Bette Davis: Maior do que a Vida

Lendária na terra de tantas outras, Bette Davis se destaca ainda hoje, 35 anos depois de sua morte, como uma das maiores atrizes que já existiram. Uma referência da qual ela tinha orgulho, uma reputação que veio no embalo de uma reconhecida e assumida personalidade forte e difícil, uma fama da qual tinha orgulho e que construiu com consistência. “Maior do que a vida”, em suas próprias palavras, mas mortal como nós. Em 6 de outubro de 1989, quando estava na França, mas a caminho do Festival de San Sebastián, na Espanha, o câncer com que lutava há anos, venceu. Bette tinha 81 anos.

Canções foram escritas em sua homenagem, da citação em Vogue, de Madonna (lançada imediatamente após sua morte e no qual a cantora declara “Bette Davis, we love you”) à Bette Davis Eyes, hino dos anos 1980s, sem esquecer que a primeira temporada de Feud era sobre os bastidores sobre sua briga com Joan Crawford, Bette deixou como legado uma filmografia ímpar que continua a influenciar o cinema e a atuação até hoje. Ela é lembrada não apenas por suas performances memoráveis, mas também por sua contribuição para a evolução da indústria cinematográfica sem esquecer que recebeu dois Oscars de Melhor Atriz, deu o nome à estatueta, liderou mudanças trabalhistas impactantes nos negócios e, acima de tudo, deixou personagens inesquecíveis. Como ela.

Desde que chegou à Hollywood deixou claro que seria “A” estrela

Nascida como Ruth Elizabeth Davis em 5 de abril de 1908, em Lowell, Massachusetts, Bette sempre comentou que o divórcio de seus pais, quando tinha apenas 7 anos, a deixou marcada para a vida, testemunhando sua mãe criar os filhos sozinha em tempos muito difíceis. Em vez de usar seu primeiro nome de batismo, ela decidiu que assinaria usando o apelido do segundo nome, seguindo a sugestão de uma amiga de sua mãe, que lia La Cousine Bette, de Balzac, que insistiu que a grafia afrancesada do apelido – Bette, em vez de “Beth” ou “Betty”, iria “diferenciá-la”. Certamente ela nunca foi ou seria como os outros, mas Bette Davis era seu nome antes mesmo de pisar nos palcos.

Sempre determinada em ser atriz, teve o apoio materno e se preparou para isso, lutando contra o rígico padrão de beleza da época que não colocava Bette entre seus destaques. Os olhos, cantados anos depois e sua assinatura, “eram grandes demais”, diziam, mas a atriz logo aprendeu a explorá-los a seu favor.

Na Broadway, foi ganhando destaque e com apenas 21 anos já era reconhecida o que a ajudou. Isso porque no meio tempo o cinema passou a ser falado e Hollywood buscou avidamente atores e atrizes da Broadway que tinham boa voz e boa aparência para suprir o “novo” profissional que precisavam. E Bette foi chamada para fazer um teste. Passaram-se décadas até que voltasse ao teatro depois disso.

Com um contrato de 300 dólares semanais da Universal Pictures, Bette Davis desembarcou em Los Angeles, acompanhada de sua mãe, em 1930. Estreou como coadjuvante, ao lado de outro iniciante Humphfrey Bogart, no filme Garota Rebelde (Bad Sister), em 1931. Não chamou a atenção de ninguém, mas quando ia ser demitida, o diretor de fotografia do filme, Karl Freund, avisou aos chefes do estúdio que “Davis tem olhos lindos” e isso rendeu a ela mais 13 semanas de contrato.

É preciso notar que nessa época, os lançamentos de filmes no cinema era gigantesco, portanto é impressionante para os padrões de hoje que ela tenha participado de seis filmes pela Universal sem ter chamado a atenção de ninguém. Quando ia desistir, um telefonema do ator George Arliss, mudou sua rota. Ele a colocou como sua protagonista em O Homem Deus (The Man Who Played God), e com esse sucesso, Bette começou sua longa e turbulenta relação com a Warner Brothers.

