The Last of Us: Entre Vingança e Sobrevivência

Ainda mantenho que The Last of Us será uma grande série, mas não necessariamente alcançará o patamar de “fenômeno”. Não tem a ver com a saída de Pedro Pascal, embora seja sentida. Nem mesmo tem a ver com a falta de unanimidade em torno de Bella Ramsey. Tem tudo a ver com a distopia de uma sociedade destruída pelo incurável fungo Cordyceps ser uma história de vingança. Mesmo com toda profundidade da proposta, não é inovadora. Ao mesmo tempo, o episódio 4 da segunda temprada é tão perfeito que nos devolve a vontade de seguir acompanhando a história.

Ellie (Ramsey) está atrás da pessoa que assassinou brutalmente Joel (Pascal), a agora sumida Abby (Kaitlyn Dever). Esse reencontro demorará para acontecer e no meio da trajetória vamos esbarrar com outras histórias medonhas, como a de Isaac (Jeffrey Wright), o líder do W.L.F. – Washington Liberation Front – ou os Lobos.

Ter um grande ator como Wright em destaque é uma grande adição para a série. Sua entrada poderosa no início do episódio, em um flashback de 11 anos antes, é assustador e impactante, mas ainda não 100% esclarecido.

Se você esqueceu, Joel explicou à Ellie na 1ª temporada que pior do que os infectados, o mundo exterior está sofrendo porque há uma guerra brutal entre os sobreviventes, divididos em facções e radicais, rendendo cenas muito fortes e devastadoras. Isaac é um dos piores antagonistas nesse cenário e temos que preparar o estômago para isso.

Deixamos Ellie e Dina (Isabella Merced) desavisadas que os Lobos não são em pequeno número e estão marchando por Seattle para algum embate. Mas em vez de voltar para esse problema, abrimos o episódio na zona de quarentena da cidade em 2018, 11 anos antes da linha temporal atual da série. Nos deparamos com soldados da FEDRA trocando histórias “engraçadas” de ataques à cidadãos, chamados de eleitores. Eles estão se preparando para mais uma missão e quando um pergunta como surgiu o nome “eleitores”, ouvimos Isaac cortar o clima explicando que a ironia do nome é porque justamente a FEDRA tirou os direitos fundamentais de escolha da sociedade. Ninguém vota mais.

Em seguida, vemos que Isaac foi um sargento da FEDRA mas que descontente, se virou contra a organização: mata todos os soldados e cria a W.L.F. A partir daí, os Lobos terão muitos “inimigos”, sendo que os atuais são os Seraphites, aqueles carecas com cicatrizes que vimos sendo dizimados no terceiro episódio. Ou seja, em 11 anos, os Lobos se tornaram ainda mais opressores do que a FEDRA e Isaac é o líder implacável desse movimento. Ele tortura um prisioneiro e vemos que os Seraphites são radicais “religiosos” e nem a dor física os assusta.

Logo voltamos para Ellie e Dina, mas fiquem com o alarme ligado: até encontrar Abby, essa luta existencial de radicais vai trazer problemas, dores e drama.

As sequências que alavancam o relacionamento entre as duas jovens e o romance que trará a docilidade para Ellie são tiradas do jogo, por isso eram esperadas e não desapontam. Especialmente a sequência na qual ela encontra um violão e canta Take On Me, do grupo A-ha. Vamos mencionar que quando diz que descobriu essas músicas pop dos anos 80 com Joel, fico me perguntando como ele – fã de Pearl Jam – ouviria A-ha, mas como essa é uma canção representativa da década não insisto em questionar seu gosto musical.

A cena é linda e emocionante, como esperado. Dina e Ellie, que nasceram e cresceram em um mundo destruído, não têm idéia do que era o mundo décadas antes, ao ponto de que Dina jamais ter escutado Take On Me antes. As duas são tão sem bagagem que nem sabem que a bandeira do Arco-Íris era do movimento LGBQ+. Essa conexão romântica não é completada na serenata, e os momentos interrompidos das duas escapando de uma multidão de infectados é tensa e apavorante.

Para surpresa de Dina, parte da coragem de Ellie é porque ela finalmente tem que revelar, depois de ser mordida, que é imune ao Cordyceps. Em resposta, depois de beijarem e passarem a noite juntas, Dina revela que está grávida de Jesse, mas imediatamente é Ellie que celebra que será “pai”. E, claro, se preocupa com Dina seguindo na busca por Abby, que é obviamente perigosa. Dina não recua: vão encontrá-las juntas.

Enquanto o paradeiro de Abby segue um mistério e os Lobos se mostram apavorantes, é Isabela Merced que vem se destacando para trazer química, simpatia e talento no difícil vácuo da ausência de Pedro Pascal. Ele ainda terá seu flashback ansiado (cantando Future Days) e a história ainda está engatinhando.

Com todos esses elementos — dor, memória, afeto, trauma e sobrevivência — The Last of Us segue costurando uma narrativa que, embora não rompa com certas convenções do gênero pós-apocalíptico, sabe exatamente onde encontrar humanidade dentro da barbárie. Não é sobre inovar o enredo, mas sobre executar com precisão emocional, sensibilidade e intensidade. O episódio 4 é prova disso: funciona quase como um lembrete do potencial da série, equilibrando ação e intimidade com uma destreza rara. Se ainda não é um fenômeno, é porque talvez seu apelo não seja universal — mas para quem acompanha, é uma experiência profundamente imersiva. E isso, por si só, já é um feito notável.


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