Como Francis Bacon Influenciou o Coringa de Heath Ledger

Uma unanimidade que só foi fortalecida ao longo dos anos foi a de que Heath Ledger entregou o Coringa mais icônico da história do Batman. Dos 17 atores que estão ligados ao antagonista, seja em games, TV, animação ou cinema, os nomes mais comparados são os de Jack Nicholson, César Romero, Mark Hamill, Jared Leto e Joaquin Phoenix, entre outros, mas até Barry Keoghan entrar em foco (só vimos alguns frames seus no final de Batman 2022), ninguém questiona o fato de que Heath foi empático, assustador e inesquecível em The Dark Knight (2008).

A atuação teria rendido o Oscar, que ele recebeu póstumo, em vida. Ninguém duvida e foi tão impressionante que até hoje há quem associe a trágica e inesperada morte do ator ao papel. Nada a ver, precisamos ressaltar.

O fato de que em 2019 Joaquin ganhou o seu Oscar de Melhor Ator justamente como Coringa, gerou uma espécie de discussão/ competição entre as interpretações dos dois, o que ganhou novo fôlego, tortuosamente, com o escandaloso fracasso de Joker: Follie à Deux.

Muitos, impressionados com Joaquin, igualmente merecedor dos elogios e prêmios que recebeu pelo papel, consideraram que ele se espelhou em Heath Ledger para dar uma nova versão do antagonista mais popular da franquia do Batman, mas a surpresa é que segundo o ator, ele modelou seu Coringa a partir do que viu do ator, Ray Bolger, mais conhecido pelo público como o Espantalho em O Mágico de Oz. “Há essa arrogância estranha quase em seus movimentos e, realmente, eu roubei completamente dele”, ele disse em 2019 à AP. “Ele faz essa coisa de levantar o queixo”, continuou, “Foi provavelmente a maior influência.”

Diante disso, essa semana vários sites e jornais repercutiram a informação do diretor Christopher Nolan que explicou que o Coringa de Heath Ledger nasceu das pinceladas de ninguém menos que polêmico pintor Francis Bacon. E realmente, é uma informação fascinante.

Bacon e os traços da figura humana

Francis Bacon foi um dos pintores mais relevantes do século 20 e seus quadros são elogiados tanto por serem “bizarros” como “icônicos”, criando imagens inesquecíveis sobre as dores e traumas humanos na arte do pós-guerra.



Nascido em Dublin (e com o nome de seu ancestral homônimo), ele teve uma infância turbulenta por conta da guerra entre Irlanda e Inglaterra. Sua homossexualidade também atraiu abusos e repressões (ele foi chicoteado pelo pai) e foi expulso de casa quando o pai o flagrou experimentando as roupas de sua mãe. Ele tinha apenas 17 anos.

Sobrevivendo com pouco, viajou pela Europa e depois de voltar para casa, passou a pintar.

Seu estilo autoditada era uma mescla de surrealismo vindas de fotos, quadros e filmes, por isso, completamente original. Seus retratos, imortalizando figuras que via em bares e ruas do Soho, em Londres, eram violentamente distorcidos. Pareciam carnes cruas, sofrendo, isoladas em estruturas geométricas, monstruosas e atormentadas. Suas pinceladas violentas contrastavam com seus contemporâneos e a paixão pelo abstrato.

O inconformismo e rebeldia

As imagens que impactaram Christopher Nolan vêm do período pós guerra, com imagens de pessoas contorcidas, sofrendo com o impacto do conflito bélico que envolveu o mundo. Em especial seus famosos trípticos, atualmente as peças mais caras do mundo (em 2020 bateu recordes em leilões com valores acima de 100 milhões de reais).

“As feições pálidas e listradas me agarraram e nunca mais me soltaram, enfeitando várias paredes em diferentes apartamentos até virar uma bagunça esfarrapada. Anos depois, mostrei a imagem para Heath Ledger enquanto ele se preparava para interpretar o Coringa em Batman: O Cavaleiro das Trevas, e ele imediatamente se interessou por sua humanidade torturada e torturante. Ela informou a composição do personagem da maneira mais tátil possível,” ele revelou ao The Guardian, antecipando a exposição da National Portrait Gallery, Francis Bacon: Human Presence.

Segundo o diretor, o que o ator conseguiu no filme foi transformar Coringa em “um Bacon em carne e osso”. A conexão só confirma a genialidade de Nolan, um dos maiores diretores autorais da atualidade. Ele considera ter aprendido com Francis Bacon que o poder da Arte está justamente nas distorções físicas e temporais e que juntas, despertam emoção no público.

“Talvez seja por isso que vejo Bacon como cinematográfico — distorções da matéria e do tempo evoluem do óleo e da tela em si”, disse ele ao jornal inglês que compara a trilogia do diretor aos trípticos e o estudo da ascensão de um herói, a luta entre o bem e o mal e o legado final do Batman. Todos recheados com personagens e imagens sofridas. A Arte mais verdadeira em sua essência.


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