Sem levar desaforos, Bette logo ganhou sua reputação de “difícil”

Nos três primeiros anos ela esteve em nada menos do que 14 títulos, dividindo as telas com outras lendas como Barbara Stanwyck e Spencer Tracy, entre outros. Bette, que não era conhecida como doce ou bela, era certamente destemida. Sem se importar com o marketing pessoal que refletisse sua vida pessoal como as personagens que interpretava, ela logo estabeleceu que seria famosa por seu profissionalismo e talento acima de tudo, abraçando personagens antipáticos e vilanescos se dessem a ela a chance de se desafiar e se destacar. Hoje soa comum, mas, na época, era uma atitude completamente revolucionária.

Com o respeito dos técnicos e diretores, mesmo sem a simpatia de seus pares, Bette batia o pé para ter a cena do seu jeito e estar nos projetos que queria. Claro que, com um contrato onde a Warner era “dona” dela e decidia onde e o que ela deveria fazer, essa atitude foi rendendo à ela suspensões e brigas, mas ela se manteve firme.

Uma das “punições” comuns era “emprestar” seus astros para outros estúdios, mas quando a Warner fez isso a cedendo à RKO para interpretar a cruel e desleixada garçonete Mildred em Escravos do Desejo (Of Human Bondage), ao lado de Leslie Howard, ela ficou exultante. A adaptação do clássico de W. Somerset Maughham garantiu à Bette sua “primeira vilã inesquecível” e assim ela solidificou sua marca de Atriz, não apenas estrela. E sim, veio sua primeira indicação ao Prêmio da Academia, o que ela no ano seguinte pelo filme , quando ganhasse, apelidaria de “Oscar”. Aliás, vamos falar dessa indicação.

Bette queria o papel de Mildred Rodgers porque sabia que ele mudaria sua carreira. Como a Warner já estava irritada com seu comportamento belicoso nos sets, a “cedeu” à RKO apenas porque tinha certeza que seria um fracassso. Quando Escravos do Desejo (Of Human Bondage) fez sucesso e todos falavam de um Oscar para ela – bem, ainda não era “Oscar”, era o prêmio da Academia – a Warner não gostou, mesmo que fosse uma das suas “estrelas”. E não era porque seria prestígio para RKO não! Era não dar à Bette a satisfação de estar certa.

Assim, como ficou conhecido, a Warner iniciou uma campanha de despeito, incentivando os membros da academia a não votarem nela. Na época, as campanhas de votação e a apuração dos resultados eram feitas pelos chefes da academia (da qual Warner era membro). Obviamente, deu “certo”. A atriz foi inicialmente esnobada e ficou fora da lista dos indicados, mas seus apoiadores e o público ficaram indignados, começando uma campanha que reverteu a situação.

O esforço meio que foi em vão porque Bette foi indicada, mas perdeu para Claudette Colbert em Aconteceu Naquela Noite (1934). Ainda assim, o resultado deste incidente, a Academia decidiu mudar as práticas de votação e entregar a contagem dos resultados à empresa de contabilidade independente Price, Waterhouse & Co. (agora PricewaterhouseCoopers), que 90 anos depois ainda faz a contagem oficial. Bette ganharia seu Oscar no ano seguinte, por Perigosa, mas falaremos disso mais à frente.

Uma “Spartacus” de saias que mudou o modelo de negócio

A experiência de premiação só foi sal na ferida aberta de uma longa briga de Bette Davis contra o sistema de Hollywood, corretamente descrito por ela como “sistema de contrato de escravidão”. Os estúdios não apenas controlavam 100% dos trabalhos para os quais escalava seus astros, interferiam em suas vidas pessoais também.

Isso transformou a relação da atriz como uma “de amor e ódio”, com brigas históricas e suspensões quando se recusava a atuar no que ela considerava filmes inferiores. Eventualmente ela foi à Justiça para romper seus laços com a Warner, passando a ser autônoma em um tempo que ninguém – nem mesmo homens – ousavam pensar em estar no mercado sem “a proteção” de um estúdio. Mas se hoje é impensável ter um contrato de exclusividade onde quem escolhe os projetos são os executivos, a classe artística tem que agradecer à Bette, a “spartacus de saias” que não tinha medo de ninguém.

