OnlyFans: dinheiro, desejo e o que séries já entenderam

Redes sociais nasceram com a promessa de conexão, mas rapidamente se transformaram em outra coisa. Ao transformar atenção em moeda, criaram um sistema em que a visibilidade passou a ter valor econômico. O OnlyFans é o desdobramento mais direto dessa lógica.

Números ajudam a entender o interesse: com cerca de 377 milhões de usuários registrados e mais de 4 milhões de criadores ativos, o OnlyFans não depende de audiência massiva para funcionar, mas sim de relações mais intensas e financeiramente comprometidas. Um número pequeno de assinantes pode gerar renda significativa, o que torna a plataforma especialmente atraente para quem consegue construir um público fiel.

É justamente essa combinação — escala global com monetização individual direta — que explica por que o OnlyFans saiu do campo da curiosidade e passou a ocupar um espaço central tanto na economia digital quanto na cultura contemporânea. Não por acaso, duas séries recentes, em plataformas diferentes, passam a orbitar esse mesmo universo: Margo’s Got Money Troubles e Euphoria.

Como tudo começou

Criado em 2016, o OnlyFans parte de uma ideia simples, quase primitiva na sua lógica econômica. Criadores produzem conteúdo, usuários pagam para acessar, e a plataforma funciona como intermediária técnica, retendo uma parte da receita. A promessa é direta, sedutora e, para muitos, transformadora: autonomia financeira, controle sobre a própria imagem, ausência de mediação institucional. Não há estúdio, não há revista, não há produtor. Há apenas o indivíduo e o público.

Essa estrutura, por si só, não explica o fenômeno. O que a explica é a maneira como ela encontrou um terreno já preparado por anos de redes sociais, algoritmos e exposição constante. O OnlyFans não inventa a lógica da performance, mas a intensifica. Ele não cria a ideia de monetizar a imagem, mas a radicaliza ao colocá-la em um espaço onde intimidade e consumo deixam de ser categorias separadas.

Plataforma como linguagem e conteúdo adulto

Embora não tenha sido criada como uma plataforma exclusivamente voltada para conteúdo adulto, o Onlyfans, hoje, se consolidou como o principal espaço de monetização direta para esse mercado. A proposta original era mais ampla, semelhante ao que hoje vemos em serviços de assinatura como Patreon ou até em recursos pagos dentro do Instagram. Criadores poderiam cobrar por qualquer tipo de conteúdo: fitness, música, bastidores, aulas, lifestyle. Mas o que aconteceu, na prática, foi outra coisa.

E isso não foi um acidente. Foi resultado de três fatores que se encontraram no momento certo: a ausência de censura rígida como em outras redes, a possibilidade de pagamento direto sem intermediários tradicionais da indústria pornográfica e uma cultura digital já acostumada a consumir intimidade como entretenimento.

A partir daí, a associação se tornou inevitável.

Hoje, quando se fala em OnlyFans, o imaginário coletivo aponta quase automaticamente para sexo e pornografia, mesmo que existam criadores em outras áreas. É uma espécie de atalho cultural. Não descreve tudo o que a plataforma é, mas descreve com precisão aquilo que ela representa no debate público.

E é essa ambiguidade que o torna tão potente narrativamente, seja em séries como Margo’s Got Money Problems, seja no universo mais difuso e emocional de Euphoria.

Realidades diferentes, críticas semelhantes

É verdade também que OnlyFans não é mais apenas um espaço onde se ganha dinheiro. É um espaço onde se constrói identidade. E, como toda construção identitária mediada por público, ele depende de negociação constante entre o que se quer mostrar e o que se espera que seja mostrado.

Em Margo’s Got Money Problems, o OnlyFans não surge como provocação, mas como solução para Margo. A personagem central interpretada por Elle Fanning não entra na plataforma por transgressão, mas por necessidade. E esse deslocamento é fundamental. A série não está interessada no choque moral, mas na consequência prática. O dinheiro chega, e com ele vem algo que parece, à primeira vista, libertador. Mas essa libertação é imediatamente atravessada por novas formas de dependência, agora mediadas pelo olhar do outro, pelo engajamento, pela lógica de assinatura que exige constância, exposição e adaptação.

