Olivia Cooke fala sobre a nova fase de House of the Dragon

Olivia Cooke não costuma dar spoilers — mas, quando abre frestas, elas iluminam a rota emocional de House of the Dragon. Em suas entrevistas mais recentes, ela crava o que, para mim, é a chave da terceira temporada: o pacto improvável entre Alicent e Rhaenyra. “Alicent fez um acordo no final da 2ª temporada, então ela está desesperadamente tentando colocar isso em prática”, disse, com a serenidade de quem sabe que essa promessa rompe a lógica de guerra que as engolfa. A frase parece simples; o que ela carrega, não. Alicent — a jovem que um dia foi sinônimo de dever e silêncio — agora precisa sustentar uma promessa feita à rival, com tudo o que isso implica em risco, culpa e consequências.

E há o outro polo, a maquinaria épica. Cooke descreve a 3ª temporada com uma alegria assustada: “Meu Deus, vai ser enorme, a temporada 3 é enorme… realmente amplificaram tudo nesta temporada e há muitos novos personagens. É fantástica. Cada centavo foi colocado na tela.” Em outra conversa, ela completa que está animada para o making of: Ryan Condal, o showrunner, vive lhe mostrando “um pedaço aqui, outro ali” das cenas de dublês — “é insano, é incrível”. Traduzindo: a produção tirou o pé do freio e apostou alto em escala, efeitos práticos e um elenco expandido. (Ela mesma comentou que, quando falou isso, faltava “um mês e meio” de filmagem — a respiração ainda ofegante do set grudada na voz.)

Essa grandiosidade, no entanto, não apaga o que me parece mais instigante: a série continua a deslocar, com intenção, o que George R.R. Martin escreveu em Fogo & Sangue. O gesto de paz possível entre Alicent e Rhaenyra — frágil, tenso, mas real — não existe no livro. E Cooke insiste no peso disso. Se Emma D’Arcy já conquistou cenas de ação e negociação que o material original não previa, eu, confesso, vivo com o meu “medo profissional” de que pedidos do elenco — legítimos, humanos, compreensíveis — acabem alterando o balé trágico de forma mais estrutural do que o necessário. É o eterno jogo entre criação colaborativa e fidelidade ao arco dramático. Quando funciona, ganhamos complexidade; quando não, a narrativa sente o tropeço.

É nesse jogo que a Olivia também brilha fora das telas. No Tonight Show Starring Jimmy Fallon, ela foi luz e ironia. Admitiu muita pressão com a nova temporada e, ao mesmo tempo, brincou com a fantasia coletiva: quer “montar um dragão como um bronco indomável” — “ride a dragon like a bucking bronco”. Fallon entrou na onda, mas ela mesma riu: “não é a minha personagem”. E prometeu, meio sério, meio brincando, que um dia ainda vai pedir para fazer “só por diversão”. A provocação conversa com a memória da primeira cena da primeira temporada, quando Rhaenyra a convida para um passeio de dragão e Alicent confessa ter medo. Desde então, a imagem de Alicent voando virou um fantasma simbólico: não porque vá acontecer, mas porque diz muito sobre o que não lhe foi permitido viver.

Os bastidores também têm seu sabor agridoce. Olivia conta que deu um tapa de verdade em Tom Glynn-Carney (o Aegon, seu filho na série): “Ele disse: ‘Faça de verdade!’ Eu não tinha certeza, o coordenador de dublês disse que estava tudo bem se ele quisesse… e, então, eu acertei com força!” É uma anedota pequena que revela muito: a entrega física do elenco, a confiança entre parceiros de cena e a intensidade quase brutal das filmagens. No mesmo registro íntimo, há o retrato da mãe: a maior torcedora, que não vai ao set, mas reina nas premières e nos bares; à meia-noite, encostada num canto com um chicken tender numa mão e uma margarita na outra, proclamando: “Esta é a minha noite”. Entre tapas de verdade e margaritas, o mito se humaniza.

E, para além das risadas, há a memória do começo: Cooke lembrou que foi em 2020, no confinamento, depois de meses de audições, que recebeu a ligação que mudaria sua vida. Telefone plugado na tomada, agentes eufóricos, e ela, honesta, sentindo uma “dor imediata” — o peso do que viria. “Parecia um trabalho gigantesco.” Hoje, com a série adulta e no olho do furacão, ela consegue rir da própria ansiedade — sem perdê-la, porque é dela que nasce a Alicent que reconhecemos.

Há também um toque ibérico que, confesso, eu adoro pelo exagero bem-humorado: “lo que el mundo entero está esperando” — a nova temporada — “va a hacer volar muchas cabezas (literal y figurativamente)”. É a hipérbole certa para um drama que faz da metáfora um anúncio: cabeças vão rolar, sim, mas o que me interessa são as cabeças que mudam de lugar por dentro. O pacto de Alicent e Rhaenyra, sendo ou não cumprido, já deslocou a percepção de quem é quem nesse xadrez. Quando uma mulher decide honrar uma promessa — e o mundo ao redor exige que ela a traia —, qualquer movimento será cobrado com juros.

No meio disso tudo, a piada do dragão retorna como um refrão: é engraçado imaginar Alicent voando; é triste lembrar por que ela não voa. E é aqui que eu, como espectadora, guardo meu cuidado: a expansão dos papéis femininos na série tem sido uma conquista — Emma D’Arcy abrindo espaço para a fisicalidade de Rhaenyra, Cooke cavando a zona cinzenta da culpa e do afeto em Alicent. Só peço que, ao ouvir os desejos do elenco (justos, legítimos), a escrita não perca a ironia cruel que faz House of the Dragon ser mais do que um desfile épico: a ironia de escolhas que parecem libertar e, no fundo, apertam mais o laço.

Se a 3ª temporada é “enorme” e “cada centavo está na tela”, como garante Olivia, que seja também enorme por dentro. Que o pacto impossível entre duas mulheres — tão parecido com a vida e tão diferente do livro — continue a ser o fio de alta tensão que faz a série vibrar. Entre a fanfarra dos dragões e o sussurro de uma promessa, é ali, no intervalo onde vivem a culpa e a coragem, que House of the Dragon encontra o seu verdadeiro fogo.


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