A mágica da amizade feminina segundo Hollywood

COMO PUBLICADO EM CLAUDIA

Por décadas e mais décadas, uma Hollywood dominada pela visão masculina contribuiu para eternizar estereótipos negativos sobre as mulheres. Ainda tentando reverter muitos deles em pleno século 21. Por exemplo, me chateiam as matérias que “estranham” a fraca bilheteria no lançamento do filme “Ela Disse”, que reconta a história das duas jornalistas do New York Times que ajudaram a desmascarar Harvey Weinstein, porque ainda me soa como uma cutucada no movimento do #metoo, como se estivesse perdendo fôlego. Estamos ainda apenas começando!

Não que filmes que abordem amizade genuína entre mulheres seja novidade. O tema apareceu em vários clássicos do cinema. “As Mulheres”, de 1939, trazia um impressionante elenco com nomes como os de Norman Shearer, Joan Crawford, Joan Fontaine, Paulette Goddard e Rosalind Russell, assim como “Os Homens Preferem as Loiras”, de 1953, destacava a parceria inquebrável entre Lorelei Lee (Marilyn Monroe) e Dorothy Shaw (Jane Russell). Mais tarde, títulos como “Como Eliminar Meu Chefe”, de 1980, reuniu Jane Fonda e Lilly Tomlin pela primeira vez (ao lado de Dolly Parton) e endereçava as questões de assédio sexual, inequidade e outras defendidas no #metoo. A química entre as atrizes nesse filme é tão perfeita que gerou a maravilhosa “Grace e Frankie”, da Netflix. E como esquecer de “Thelma e Louise”? Ou “Amigas Para Sempre”, de 1988, com Bette Midler e Barbara Hershey? Podemos aumentar bastante a lista.

Embora houvesse filmes que representassem a amizade feminina, eram poucos, pois em geral havia sempre a teoria misógina de que a competição feminina mútua era empecilho para união entre as mulheres. Não é surpresa que finalmente nós mulheres entendemos que cabe a nós recontar as histórias sob a nossa perspectiva e inspirar novas gerações a combater uma visão errônea. Daí tantos conteúdos com a “nova” abordagem.

Na Netflix, duas séries recentes nos mostram a versão mais frequente sobre o tema: “Disque Amiga Para Matar” e “Grace e Frankie” trazem protagonistas que, dadas as devidas proporções, são “primas distantes”. Jen Harding (Christina Applegate) e Judy Hale (Linda Cardelinni) são uma versão mais dramática e letal de Grace Hanson (Jane Fonda) e Frankie Bergstein (Lilly Tomlin), onde está o clássico “opostos que se atraem” e que completam. Amor genuíno, de almas. 

A série da showrunner Liz Feldman estreou em 2019, meses antes da pandemia da Covid 19, e lidava primordialmente com o luto. O marido de Jen tinha morrido atropelado, sem ajuda, e ela não conseguia se conformar, assumindo uma atitude agressiva. Judy, uma hippie gente boa e com uma positividade quase tóxica, se aproxima de Jen e ali surge a improvável amizade. Não vou entrar em detalhes das três temporadas para evitar spoilers, mas há crimes, traições e muitas outras loucuras. Vou apenas revelar que, quando sabemos que Jen sobreviveu a um câncer de seio e a doença trouxe problemas conjugais jamais resolvidos com a morte inesperada de seu marido, nos emocionamos ainda mais com o que acontece na temporada final. Liz se inspirou em uma amiga sua para incluir a questão do câncer na trama e a série só chegou ao fim agora porque Christina Applegate, ela mesmo uma sobrevivente a um agressivo câncer de seio, foi diagnosticada com Esclerose Múltipla e não consegue mais trabalhar. A série é sua despedida.

No episódio final de “Disque Amiga para Matar” as citações de “Thelma e Louise” e “Amigas para Sempre” são fáceis de identificar e são uma bela homenagem ao universo feminino. Jen (Christina Applegate) e Judy (Linda Cardelinni), assim como Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lilly Tomlin) ou CC Bloom (Bette Midler) e Hillary Essex (Barbara Hershey), podem não ter começado como amigas de longa data, mas juntas superam suas diferenças, sempre com empatia e muito amor. Aliás, a verdadeira história de amor desses filmes e séries não está entre casais heterossexuais ou homossexuais, mas entre as duas mulheres. Acima de tudo, é uma história de amor delas com elas mesmas. Há uma paz inspiradora em saber que talvez sua alma gêmea (vou lembrar Charlotte Goldenblatt (Kristin Davis) em “Sex in the City”) pode ser sua melhor amiga. Não te aquece o coração?

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