Reescrevendo Karl Lagerfeld

Como publicado em CLAUDIA

Há muitas versões sobre quem era Karl Lagerfeld, ele mesmo apresentou várias e contraditórias enquanto esteve vivo, mas, apenas após a sua morte parece que a nova tendência passou a ser costurar ainda uma nova narrativa à sua trajetória. No auge, o autodenominado Kaiser (Imperador) da Moda, não era uma figura que fosse associada à sorrisos ou simpatia, sempre escondido atrás do leque ou dos óculos escuros, mas Becoming Karl Lagerfeld, a nova série da Star Plus, quer nos fazer repensar essa imagem.

Antes de entrar na série em si é importante ter em mente que o “verdadeiro” Kaiser deu inúmeras declarações polêmicas sobre peso, mulheres, imigrantes, vítimas de agressão sexual e até casamento gay. Daniel Brühl, que navega pelo Universo Marvel, Hollywood e filmes de Arte com a mesma elegância, desenvoltura e talento, está maravilhoso e sim, nos traz um Karl Lagerfeld taciturno, reativo, invejoso e ambicioso, que vive à sombra o genial Yves Saint-Laurent (Arnaud Valois) e se corrói por isso.

Para quem não é familiarizada com o mundo da Moda ou é jovem demais, pode ser que só associe Lagerfeld à sua gestão de mais de três décadas na Chanel, mas não veremos nada disso. Aqui vamos entender como os 11 anos anteriores à sua chegada à Chanel, em 1983, foram essenciais para sua transformação pessoal e profissional.

Uma adaptação do livro Kaiser Karl, de Raphaëlle Bacqué, lançado após a morte de Lagerfeld, em 2019, Becoming Karl Lagerfeld, tenta revelar a verdade entre tantas mentiras sobre o costureiro que começou a trabalhar em Paris, em 1954, sem treinamento formal. Lagerfeld entrou para a equipe de Pierre Balmain depois de vencer o prestigiado Prêmio Woolmark na categoria de casacos e, ao longo dos anos, ganhou fama de “mercenário” por entregar coleções para várias Casas de pret à porter sem exclusividade.

Quando começamos a série, Karl Lagerfeld trabalha na Chloé, e sua fundadora, Gaby Aghion (Agnès Jaoui), foi a primeira a identificar e apostar em seu talento, numa parceria que começou em 1966 e foi até o início dos anos 1980s. Gaby é uma das figuras femininas mais significativas na vida do alemão, que tem uma amizade e confiança extrema com sua mãe, Elisabeth (Liza Krauser), a maior confidente e incentivadora. As duas são, de alguma forma, o escudo de Karl em meio à uma Paris em festa e “moralmente decadente”, onde ele ainda era um designer de prêt-à-porter de pouca fama.

Usando a fórmula de alfinetadas de rivais na costura que vimos em Cristóbal (sobre Cristóbal Balenciaga, que tinha problemas com Christian Dior e que também está disponível na Star Plus), ou The New Look, da Apple TV Plus, que colocou Coco Chanel contra Dior, ou até mesmo Halston, da Netflix, que mostrou o americano brigando com o mercado financeiro, Becoming Karl Lagerfeld é sobre como Lagerfeld e Saint Laurent eram quase opostos – Saint Laurent como prodígio sonhador e lendário, enquanto Lagerfeld é ralador sem rótulo ou estética própria – mas se apaixonaram pelo mesmo homem, com consequências trágicas para a Moda e eles.

Ao evitar ficar na passarela e escolher as brigas motivadas por ego, esse triângulo amoroso tóxico coloca o jovem Jacques de Bascher (Théodore Pellerin), um dândi ambicioso e sedutor, no vértice do drama. E se Lagerfeld era complexo, Bascher facilmente era mal visto.

No filme Yves Saint Laurent, de 2014, Jacques é o grande antagonista, enquanto o parceiro e empresário de Saint Laurent, Pierre Bergé (Alex Lutz), é uma figura mais carinhosa. Em Becoming Karl Lagerfeld Bergé é o antagonista, algo que já demonstra o quanto a proposta da série é reescrever o legado de Lagerfeld. Bergé é mostrado como um homem controlador, até agressivo, provavelmente enciumado pelo o quanto Saint Laurent fica obcecado com Bascher. Por muitos anos, Bergé alimentou o mito de que Lagerfeld teria plantado o dândi na vida do rival apenas para destruí-lo. Aqui, é a Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade: Yves que amava Jacques que amava Karl que não amava ninguém.

O ator canadense Théodore Pellerin, que também teve destaque na série Franklin (da Apple TV Plus), traz uma empatia inesperada à vida inconsequente de Jacques, numa proposta infinitamente mais simpática do que as que marcaram a biografia dele até então. Apesar das características negativas de Lagerfeld são amenizadas (ele até aparece devorando doces e usando espartilho para caracterizar sua luta contra a balança), a série sugere sim que que ele manipulava as pessoas ao seu redor, num jogo bem nocivo e abusivo.

Jacques de Bascher, que morreu aos 38 anos em decorrência da AIDS, no final dos anos 1980s, foi parceiro de Karl Lagerfeld por quase duas décadas, e sempre é apontado como o catalizador para o declínio de Saint Laurent no mundo das drogas. Há mais de uma biografia sobre ele, mas apenas a de 2017, com depoimentos de Lagerfeld, foi a aprovada pelo Kaiser e parte dessa narrativa está em Becoming Karl Lagerfeld.

É frustrante que a série acabe no susto, no 6º episódio, justamente quando veríamos Largerfeld na Chanel, mas ali ele já estava transformado. Outra vantagem de Becoming Karl Largefeld é passear pela vida noturna gay parisiense, com os restaurantes e baladas clássicas, algumas delas fechadas e outras ainda funcionando. Além disso, reencontramos Paloma Picasso (Jeanne Damas), filha do pintor espanhol e na época a musa tanto de Lagerfeld como de Saint Laurent.

A figurinista Pascaline Chavanne teve acesso ao arquivo da Chloé para recriar o icônico desfile de 1973, que simbolizou a diferença da compreensão de Lagerfeld pelo pop, criando o polo oposto da sofisticação burguesa da clientela de Saint Laurent, que só consumia alta costura. No final das contas, foram mais de três mil figurinos que nos ajudam a viajar no tempo (sim, a trilha sonora também é espetacular).

Considerando que Becoming Karl Lagerfeld é pelo menos a quarta série sobre o universo Fashion nos últimos 4 anos, e The New Look foi (a meu ver), bem falha, vale destacar que a nova série é cuidadosa com a reconstituição de época e traz grandes atuações. Com a ressalva de estar omitindo as partes menos legais de seu protagonista, vale lembrar o que Daniel Brühl, que conheceu Karl Lagerfeld e que se sentiu inseguro para interpretá-lo disse em uma entrevista: “Lagerfeld inventou muitas versões diferentes de sua vida, o que eu achei cativante. Gosto de pessoas que são impostoras”. A série nos alimenta mais uma versão dessa ficção.


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