Há 35 anos, a Disney investia mais em filmes e séries do que produções de animação, que demandavam investimento sem oferecer o mesmo retorno. Por isso mesmo, o departamento que um dia tinha sido o principal da companhia estava sendo praticamente colocado de lado. Bernardo e Bianca (The Rescuers), de 1977, ameaçou recuperar o prestígio, mas não conseguiu. Doze anos depois, desistir de animação parecia a alternativa mais óbvia, fazendo uma ‘última’ tentativa ao desengavetar uma das histórias que o próprio Walt Disney sonhava adaptar depois de Branca de Neve e os Sete Anões, o conto A Pequena Sereia. Para isso, trouxeram da Broadway o letrista Howard Ashman, que mudou tudo. O resto é História, como sabemos.

Embora em 2023, a transição de A Pequena Sereia da animação para live action tenha sido cercada de controvérsias, o filme original também chegou às telas com sua parcela de curiosidades. Se quiser saber todos os detalhes, o registro de todo processo de produção é recontado no espetacular documentário Howard, sobre o roteirista e letrista Howard Ashman, disponível na Disney Plus. É uma aula de cinema e está cheio de revelações interessantes.
A Pequena Sereia chegou aos cinemas em novembro de 1989, ganhou dois Oscars (um deles, de Melhor Canção com Under the Sea) e é até hoje um dos favoritos do público. Aqui, 10 curiosidades sobre o clássico dos clássicos.
1- O sucesso de Splash – Uma Sereia Em Minha Vida, ajudou
Em 1985, a comédia romântica Splash- Uma Sereia em Minha Vida, estrelada por Daryl Hannah e Tom Hanks recuperou no imaginário geral a história infantil de Hans Christian Andersen. Com isso, quando o diretor Ron Clements encontrou um rascunho para A Pequena Sereia, o então chefe de produção da Disney, Jeffrey Katzenberg, aprovou a idéia, mesmo hesitando porque preferia fazer a continuação do filme do que a animação. Portanto, obrigada Tom Hanks!
2- Ursula: uma vilã icônica que duas atrizes recusaram dublar
A antagonista, a polvo Ursula, é essencial para o sucesso de A Pequena Sereia, com suas insinuações sexuais e malícia, foi o papel ímpar para a atriz Pat Carroll cuja voz marcante é incomparável. E ela nem foi a primeira opção! Apenas quando Bea Arthur e depois Elaine Stritch recusaram a oportunidade que Pat entrou. O visual era uma mescla de Joan Collins e sua personagem de Dinasty e a drag queen Divine. Nem Queen Lattifah ou Melissa MacCarthy chegaram perto.
3- Jim Carrey fez teste para dublar Eric
O comediante Jim Carrey, que ainda não tinha explodido, foi um dos que gravou um teste para dublar o Príncipe Eric, mas o escolhido foi o desconhecido Christopher Daniel Barnes. Será que Carrey não teria inserido cacos e mudado a personalidade do herói? Jamais saberemos.
4- Titia Ursula?
Em Poor Unfortunate Souls, a bruxa do mar conta a Ariel uma versão deturpada de sua origem. Ursula alega que teria sido mal interpretada e por isso banida por Tritão. O que ela não contou, nem ficou na versão de 1989, é que ela irmã do Rei do Mar, ou seja, tia de Ariel! Mas essa versão foi excluída. Alguns acharam que a origem de Ursula ficou misteriosa, mas discordo. A versão final original é suficiente e perfeita.

