O homem mais bonito de toda Inglaterra em seu tempo (alguns argumentam que até hoje), George Villiers, o primeiro Duque de Buckingham tem narrativas opostas que fazem dele uma figura enigmática mesmo 395 anos depois de sua morte, completados em 23 de agosto de 2023. De acordo com Alexandre Dumas em seu Os Três Mosqueteiros, ele era mulherengo e amante da Rainha Anne. Porém historiadores (sérios) afirmam que, como ‘favorito’ do Rei James I (código oficial para ‘amante’) e do filho dele, eventualmente o Rei Charles I, George foi na verdade um dos mais notórios e abertos homossexuais da monarquia britânica, também difamado e assassinado. Além da produção francesa do clássico da literatura francesa, a juventude de Villiers é foco da série Mary & George, ainda inédita no Brasil, mas com Juliane Moore no papel de sua ambiciosa mãe, Mary Villiers, e Nicholas Galitzine como George.

A série tem como base o best-seller The King’s Assassin: The Fatal Affair of George Villiers and James I, de Benjamin Wooley, a série vai cobrir a ascensão de George Villiers na corte, guiado por sua ambiciosa mãe e como ele conquistou o James Stuart, filho de Mary Stuart e sucessor de Elizabeth I no trono britânico. James, que assim como seu pai era homossexual, tinha mulher e filhos como demandava as regras de sucessão, mas também seus favoritos. Antes de Buckingham, seu amante era Robert Carr, Conde de Sommerset.
Obviamente, na briga pelo Poder, os favoritos corriam tantos riscos como ganhavam seguidores, devido à sua influência direta com o Rei. Nesse cenário, os inimigos de Sommerset viram no jovem Villiers, com apenas 21 anos e descrito pelo bispo de Gloucester, Godfrey Goodman como “o homem de corpo mais bonito de toda a Inglaterra; seus membros tão bem compactados e sua conversa tão agradável e de uma disposição tão doce”, como a perfeita oportunidade de derrubá-lo e substituí-lo. E tudo fazia parte do plano de Mary, que identificou logo cedo que a beleza incontestável de seu segundo filho poderia assegurar à ela o sonho de poder político e fortuna.
Mary, é descrita como “uma mulher de formidável força de caráter”, impopular, barulhenta, sem tato, gananciosa e implacável. Não é uma visão simpática, né? Filha de um descendente direto de Henry de Beaumont, figura chave nas Guerras da Independência Escocesa, Mary foi a segunda esposa de Sir George Villiers, com quem teve quatro filhos. Assim que foi possível, mandou George para a corte francesa, onde ele aprendeu esgrima, falar francês e a dançar, além de ter aprendido como se vestir com luxo. Assim que voltou da França, chamou a atenção de Jaime I, rapidamente passando a ser seu ‘favorito’. Nessa posição, os Villiers foram ganhando posição, dinheiro e poder, como Mary planejou.

O romance com o Rei poderia ser obvio e aberto, mas assim como os outros homens da Corte, George precisou se casar e mais uma vez foi sua mãe que arrumou tudo, elegendo a mulher mais rica da Inglaterra, Katherine Manners, Baronesa de Rutland, como nora. Sem surpresa, nem Katherine ou George estavam afim de aceitar a proposta, mas dizem que Mary criou uma situação que forçou a jovem a passar a noite sob o mesmo teto que George, manchando assim sua reputação e não tendo outra alternativa do que se casar com ele. A união foi consumada e eles tiveram filhos, portanto mais um ponto para Mary em suas artimanhas.
George Villiers era tido como a “esposa” de James I até sua morte, em março de 1625. Parte dessa versão se dá pelas cartas assinadas pelo Rei, como a que foi escrita em 1623 e onde escreveu: ‘Deus te abençoe, meu doce filho e esposa, e permita que você sempre seja um consolo para seu querido pai e marido’. A resposta de George deixa pouco a duvidar da relação dos dois, dizendo que ‘Eu naturalmente amo sua pessoa e adoro todas as suas outras partes, que são mais do que um homem jamais teve’, ‘Desejo apenas viver no mundo por sua causa’ e ‘Eu vou viver e morrer como um amante de você’. Não ajudava que Jamie I chamasse Buckingham de “Steenie”, em homenagem a Santo Estêvão, que dizia ter “o rosto de um anjo” e ter argumentado uma vez com Conselho da Coroa que “amo o conde de Buckingham mais do que qualquer outra pessoa e mais do que vocês aqui reunidos. Desejo falar em meu próprio nome e não que isso seja considerado um defeito, pois Jesus Cristo fez o mesmo e, portanto, não posso ser culpado. Cristo teve John e eu tenho George.” Mesmo com essas evidências, há historiadores que alegam que a relação era platônica, algo impossível diante de tantas palavras de amor.
Mesmo com tanto afeto mútuo, os inimigos de Buckingham o acusaram (assim como Mary) de envenenar o amante, gerando uma investigação parlamentar e a difamação de seu nome. O livro de Wooley, portanto a série Mary & George, embarca nessa possibilidade, usando como referência novos estudos históricos que sugerem que a acusação tinha fundamentos e que Villiers esteve diretamente envolvido com a morte do Rei.

