A claustrofobia de The Last of Us

Se é que podemos considerar desde já uma marca da série The Last of Us são seus minutos de abertura. Brilhantes, poderosos, claustrofóbicos até. Na estreia, nos colocou em 1968 onde cientistas já alertavam que uma crise ambiental desenhava a criação de cenário propício para proliferação de fungos, mais perigosos do que vírus caso atacasse a humanidade. Tenso e ainda mais apavorante porque em termos ambientais, estamos nos aproximando do cenário descrito. No segundo episódio vamos para a “paciente zero”, uma funcionária de uma fábrica de farinha na Indonésia. Em 2003, já tínhamos 15 pessoas atacadas e passando pela mutação. A cientista que dominava o assunto alerta: matem, explodam cidades para tentar prevenir a pandemia, pois é letal e incurável. Outro soco no estômago.

A narrativa de The Last of Us tem invertido as surpresas de alguma forma ao abrir os episódios contextualizando o presente da história, em vez de acrescentar flashbacks ou conclusões inesperadas para nos deixar angustiados. Não que tenham abandonado os “cliffhangers”, aquela clássica situação cujos destinos ficam em suspenso e a solução não parece possível, mas as introduções colaboram para o sentimento de pânico e impotência quando testemunhamos as personagens tentando sobreviver.

Como gamers já pescaram, a primeira temporada está seguindo a primeira fase do jogo, com imagens e falas reproduzidas em detalhes, easter eggs que deixam os fãs ainda mais apaixonados. Não considero nenhuma surpresa o desempenho elogiado de Pedro Pascal como Joel Miller, é pura perfeição. Bella Ramsey tem dividido o público, mas estou do lado da parcela que está gostando e ainda aposta em sua virada. Interpretar adolescentes de personalidade forte já são sua marca registrada e Ellie será uma das mais importantes dessa galeria, tenho certeza.

Infelizmente, como esperado, demos adeus à sensacional Anna Torv, que trouxe uma aura de poder para Tess. Eu achei que fossem esticar um pouco mais a parte de sua história, mas não há tempo a perder. Como sabíamos, Tess é acidentalmente contaminada e se sacrifica para salvar o namorado e o que acha ser, finalmente, a esperança para a humanidade: Ellie.

A despedida de Tess na série é diferente do jogo e causou nojo, dúvida e surpresa, especialmente pelo estranho “beijo” de tentáculos que recebeu de um dos infectados que ajudou a matar. Estariam dando “boas-vindas” à nova zumbi do pedaço? Era estupro? Estaria Tess criando uma falsa conexão para distrair a horda? Ficou ainda mais triste depois de que ela, prática, se despede de Joel o perdoando por não amá-la como ela o amava (o que não é bem o caso, como Pedro deixou claro com suas lágrimas).

A decisão dos showrunners Craig Mazin e Neil Druckmann trouxe discussão entre fãs porque Tess efetivamente teve um destino ainda ainda pior do que ela sofreu no jogo, assim como mais sinistro. No original, ela é morta por agentes da autoritária FEDRA, a organização pseudo governamental, mas a conclusão é que faria ainda menos sentido que o trio esbarrasse com soldados em uma cidade aberta e evitada por humanos. Mais ainda, queria retratar como os infectados dominam os espaços que um dia foram uma cidade. Pena que não houve tempo (ainda) para a história do passado de Tess (que teria perdido marido e filho para o fungus, sendo forçada a matar um e trancando o outro quando não teve forças de eliminá-lo).

Com o sacrifício de Tess há duas mudanças importantes para Joel: recuperar sua conexão com as pessoas, especialmente uma jovem que o lembra Sarah. E, como Tess pede, passar a ter um mínimo de positividade sobre o futuro. Esperança é essencial. Mesmo com um cenário tão adverso como o The Last of Us.

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