Em julho de 2020, em plena pandemia, quando o mundo real parecia ter encolhido ao tamanho de um cômodo e tudo o que nos restava era alguma forma de fugir para longe sem sair de casa, The Old Guard apareceu na Netflix com ares de blockbuster legítimo. Era o que se chamava de “conteúdo-evento” em tempos de confinamento: tinha Charlize Theron, locações internacionais, pancadaria estilizada e uma mitologia complexa o suficiente para nos distrair das estatísticas do vírus. Mesmo dentro da leva de filmes apressados da Netflix, o primeiro Old Guard parecia um pouco mais robusto, mais coeso, mais pronto — ou pelo menos pronto o suficiente para nos seduzir naquele vácuo emocional. Escapismo era o nome do jogo, e funcionou.

Mas hoje, quatro anos depois, com cinemas reabertos, a vida girando quase como antes, e os espectadores mais impacientes do que nunca, The Old Guard 2 chega tarde, enfraquecido e — o mais grave — irrelevante. E isso levanta uma pergunta que talvez extrapole o próprio filme: será que aquele tipo de fantasia grandiosa, com mundos paralelos e imortais em guerra secreta, só funcionava tão bem porque estávamos desesperados por algo que não se parecesse nem remotamente com a realidade? Será que, agora que voltamos a lidar com contas, trânsito, boletos e eleições, esse tipo de fantasia perdeu a força?
A sequência, enfim lançada após um processo de produção tumultuado iniciado em 2022, parece saber que o tempo passou. O filme se arrasta tentando nos lembrar do que foi o primeiro — e quando um estúdio precisa colocar seus astros para recapitular o capítulo anterior como forma de marketing, já dá pra sentir o cheiro do desespero criativo. Pior: o universo da franquia, baseado nos quadrinhos de Greg Rucka, não é exatamente acessível. Sua mitologia convoluta exige que a gente pare, leia uma sinopse antiga ou volte ao Wikipedia só pra entender quem é quem e por que, mesmo, estamos assistindo isso. Dá trabalho. E fantasia que dá trabalho, em pleno 2025, precisa ser muito boa para valer o esforço.
Infelizmente, The Old Guard 2 não é. O que deveria ser um filme de ação vibrante e escapista vira um emaranhado de tramas mal amarradas, subtramas que evaporam, personagens que não convencem e sequências de ação que não têm metade da potência do original — em parte pela troca da diretora Gina Prince-Bythewood por Victoria Mahoney, que claramente tem outro tipo de abordagem, menos fluida e mais genérica.
A única fagulha de energia vem de Charlize Theron, que continua sendo uma estrela magnética mesmo quando o material não faz jus ao seu talento. Ela interpreta Andy, que no primeiro filme havia perdido a imortalidade, o que teoricamente adicionaria uma camada de urgência a cada cena de luta. Mas, na prática, isso nunca se traduz em tensão real. A ameaça, como quase tudo aqui, fica no plano das ideias. Uma antiga companheira (Ngô Thanh Vân) retorna após séculos de punição, se junta a uma imortal que odeia a humanidade (Uma Thurman), e o grupo liderado por Andy precisa intervir. É o tipo de trama que poderia render muito, mas que aqui parece esboçada às pressas num guardanapo de restaurante.

E se o primeiro filme surpreendeu ao trazer um romance queer entre dois imortais com direito a beijo apaixonado em cena de ação, o segundo recua de forma quase cínica. Os mesmos personagens agora mal se tocam. A “representatividade” vira uma lembrança protocolar, e a relação entre Andy e sua ex-companheira — que nos quadrinhos é claramente romântica — é diluída em um vago “parceria de longa data”. O timing não poderia ser mais irônico: lançado logo após o fim do mês do orgulho, o filme parece ansioso para desdizer qualquer ousadia do passado.
A duração enxuta (menos de 97 minutos sem os créditos) deveria ser um alívio, mas acaba soando como correria. O filme parece ter sido montado num estado de pânico, com um terceiro ato que não resolve quase nada e deixa um gancho tão aberto que beira a falta de respeito com quem assistiu. Charlize Theron, Uma Thurman e até Chiwetel Ejiofor mereciam coisa melhor do que esse esboço de filme. A promessa de que haverá um The Old Guard 3 sequer foi oficializada, e sinceramente, talvez seja melhor que não venha. Do jeito que está, o projeto flerta com o mesmo destino da saga Divergente, que acabou sem fim e com gosto de oportunidade desperdiçada.

No fim das contas, o que mais me pegou em The Old Guard 2 não foi só o roteiro fraco, ou a direção sem pulso, ou a preguiça com que trataram personagens que antes tinham carisma e presença. Foi a constatação de que talvez esse tipo de escapismo — fantasia épica disfarçada de ação moderna — tenha atingido seu ápice quando o mundo real estava insuportável demais. Na pandemia, queríamos mundos impossíveis porque o nosso era insuportavelmente possível. Agora, com a realidade reequilibrada, esse tipo de universo parece menos urgente, menos reconfortante. Só artificial mesmo.
E isso, ironicamente, é mais trágico do que qualquer morte em cena. Porque mostra que o tempo passou. E que nem mesmo os imortais são à prova dele.
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