A conclusão (?) de Loki

Propósito pode ser um fardo e um pesado também. O vaidoso Loki (Tom Hiddleston), em sua complexa e emocionante evolução pessoal finalmente fecha seu arco existencial, aceitando o peso que está implícito em seu destino. A conclusão da segunda temporada de Loki foi menos unânime que a primeira, mas não menos profunda. Desde que conhecemos o “irmão adotivo” de Thor (Chris Hemsworth), ele variou de antagonista a anti-herói, agora abraçando sua nova persona que o coloca onde sempre quis estar: no controle da história.

Próposito Glorioso é a senha da alma de Loki Laufeyson, algo que sempre afirmou e buscou como definição pessoal. Negado nos Avengers, nos filmes de Thor, aos poucos o acompanhamos ir amadurecendo e se transformando. As mortes de Loki partiram nossos corações (e de Thor) mais de uma vez e essa variante que acompanhamos na série da Disney Plus é a definitiva (até porque o destino do Loki “verdadeiro” pára nas mãos de Thanos). Portanto, chamar o episódio final de “propósito glorioso” é certificar que finalmente concluímos a evolução da personagem.

Há quem argumente que a trama da segunda temporada está cheia de buracos e falhas, e sim, é esticada. Na primeira, tínhamos um Loki “salvo” de sua morte e lidando com escolhas de qual de suas variantes teria que sacrificar, além de voltar e tomar seu lugar com outra alternativa, nos fazendo viajar com ele em uma jornada filosófica e divertida de destino versus livre arbítrio. Agora basicamente encontramos Loki correndo contra o tempo e o caos – por séculos – até resolver o problema iniciado por Sylvie (Sophia DiMartino) ao matar Ele que Resta (Jonathan Majors) na conclusão da primeira. Sem nada de realmente “novo” no cenário, demos voltas e voltas, tivemos vilões (a tenebrosa Miss Minutes!) mal resolvidos e no fundo todo drama poderia ter sido resolvido em dois ou três episódios. Tivemos seis.

É um pouco irônico que, com tudo que vem acontecendo nos bastidores, perceber que se a Marvel não antecipava buscar ter pelo menos uma opção imediata em mãos para resolver todos os problemas dessa fase soturna (e menos bem sucedida), Loki hoje dá essa alternativa. Com ele é possível reescrever tudo, fechar as portas, ir e voltar se quiser, com quem quiser e em que momento achar melhor. Um propósito mais do que glorioso, é vital!

A compositora Natalie Holt absolutamente fez história com sua trilha sonora, tão perfeita e inovadora que nos empolga do início ao fim. A sequência do logotipo do Marvel Studios correndo ao contrário com sua orquestração precisa é de arrepiar, assim como o momento final, com grandiosidade e emoção alinhadas. Loki não apenas aprendeu a controlar seu “deslizamento no tempo” como o usa com propósito, voltando cada vez mais no tempo para reviver eventos e mudar os resultados. Ficamos por hora centrados nas duas temporadas da série, perfeitamente amarradas, mas entendemos o potencial. Como o ator comentou em uma entrevista, Loki pode ir e voltar no tempo, mas é incerto se é uma habilidade que possa ensinar ou passar para outros.

Voltando às vertentes espirituais que dominaram a primeira temporada, a evolução de Loki depende de sua aceitação e compreensão de que sacrifícios para um bem maior nos conectam e – no seu caso – concluem sua missão. A decisão de Mobius (Owen Wilson) de salvá-lo trouxe indiretamente parte do que Loki sempre quis: amigos, família e aceitação. Sua disputa com Thor sempre o deixava do lado perdedor, ferindo seu ego. Na TVA, Loki finalmente fez sua turma, encontrou seu propósito. Sim, a essa altura todos já viram o episódio: Loki é o Deus do Tempo, mas só entende que a Coroa e o trono são seus quando não os quer mais, um princípio cabalístico traduzido por Sting (Se quer algo, o liberte). É o paradoxo de querer muito alguma coisa mas também saber que é preciso sempre estar pronto para sacrificar o que mais deseja. Com pessoas que gostam e o respeitam, Loki entende o que é abrir mão de seus objetivos para salvar quem ama e assim, ganha o que sempre quis. Infelizmente vem com solidão, mas a felicidade de que é para um bem maior. É o uso ideal do livre arbítrio.

Fãs estão buscando todos os easter eggs e conexões da série com os próximos filmes e conteúdos do MCU e como tudo está literalmente nas mãos de Loki, é um desafio e tanto. Fiquei emocionada com a natureza trágica da solidão imposta por seu propósito glorioso. Que a linha do tempo seja a imagem de Yggdrasil, a árvore nórdica da vida, é poesia pura. Fico feliz por ele, mas triste também. Não, é genial.


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