Se a série Mary & George cobre esse período, os três últimos anos de vida do Duque de Buckingham ganharam fama graças à versão de Alexandre Dumas, que o insere na trama de Os Três Mosqueteiros. É o que hoje vemos tão popular, o anacronismo, que serve para confundir quem não busca confirmação histórica.
Devido à sua intimidade com Jaime I, naturalmente Buckingham convivia com os príncipes hedeiros e tinha uma maior conexão com Charles, que viria a substituir seu pai. Quando ainda era Príncipe de Gales, foi acompanhado de George Villiers à Espanha para negociações de seu casamento com a Infanta Maria, algo que a oposição agressiva de Buckingham levaram o acordo ao rompimento, criando problemas entre Inglaterra e Espanha. No lugar de Maria, Buckingham negociou o noivado do príncipe com Henrietta Maria, da França. Se antes os protestantes apreciaram a intervenção de um protestante evitando uma rainha católica ao eleger outra acendeu os conflitou religiosos. A derrocada começava assim.
Fervoroso protestante, Buckingham decidiu ajudar o rebelde almirante huguenote Benjamin, duque de Soubise em um conflito na França e fez de Richelieu seu inimigo, mas perdeu La Rochelle (tudo isso faz parte da trama dos Mosqueteiros) e com isso o fracasso só contribuiu para impopularidade do duque na Inglaterra. Quando Charles se tornou Rei, no entanto, Buckingham foi o único homem da corte de Jaime I a manter sua posição, o que o deixou mais poderoso e odiado. Suas falhas como militar, acumulando derrotas e gerando impostos para pagar novas expedições aceleraram seu fim trágico. Em 1626, o Parlamento inglês iniciou o processo de impeachment contra Buckingham, levando ao rei Charles a tomar partido do amigo e dissolver o Parlamento para protegê-lo.
Ainda como Os Três Mosqueteiros invertem a verdade, de inimigo de Richelieu, Buckingham negociou ajudá-lo na luta contra os huguenotes protestantes franceses, em troca da ajuda francesa contra os espanhóis, levando ao Parlamento britânico a ficar horrorizado com a ideia de protestantes ingleses lutando contra protestantes franceses. No vai-e-vem político, quando França. eEspanha se entenderam, Buckingham liderou outra força para ajudar os huguenotes em vez de se opor a eles, mas foi outro fracasso.
Na versão de Dumas, Lady de Winter e Richelieu estão por trás da morte de George Villiers, mas a verdade é que sua posição se tornou insustentável. O Parlamento tentou duas vezes impugná-lo e duas vezes o rei o resgatou dissolvendo o Parlamento, mas Buckingham era a pessoa mais odiada no Reino Unido. Ele foi morto a facadas, em 23 de agosto de 1628, organizando mais uma campanha para ajudar os huguenotes franceses. O assassino, John Felton, sentiu que havia sido negligenciado para promoção pelo duque. George Villiers ainda tentou revidar, mas caiu morto pelas feridas. Sua morte foi celebrada em todo país, menos no Trono.
Dizem que ao ouvir a notícia da morte de seu filho, sua mãe, Mary, não pareceu surpresa e até conformada. Fria como todos sempre a chamaram. Tinham se passado apenas três anos desde a morte de Jaime I. Mary morreu quatro anos depois de seu filho, em 1632. Ambos estão enterrados na Abadia de Westminster. No túmulo de Buckingham está o escrito em latim: “O enigma do mundo”. De fato, ele parece ainda ser, mesmo 350 anos depois.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

5 comentários Adicione o seu