A atemporalidade da instabilidade sucessória nas séries 


COMO SERÁ PUBLICADO EM CLAUDIA NO DIA 19/08

“Rei morto, rei posto”.

O ditado popular simplifica a tradição de transferência de poder, um conceito que saiu da Corte francesa onde a lei determinava que le mort saisit le vif (o morto é substituído pelo vivo), ou seja, a soberania de um rei seria instantaneamente passada para seu herdeiro assim que morresse, sem precisar nem aguardar a coroação. “O Rei está morto, longa vida ao Rei” passou a ser o anúncio oficial dessa ordem natural das coisas.

Se tudo fosse simples assim. O meio usado por regentes para garantir continuidade sempre foi o de anunciar, desde que possível, quem será seu substituto. Porém, ao oficializar quem herda a coroa, se estabelece uma opção para quem não está satisfeito, ou seja, nem sempre é possível evitar complôs, guerras, assassinatos e golpes de estado que enchem as páginas de História. O conceito, claro, se aplica fora da monarquia também. A série Succession, da HBO Max, clara com seu título, é justamente sobre a briga de herdeiros de quem vai herdar o comando de um império de comunicação. Não é à toa que Sucession esteja ganhando todos os prêmios ao qual é indicada (alô Emmys em setembro) e seja comparada à Rei Lear, de William Shakespeare. A peça, considerada uma das mais densas do bardo inglês, fala de um rei que divide seu poder e terras entre duas de suas filhas, mas a ambição e ganância de ambas o torna indigente e insano, no meio de todas as maquinações políticas.


Portanto não é surpresa que tantas tramas de filmes e séries ou livros usem a questão da transferência do poder como mola central da ação porque a ganância frequentemente induz a crimes e dramas. Em Becoming Elizabeth, da Starz, Elizabeth I e Mary I terminaram a 1ª temporada como inimigas (ainda veladas) em vez de irmãs. Tudo pela Coroa. Nem precisa lembrar que Game of Thrones foi outro título aludindo à disputa pelo trono. Agora vamos acompanhar House of the Dragon. A série aliás, que é uma adaptação de alguns capítulos do livro Sangue e Fogo, reflete também sobre temas como sexismo e manipulação, com duas mulheres transformadas em inimigas mortais: Rhaenyra Targaryen e Alicent Hightower.


Sempre usando a História como referência, tanto Daenerys Targeryen em Game of Thrones como Rhaenyra Targaryen em House of the Dragon lidam com os problemas da lei sálica. De origem também francesa, a Lei Sálica estabelecia regras hereditárias e de sucessão, excluindo totalmente os direitos das mulheres e seus herdeiros. Um dos argumentos para isso era porque através do casamento, a posse de tudo que uma mulher tivesse seria automaticamente passada para o marido, incluindo a Coroa. Em tempos que as mulheres eram vendidas para alianças políticas, tornou-se necessário criar um impedimento de que um inimigo acabasse herdando o reino. Na série Game of Thrones, Jon Snow, filho do irmão mais velho de Daenerys, tinha prioridade sobre o trono porque seu Direito vinha pelo pai. Ele não queria ser Rei e Daenerys não queria compartilhar o que lutou para alcançar, mas a mera existência de um homem com maior direito do que ela tirou o equilíbrio e acabou com uma facada no coração. Literalmente.



Em House of the Dragon, a aplicação de um conceito parecido com o da lei sálica na ordem sucessória dos Targaryens é o início de todo drama da série. A série começa com a explicação do momento da saga onde a herdeira do Trono de Ferro seria uma mulher, mas ela “perde” sua vez justamente por causa do seu gênero. Como karma é implacável, em seguida a situação se repete: o escolhido no seu lugar, Rei Viserys I, só tinha Rhaenyra como filha. Porém, em vez de manter a tradição da linhagem masculina, ele a declara sua sucessora. O que fica problemático depois que, no segundo casamento, tem filhos homens e sua esposa (Alicent) considera correto que os filhos homens sejam os sucessores oficiais, seguindo a tradição. Receita para uma guerra civil

Essa relação entre Rhaenyra e Alicent me fez pensar no final da 1ª temporada de Becoming Elizabeth, uma série escrita e dirigida por mulheres e onde o conflito entre Elizabeth I e Mary I deixou de ser puramente maniqueísta. Mary, que desconfia dos interesses de Elizabeth I, a avisa: “Sempre que há uma chance de poder, um homem procura a mulher que possa dar a ele”, ela diz. “E você deve sempre saber. Eles vieram pelo que você é [herdeira do trono] e vieram por si mesmos [para conseguir esse poder]”, completa. O resultado, tanto na História real como no fictício universo de House of the Dragon, é o derramamento de sangue. Provando que a sucessão de poder ainda é, e será por muito tempo, o gatilho para despertar o pior no ser humano. Fantasia ou não.

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