5- Quando Howard Ashman ameaçou largar tudo
Hoje é impossível pensar em Ariel sem sua canção-assinatura, Part of Your World, mas se fosse seguir a vontade de Katzenberg, teria sido cortada do filme. O executiva achava que ela quebrava o ritmo. Para Howard Ashman era a canção principal de todo filme, a que a heroína revela seu sonho e entendemos o motivo de toda história. Ele bateu o pé, ameaçou largar tudo e fez ameaças. Katzemberg cedeu e hoje é um dos hinos de toda Disney. Valeu a treta!
6- A consagração no Oscar
Branca de Neve e os Sete Anões ganhou um Oscar especial, mas Walt Disney sempre sonhou com o reconhecimento da Academia. Ele viria depois com as indicações de A Bela e A Fera, mas, com A Pequena Sereia, abriu uma longa história de Melhores Canções para o estúdio. Recebeu três indicações ao Oscar e ganhou dois, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Canção Original, Under the Sea. A terceira indicação que perdeu? Melhor canção original por Kiss the Girl, ou seja, ganharam de qualquer jeito.
7- Não é lenda urbana: um ex-funcionário inseriu um pênis na capa do VHS
Hoje dizem que é mentira e que não há evidências, mas é verdade porque eu tive a fita VHS original e ela tinha SIM a imagem não apenas de um pênis, mas DOIS, no castelo ao fundo da capa. Dizem que o autor foi um funcionário demitido que se vingou pois sabia (e acertou) que demorariam para identificar. As fitas não vendidas foram recolhidas e o cartaz alterado. Mais uma treta de bastidores que gerou histórias inesquecíveis.
8- Um “filme de meninas” quebrando paradigmas
Quando A Pequena Sereia chegou aos cinemas, apenas no primeiro fim de semana nos Estados Unidos, arrecadou mais de 6 milhões de dólares, mas, ao longo do mês, juntou mais 84,4 milhões (apenas nos EUA).
Apesar de ter surfado no sucesso da obra, Jeffrey Katzenberg por muito tempo esteve com um pé atrás quanto ao projeto porque A Pequena Sereia era um “filme para meninas”. Errou. Em sua estreia não arrecadou 100 milhões de dólares, o que o colocaria na casa dos blockbusters, mas se tornou o filme de animação com maior bilheteria desde sua exibição inicial. Entre os dois relançamentos (A Pequena Sereia voltou aos cinemas em 1997), arrecadou uma bilheteria internacional total de US$ 235 milhões, sendo ainda hoje, um dos filmes mais queridos de todo público da Disney.

9- A Pequena Sereia provou que filmes animação fazem dinheiro
Depois de A Bela Adormecida, de 1959, a Disney esperou nada menos do que 30 anos para tentar a mão em outro conto de fadas, investindo mais em outras histórias originais e infantis. O receio de que histórias tradicionais de criança não fossem render (seriam “filmes de meninas”?) impedia o investimento, mas A Pequena Sereia mudou tudo. Seu sucesso foi fundamental para restabelecer a animação de longa-metragem como um empreendimento lucrativo para companhia e a Walt Disney Feature Animation foi expandida como consequência. Desde 2022, o filme foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso como sendo “culturalmente, historicamente ou esteticamente significativo”.
10- Ariel abriu caminho para A Bela e a Fera e a “fórmula Broadway”
Com o grande sucesso de A Pequena Sereia, a Disney investiu na proposta de Howard Ashman para adaptar a história de A Bela e A Fera como projeto seguinte, alcançando ainda maior sucesso e conseguindo a primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme, em 1991. Infelizmente, Ashman faleceu antes da festa, como consequência da HIV. É creditado à ele e à Pequena Sereia o uso da ‘fórmula Broadway’ nas animações, que, entre linhas gerais, inclui a ‘canção motivacional’ do herói, na qual no final do 1º ato explica o que ele busca (no caso de Ariel, querer ser humana, como explica em Part of Your World) e uma grande canção para ficar na memória do público no início do 3º ato, no caso da Seria, Kiss the Girl. A estrutura passou a ser a usada para todas animações, com grande sucesso, incluindo a produção dos musicais nos palcos da Broadway, com A Bela e a Fera e Rei Leão virando musicais clássicos e premiados. Sem Ariel, isso nunca teria acontecido…
Já estamos prontos para rever A Pequena Sereia mais uma vez?

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