabeth I como filha

Elizabeth I praticamente não conheceu sua mãe, Ana Bolena, que foi executada a mando de seu pai, Rei Henrique VIII, quando a princesa era apenas um bebê. Não que, se as circunstâncias fossem outras, ela fosse ser criada pessoalmente por Ana. Era comum que as crianças da realeza tivessem educação conduzida por outros, longe da Corte. Mas o fato de que a mãe foi oficialmente morta como traidora do Rei e uma bruxa, fez da pequena Elizabeth uma pária, jogada e se jogando entre tutores para sobreviver.

Duas mulheres se tornaram a mãe substitutas de Elizabeth I, e, uma delas, quase a traiu em um momento crucial. Parte dessa história estará no próximo episódio de Becoming Elizabeth. A primeira, Lady Margaret Bryan, nem apareceu na série porque foi tirada de Elizabeth para cuidar do Príncipe Edward VI. Já a segunda, Katherine “Kat” Champernowne (Ashley), teve destaque. Ambas protegeram a pequena Elizabeth o melhor que puderam, mas nem sempre conseguiram blindá-las de traumas. Pior ainda, Kat foi jogada contra a princesa em um dos momentos mais marcantes de sua juventude, quase custando sua vida (ou salvando).

Ana Bolena me deu a vida, mas Kat Ashley me deu amor

Rainha Elizabeth I



Katherine Champernowne Ashley tinha ligação com a família de Ana Bolena e quando passou a cuidar da princesa, possivelmente criou um vínculo importante da futura Elizabeth I com sua família renegada, os Bolenas. Efetivamente, Kat foi a figura mais próxima de uma mãe para Elizabeth I. Ficou ao seu lado até sua morte em 1565. Historiadores acreditam que foi a babá que preservou alguma memória positiva de Ana Bolena para sua filha (que somente após a sua morte descobriram que Elizabeth I sempre andava com um pingente que tinha uma foto escondida da mãe). Porém, foi Kat também que quase custou a vida de Elizabeth, no escândalo de sua juventude que é o coração de Becoming Elizabeth.

Quando Lady Margaret Bryan foi transferida para o serviço do Príncipe herdeiro, a pequena Elizabeth foi primeiro colocada aos cuidados de Lady Troy enquanto Kat era uma das damas de companhia da criança. Quando Lady Troy se aposentou, ela assumiu o papel de governanta (babá) e, efetivamente, de mãe da princesa. Foi ela quem diretamente educou Elizabeth a ser respeitosa e polida, além de fazer o que era esperado das mulheres naquele tempo: bordar, dançar, andar a cavalo e tocar instrumentos. Foi tão eficiente que dizem que aos seis anos, Elizabeth I conseguiu costurar uma linda camisa de cambraia de presente para seu meio-irmão mais novo. Além disso, foi Kat que também ensinou matemática, geografia, astronomia, história, francês, italiano, flamengo e espanhol à princesa precoce. A princesa sempre creditou à babá por sua formação intelectual, espiritual e de integridade. As duas eram extremamente ligadas e Kat sabia de absolutamente tudo que acontecia na vida da princesa. Tudo.

A ligação das duas ficou até sanguínea quando Kat se casou com o primo de Elizabeth, John Ashley, em 1545 e a infância da futura rainha ganhou alguma estabilidade quando o pai se casou com Catherine Parr, com quem ela se dava muito bem e foi viver mesmo quando ficou viúva do Rei. Porém foi também sob a custódia de Catherine que Elizabeth viveria um dos maiores traumas de sua vida.



As intrigas da Corte mesclavam Poder e amor com frequência. Catherine Parr já tinha um envolvimento com o ambicioso Thomas Seymour antes mesmo de se tornar Rainha e levou apenas 2 meses após ficar viúva para se casar secretamente com ele. Antes de optar pela viúva, ele tentou confirmar se poderia se casar com Elizabeth, mas foi negado. Ninguém aponta – portanto – que o que veio acontecer a seguir foi por motivação romântica.

Historiadores divergem sobre o que efetivamente rolou quando a princesa tinha apenas 14 anos, tendo como base apenas o relato de Kat. Alguns alegam que Sir Thomas Seymour teria “flertado” com a princesa, que teria ficado ou lisongeada ou apavorada, dependendo da versão, mas de qualquer forma divertido a todos, incluindo a babá. Muitos acreditam que até Kat também estava “apaixonada” por ele, alimentando de fantasias o coração de uma adolescente carente. O que causa polêmica, além da diferença de 26 anos que separavam os dois, foi o que aconteceu a seguir.