Em 1936, para desafiar seus “donos”, digo, “patrões”, Bette topou rodar dois filmes na Inglaterra sem a anuência da Warner e era de se imaginar que ela considerasse o feito um exemplo, mas ela mesma relatou que sua coragem não veio sem dor. Você se engana se pensa que foi financeira, nada disso. Bette queria o papel que todas as atrizes dos final dos anos 1930s sonhava: o de Scarlett O’Hara de E O Vento Levou. Segundo ela, para convencê-la a ficar, Jack Warner aludiu que estava negociando a compra dos direitos e um dos “maiores papéis de todos os tempos no cinema”, segundo ela contou anos depois, sem sacar que era justamente o best-seller do momento. “Mas eu não sabia disso”, comentou, lembrado que o dono do estúdio implorou ”’Por favor, não vá embora. Acabei de comprar um livro maravilhoso para você”, ao qual ela deu de ombros achando ser um blefe.

Nem Scarlett, nem Londres. Ao chegar na Inglaterra ela foi processada pela Warner Brothers, que conseguiu impedi-la de trabalhar por estar ainda sob contrato com eles. No processo, os estúdios apresentaram a briga como uma disputa meramente financeira e que “o contrato de escravidão” rendia a ela uma grande quantia para época, de mais de mil dólares semanais. “Se alguém quiser me colocar em servidão perpétua com base nessa remuneração, eu me prepararei para considerá-la”, ela retrucou, sem ser entendida pelo público ou pela Justiça, precisando voltar e se submeter.

A liberdade de decisão não veio, mas ela conseguiu reduzir a demanda de quantos fimes precisava fazer e sim, um salário ainda mais alto. Como consolação por perder Scarlett, Bette ganhou Jezebel, um drama sulista ainda mais dramático que E O Vento Levou, pelo qual ela recebeu seu segundo Oscar de Melhor Atriz.

E como 1939 foi o melhor ano da história de Hollywood, não é surpresa que Bette Davis estivesse em muitos dos sucessos de crítica e bilheteria, com pelo menos quatro filmes: Vitória Amarga (Dark Victory), Juarez, Eu Soube Amar (The Old Maid) e Meu Reino Por Um Amor (The Private Lives of Elizabeth and Essex).

Se seguisse citando sua filmografia, escreveria um livro. O que vale marcar é que ainda em 1942 estrelou um dos melhores filmes românticos de todos os tempos, Estranha Passageira (Now, Voyager), seu maior sucesso comercial e um dos papéis (doces) mais icônicos de seu legado. Claro, como esquecer a fala “por que pedir a Lua se temos as estrelas?” que é uma das mais lendárias do Cinema?

No ano anterior ao filme, em 1941, ela tinha se tornado a primeira mulher presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, mas seu temperamento forte comprou tantas brigas que, diante da desaprovação e resistência do comitê, às suas propostas, renunciou. Política nunca foi seu forte.

A relação com a Warner, que durou 19 anos, chegou ao fim com a virada dos anos 1950s. Muitos apontam que o período de outro de Bette Davis foi justamente o que ela esteve com o estúdio, os anos 1930s e 1940s, mas ela provaria a muitos que ainda tinha mais o que entregar e sabemos que Margot Channing de A Malvada (All About Eve) e Baby Jane vieram depois, bem depois…

Vida pessoal conturbada, mortes suspeitas e dramas familiares

Bette foi casada quatro vezes e teve romances conhecidos com diretores e famosos, mas dizia que o trauma do divórcio de seus pais a estragou para relações amorosas. Segundo ela mesma contou, o apelido à estatueta da Academia como “Oscar” foi sua ideia. Ao receber sua primeira estatueta, ela olhou para ela e achou que “seu traseiro se assemelhava ao de Oscar”, que era nome do meio de seu marido na época, Harmon Oscar Nelson. A Academia ignora essa versão claro, dizendo que foi Margaret Herrick que achou que a imagem lembrava “seu tio Oscar” e o nome pegou.

Há quem coloque Bette no meio de um cenário de true crime quando ficou viúva em 1943, porque seu segundo marido, Arthur Farnsworth, desmaiou enquanto caminhava por uma rua de Hollywood e morreu dois dias depois. Uma autópsia revelou que sua queda foi causada por uma fratura no crânio que ele havia sofrido duas semanas antes.

No inquérito que investigou o ocorrrido, a atriz negou saber de um evento que pudesse ter causado a lesão, embora depois tenha sido citada a queda de uma escada como a possível causa da fratra. Seja como for, oficialmente foi um acidente e a suspeita jamais foi completamente esclarecida.

