Como a Moda Define Personagens em The Gilded Age

A Nova York da década de 1880, conhecida como Era Dourada, não era apenas um espaço de crescimento econômico vertiginoso, mas um palco de disputas sociais travadas em salões, jantares e passeios públicos. O dinheiro — especialmente o dinheiro novo — precisava ser traduzido em símbolos tangíveis. E nenhum símbolo falava mais alto do que a roupa.

Em The Gilded Age, série criada por Julian Fellowes, essa compreensão não é apenas pano de fundo: é motor narrativo. O figurino, longe de ser mero detalhe estético, atua como código visual, como arma e como confissão silenciosa. Essa construção é fruto da direção meticulosa de Kasia Walicka-Maimone, figurinista que entende que cada costura, cada cor e cada dobra de tecido carregam um significado que ultrapassa a superfície.

Roupas como narrativa

Walicka-Maimone não se limita a recriar o período com fidelidade documental. Seu trabalho parte de um conhecimento profundo da moda oitocentista, mas também se permite operar como linguagem dramática, adaptando e interpretando para que cada personagem seja imediatamente legível ao espectador moderno.

Gladys Russell, por exemplo, filha de magnatas recém-aceitos (ou quase) nos círculos sociais da elite antiga, raramente aparece com tons discretos. Suas roupas refletem juventude, mas também funcionam como declarações de status — muito mais ousadas e cromaticamente saturadas do que o recato “aceitável” das velhas famílias nova-iorquinas. Marian Brook, em contrapartida, encarna uma feminilidade romântica e quase ingênua, marcada por tecidos mais leves e cortes menos rígidos. Bertha Russell é talvez o exemplo máximo de como a roupa se torna personagem: a cada aparição, seu figurino é uma armadura social, projetada para impor respeito e atrair atenção.

O diálogo com a moda histórica

A base estética da série se ancora no rigor visual da década de 1880. Esse período foi marcado pela popularização do bustle — a anquinha estruturada que projetava a saia para trás, criando um perfil arqueado — e pela preferência por tecidos pesados, texturas ricas e cores vibrantes, favorecidas pelo avanço dos corantes sintéticos.

Entre as peças históricas que iluminam esse período, poucas são tão emblemáticas quanto o vestido de jantar criado por Charles Frederick Worth em 1883, hoje preservado no Kyoto Costume Institute. Worth, considerado o pai da alta-costura, sintetizava como ninguém o casamento entre arquitetura têxtil e exuberância decorativa.

Esse vestido, feito em seda e veludo vermelho profundo, apresenta gola alta de tule, corpete alongado em ponta (basque waistline) e uma anquinha elaborada com cauda pregueada. A sobressaia drapeada no estilo “avental” é puro statement visual, equilibrando a rigidez estrutural com fluidez ornamental. Ele condensa as principais tendências da moda da década de 1880:

  • Arquitetura rígida: sustentada por armações internas, modelando o corpo de acordo com os ideais da época.
  • Contrastes de textura: o diálogo entre o brilho da seda e a opacidade do veludo cria camadas visuais que só funcionam em proximidade.
  • Cores saturadas: possibilitadas por corantes artificiais, que revolucionaram a intensidade e durabilidade dos tons.

A obra de Walicka-Maimone dialoga diretamente com esse tipo de referência. Ela não copia o vestido de Worth, mas incorpora seu vocabulário — a escultura do corpo, a teatralidade das caudas, o contraste calculado de tecidos — e o traduz em algo narrativamente funcional.

A moda como arma social

Na Era Dourada, os salões eram campos de batalha silenciosos. Quem sabia ler moda podia prever movimentos políticos e alianças sociais. Bertha Russell entende isso como poucos. Em cenas cruciais, sua roupa não apenas acompanha sua trajetória, mas a anuncia: cores quentes quando está no auge da autoconfiança; detalhes de inspiração francesa quando quer reafirmar sua modernidade; volumes dramáticos quando precisa ocupar espaço — literal e simbolicamente.

Essa lógica não é apenas visual, mas dramatúrgica. Cada figurino é construído para “falar” antes que a personagem abra a boca. Isso exige de Walicka-Maimone uma pesquisa quase arqueológica, mas também uma liberdade de adaptação que transforma roupas de época em ferramentas narrativas para o século XXI.

Tradução dramática para o público moderno

Há um risco ao lidar com figurinos históricos: torná-los belos, porém distantes, quase peças de museu que não dialogam com o espectador contemporâneo. The Gilded Age evita essa armadilha ao injetar nas roupas uma intencionalidade dramática que ultrapassa a mera reconstituição.

Um vestido pode parecer impecavelmente autêntico, mas a saturação de cor é ligeiramente acentuada para se destacar na tela. O caimento é adaptado para valorizar a iluminação e o movimento dos atores. Bordados e rendas, por vezes, são ampliados para se tornarem legíveis mesmo em planos abertos. É uma tradução, não uma réplica.

Assim, quando uma personagem cruza um salão, o espectador não apenas vê um traje do século XIX — ele entende, ainda que inconscientemente, o que aquela roupa quer dizer sobre poder, fragilidade, desejo ou rebeldia.

Referências que contam histórias

O vestido de Worth de 1883 é um exemplo pontual, mas ele nos ajuda a entender o processo mais amplo de Walicka-Maimone. Ela bebe em fontes como:

  • Revistas de moda oitocentistas (Harper’s Bazaar, Godey’s Lady’s Book), para captar não apenas as tendências, mas o vocabulário descritivo da época.
  • Pinturas e retratos fotográficos, que revelam como as roupas se comportavam no corpo real, e não apenas nos croquis.
  • Acervos de museus (Metropolitan Museum, V&A, Kyoto Costume Institute), onde é possível observar costuras, forros e acabamentos invisíveis em fotografias.

Essa base sólida de pesquisa permite que cada figurino tenha densidade histórica, mas também liberdade criativa.

O impacto na percepção da série

O figurino de The Gilded Age é tão central à narrativa que influencia a própria recepção da série. A crítica especializada frequentemente destaca como a opulência visual é parte do apelo — mas essa opulência não é vazia. É cuidadosamente dosada para servir ao enredo.

Se, em uma cena, Marian usa tons pálidos, isso não é apenas estética: é uma extensão de sua posição intermediária entre o mundo da tradição e o da modernidade. Se Peggy Scott aparece com tecidos mais estruturados e cores sóbrias, isso não é só um reflexo de sua condição social, mas também de sua postura firme e consciente diante das barreiras raciais e de classe.

Moda como dramaturgia silenciosa

Em The Gilded Age, a moda não é figurante — é protagonista. Os vestidos e ternos não apenas revestem os personagens, mas os constroem, os anunciam e, por vezes, os traem.

O vestido de Worth, com sua estrutura imponente e seu drama visual, poderia perfeitamente entrar em cena ao lado de Bertha Russell. Mas o que Walicka-Maimone faz é ainda mais complexo: ela pega a essência desse luxo arquitetônico e o transforma em algo vivo, que respira com a narrativa, que se move com a trama e que dialoga com um público que, embora esteja a 140 anos de distância, ainda entende que a roupa pode ser a mais eloquente das falas.

Na Era Dourada, vestir-se era posicionar-se. Em The Gilded Age, é atuar.



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