Sempre segundo Kat, a “graça” acabou quando Thomas passou a entrar no quarto da jovem princesa pela manhã, quando ela ainda estava de camisola, fazendo cócegas nela enquanto deitada na cama. As intimidades continuaram e, ainda no mesmo relato (obtido sob ameaça de tortura), a governanta teria alertado Catherine Parr, mas a madrasta ignorou o aviso e participou das “brincadeiras”, incluindo a ocasião na qual segurou Elizabeth enquanto o marido cortava seu vestido “em mil pedaços”.


E aqui fica o principal mistério. Segundo consta, a babá confirmou que foi após flagrar Elizabeth e Thomas se beijando, Catherine, grávida, expulsou a enteada de sua casa. Outra versão diz que Kat alega ter alertado a princesa sobre o risco de sua reputação diante da ousadia do “padrasto” e a convencido de deixar Chelsea para ir viver em Hatfield House, mas a essa altura as fofocas já tinham ganhado fôlego. As narrativas também divergem de quão longe foi o flerte. Uns dizem que a relação foi consumada (a série Becoming Elizabeth optou por essa) e outros que Elizabeth foi “salva” antes.

Conforme for, Elizabeth estava exilada quando a madrasta morreu após dar a luz a uma menina. A babá disse que teria tentado convencer Elizabeth I a escrever para Sir Thomas, para “confortá-lo em sua tristeza”, mas que a princesa teria respondido que ele não estava tão triste a ponto de precisar de palavras de apoio, algo que se confirmou quando em seguida ele passou a assediá-la, agora com a intenção de se casar com ela. Já astuta, Elizabeth se recusou a aceitá-lo sem a aprovação oficial do Conselho. Antecipando a negativa, Thomas tomou a medida radical de tentar “tomar posse do Rei”, para convencê-lo. Foi preso tentando invadir o quarto de Edward VI enquanto ele dormia.

Como consequência imediata, tanto Elizabeth I como Kat foram presas como co-conspiradoras de uma tentativa de assassinato. Até então, a escandalosa fofoca de um flerte entre a princesa e o marido de sua madrasta não tinha fonte segura, mas graças ao relato oficial de Kat, tudo mudou. Presa na Torre de Londres, encarando uma possível execução, a babá contou tudo, oficializando o ocorrido. Elas ficaram três meses presas.

A narrativa, no entanto, de certa forma protegia a princesa e aparentemente não criou maiores problemas entre as duas porque a governanta ficou com Elizabeth em Hatfield até que, em 1554, Elizabeth voltou a ser presa, agora a mando de sua irmã Mary I, por suspeita de participar de um golpe para tirar a rainha católica do trono. A governanta pediu e foi autorizada a se juntar a Elizabeth em outubro de 1555, só que no ano seguinte foi condenada à prisão sozinha, depois da descoberta de livros considerados sediciosos (ameaçadores à fé Católica). Kat passou três meses na Prisão Fleet e foi proibida de ver Elizabeth novamente após sua libertação. Um sofrimento para ambas.

Apenas com a morte de Mary I e a ascensão de Elizabeth ao trono que as duas encontraram paz. A Rainha promoveu sua babá a primeira-dama do quarto de dormir, uma das posições de maior confiança de um soberano, consolidando Kat em uma das pessoas mais influentes do Reino, afinal, era das principais fontes de informação, tanto para a rainha como da rainha, sendo assediada por nobres em busca de favores.

Elizabeth I presenteava sua mãe adotiva com presentes e honrarias até sua morte, em 1565, aos 63 anos. A Rainha sentiu muito a despedida da única mulher que a amou incondicionalmente como própria filha. Kat Ashley morreu em 18 de julho de 1565 e Elizabeth teria afirmado: ‘Ana Bolena me deu a vida, mas Kat Ashley me deu amor’.

A atriz Alexandra Gilbreath, mais conhecida por EastEnders, é quem interpreta Kat na série Becoming Elizabeth. Se não fosse pelo testemunho da babá, não teríamos conhecimento dos fatos, mesmo que mais tarde a Rainha tivesse tentado apagá-los de sua biografia. É com o que sua mãe postiça revelou que podemos entender como Elizabeth I tomou as decisões posteriores de não se casar e de, mais ainda, manter seus segredos e pensamentos para quase ninguém.

Veremos tudo isso nos próximos episódios da série.

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