Assim como a filha de Joan Crawford, Christina, fez nos anos 1980s, a filha de Bette – Barbara Davis Sherry – também escreveu uma biografia aludindo maus tratos e problemas com sua mãe, algo que magoou Bette profundamente. “Eu era um terror lendário”, ela reconheceu. ”Fui insuportavelmente rude e mal-educada no cultivo da minha carreira. Não tive tempo para gentilezas. Eu disse o que estava pensando e nem sempre era possível imprimir. Tenho sido intransigente, apimentada, intratável, monomaníaca, sem tato, volátil e muitas vezes desagradável. Suponho que sou maior que a vida”, Bette declarou certa vez. Mas não esperava as críticas de sua filha.

Se Joan estava morta quando Mamãezinha Querida chegou às lojas, sem poder se defender ou saber da vingança de Christina, My Mother’s Keeper, pegou Bette de surpresa. Ela, que nunca escondeu ser temperamental, teimosa e difícil de se conviver, foi retratada como abusiva, dominadora e alcoólatra, algo que a chocou. A resposta veio na publicação de sua autobiografia, anos depois, onde se defendeu ilustrando a filha como mentirosa e ingrata. Obviamente a relação das duas nunca se recuperou, mas a própria atriz famosamente disse um dia: “Eu sei o que quero como epitáfio”, avisou. ”Aqui jaz Ruth Elizabeth Davis – ela fez isso da maneira mais difícil.”

Freelancer e ainda rendendo grandes papéis

Quando passou a ser uma atriz sem contrato fixo com nenhum estúdio, Bette já estava “madura” para Hollywood e com isso, com menos ofertas de trabalho. Ainda assim, em 1951 substituiu Claudette Colbert no filme A Malvada (All About Eve) e fez de Margo Channing um dos maiores papéis de sua carreira, se não o mais famoso.

Margo Channing, aos 40 anos, era a própria Bette, a estrela da Broadway em declínio sendo imitada e ultrapassada por uma aspirante à fama mais jovem, Eve (Anne Baxter). Não é possível enaltecer o suficiente a perfeição do filme.

Mesmo com o sucesso, aos 45 anos ela mesma, Bette deixou o cinema que não a queria e voltou para os palcos, seguindo depois para TV. No início dos anos 1960s, com o sucesso de O que Aconteceu com Baby Jane (Whatever Happened to Baby Jane?) voltou a ser indicada e elogiada, mas nunca mais no mesmo status.

Embora a série Feud reforce a lenda das brigas de bastidores, oficialmente Bette sempre negou ter problemas com Joan. “Nunca briguei com Joan Crawford. Durante ‘Baby Jane’ o mundo inteiro esperava que lutássemos, mas não o fizemos. Nós dois éramos profissionais,” disse em 1982.

Mas ninguém se convencia de que o perfeccionismo e “sinceridade” extrema de Bette, traduzidos com brigas e grosserias, escondesse uma pessoa doce. Bette era impossível. E workahoolic: só via razão em viver era estar ativa. “Meu terror era nunca mais trabalhar”, disse ela depois, “pois eu sempre adorei trabalhar.”

Fumante inveterada como muitos de seu tempo, ela lutou contra o câncer por anos, mas em 1989 não resistiu. Ia ser homenageada no Festival de Cinema de San Sebastián, mas não conseguiu chegar lá, sendo internada em Paris e morrendo no hospital dias depois de ter desembarcado na França.

Seu legado de papéis marcantes e fortes, com 10 indicações ao Oscar e inúmeros prêmios (que ela amava colecionar sem nenhuma culpa), confirmam que Bette Davis alcançou seu objetivo.

Se hoje olhamos para sua atuação considerada exagedara e grandiosa, ainda há um brilhantismo calculado e era contra qualquer interpretação “natural”. ”Esse não é o ponto de atuação”, defendia. “O público deve acreditar em nós. Alguma vez tentei ser discreta? Nunca nunca nunca! Lutei contra isso desde o início. Eu acho que atuar deveria ser maior que a vida”.

Maior que a vida. Sim, ela repetiu esse desejo em mais de uma entrevista. E sim, ela é maior do que sua vida. É uma das maiores estrelas de todos os tempos.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário