Sobre o “revival” de The Crown

Como publicado em 16 de setembro de 2022 no Caderno B+ do Correio do Estado

A despedida de um ícone de constância na vida de tantas pessoas ao redor do mundo, afinal apenas no trono Elizabeth II passou nada menos do que 70 anos, provocou – sem surpresa – um revival The Crown. A premiada série da Netflix narra a vida da Rainha britânica ao longo de várias décadas, começando no final da década de 1940 antes de seu pai, o rei George VI, morrer e Elizabeth ascender ao trono em 1952, com apenas 25 anos. Aprendemos ou relembramos a períodos de conflitos políticos marcantes na vida pessoal e pública não apenas de Elizabeth II, mas de seus parentes e súditos, com adaptações dramáticas que nem sempre são verdade. Dessa forma, passamos pelos vários primeiros-ministros de seu reinado, como Winston Churchill – durante a era do pós-guerra – até recentemente as interações da Rainha com Margaret Thatcher no meio de uma turbulenta Grã-Bretanha dos anos 1980.


Se o lado político tem capítulos interessantes, que mostram a evolução da inicialmente insegura monarca em uma líder pragmática, quase insensível aos olhos do povo (ela tem dificuldade de interagir carinhosamente com os filhos ou até chorar), é sem surpresa a parte da vida privada que nos entretém mais. Das crises matrimoniais entre Elizabeth e o Príncipe Philip, aos romances da Princesa Margaret, a tristeza do amor proibido entre Charles e Camilla até a entrada da Princesa Diana na trama, é uma novela que contextualiza a obsessão mundial com uma família para lá de complicada. Uma mescla de reality show, folhetim, documentário e ficção, The Crown praticamente não se encaixa em um único gênero e é viciante. Uma dor de cabeça para a Família Real, que opta sempre pelo silêncio para evitar polêmicas, mas que não tem controle nem sobre o interesse das pessoas sobre suas vidas ou ainda menos como podem ser retratados.

O grande gancho da série está justamente no paradoxo dessa regra de silêncio estabelecida pela Rainha. Peter Morgan, o showrunner, usa o que foi publicado em livros ou reportagens para nos transportar para os bastidores, “imaginando” como as cenas se desenrolaram, mas quase todas efetivamente aconteceram. Seu filme A Rainha (disponível na Amazon Prime Video) rendeu um Oscar para Helen Mirren e reconta um momento crucial de virada no reinado de Elizabeth II, quando na morte de Diana essa atitude de discrição e tentativa de lidar com o luto de forma privada provocou uma crise política que quase acabou com a Monarquia. Para azar dos Windsors, justamente quando Charles deixou de ser Príncipe para virar Rei, é o período que será relembrado na próxima temporada de The Crown. Em um momento em que as pessoas não sabem diferenciar ficção de realidade, vai ser bem chato para o novo Rei e a Rainha Consorte lidarem com o fantasma de Diana mais uma vez. A sorte da Família Real é que a pandemia atrasou as gravações e apesar de ter sido prometido para novembro de 2022, a nova parte da história tem mais a cara de ir ao ar apenas no segundo semestre de 2023 (a confirmar). Pode ser que Charles tenha tido um ano de reinado quando voltar a lidar com seu passado. Sorte também da Rainha, que não terá que conviver com a década que (até então) tinha sido uma das mais dolorosas de sua vida. Nos anos 1990s, uma parte do castelo de Windsor foi devastada pelo fogo, os três filhos se separaram em meio a escândalos (Charles e Diana, Anne que deixou o marido anterior pelo atual e Andrew e Sarah, coma Duquesa sendo fotografada com o amante antes de se separar). Isso mesmo, veremos como foi famoso “annus horribilis” e chegaremos à trágica morte de Diana, há 25 anos. 

Se comprarmos à crise atual protagonizada pela ala mais jovem da Família Real, esses dramas parecem até pequenos, mas são a semente dos tempos atuais. The Crown inicialmente seria concluída com o Jubileu de Ouro da Rainha, no ano em que ela completaria seu Jubileu de Platina, mas há informações de que possa se estender até o período mais recente. A ver. Por enquanto, a trajetória da monarca até 40 anos atrás está no top 10 da Netflix e o binge é válido para aguçar a curiosidade pelas próximas etapas. Elizabeth II foi vivida por duas atrizes premiadas, Claire Foy e Olivia Colman, que captaram bem a complexa personalidade da Rainha. A próxima a encarar o desafio será Imelda Staunton. É só preparar o chá e embarcar na História recente.  

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