O que a série capta com precisão é que o OnlyFans não oferece apenas renda. Ele exige uma performance contínua de si mesmo. E essa performance, embora controlada em teoria, passa a ser moldada por expectativas externas que não podem ser ignoradas sem custo.

Já em Euphoria, o movimento da personagem Cassie, vivida por Sydney Sweeney, é motivado para alcançar uma independência financeira, ou assim ela diz. Na série que, desde o início, constrói um universo onde os corpos são linguagem e onde a exposição não é exceção, o OnlyFans faz todo sentido. Ele transforma em transação aquilo que já era performance. Ele dá preço ao que antes era apenas visível.

As críticas à Euphoria

Ao transformar a personagem em criadora de conteúdo adulto, a série faz algo que vinha sendo apenas sugerido: aproxima diretamente aquele universo emocional da economia da intimidade.

A reação do público, em muitos casos negativa, se concentrou justamente nas cenas mais desconcertantes. Cassie aparece performando versões de si mesma que beiram o grotesco, ora infantilizada, ora animalizada, em imagens que parecem deliberadamente exageradas. É um excesso que incomoda e que poderia ser lido como provocação gratuita. Mas o criador Sam Levinson insiste em outro caminho.

Segundo ele, a intenção nunca foi apenas chocar, mas reproduzir com fidelidade a lógica dessas plataformas e, ao mesmo tempo, criar um distanciamento que permitisse ao espectador enxergar algo além da superfície. Há, nas palavras dele, uma tentativa de colocar o público dentro da performance de Cassie e, logo em seguida, recuar para revelar o que aquilo tem de profundamente deprimente.

Essa escolha é mais reveladora do que parece.

Porque, ao invés de estilizar ou suavizar, a série opta por expor o desconforto. O que poderia ser apresentado como empoderamento ou controle aparece como repetição, como esforço, como tentativa constante de corresponder a uma expectativa que nunca se estabiliza. Cassie não está apenas criando conteúdo. Ela está tentando sustentar uma identidade que depende do olhar do outro para existir.

É aqui que Euphoria finalmente encontra o OnlyFans não como referência, mas como espelho.

Tudo aquilo que a série já vinha construindo, a relação entre desejo, validação e exposição, ganha agora uma dimensão concreta. O corpo deixa de ser apenas linguagem simbólica e passa a operar dentro de uma lógica de mercado, onde cada gesto, cada imagem e cada performance carregam valor.

E talvez seja justamente por isso que as cenas causam tanto incômodo.

Não porque são extremas, mas porque são reconhecíveis.

Antes de OnlyFans, Euphoria já tinha explorado a sexualização

Cassie será central na trama da terceira temporada, mas não a primeira a monetizar sua imagem. Na 1ª temporada, a personagem Kat Hernandez, de Barbie Ferreira, teve uma trajetória muito similar e pioneira nesse sentido. Ela começa a trabalhar como camgirl após ter um vídeo íntimo vazado e descobrir o poder financeiro e a validação que sua sexualidade poderia atrair online.

Sob o pseudônimo de “Kitten”, ela realizava transmissões ao vivo para homens submissos, utilizando fetiches como dominação financeira (findom) para ganhar dinheiro e comprar roupas que mudaram seu estilo. Em 2019, quando a série estreou, o OnlyFans ainda não era o foco da narrativa e Kat usava sites de webcam e Skype para interagir com seus clientes.

O que muda agora é que Cassie expressa o desejo de ser “enorme” e famosa. Uma das cenas que mais geraram revolta nas redes sociais envolve quando ela se veste com elementos infantis para produzir conteúdo adulto: de marias-chiquinhas, chupeta e lingerie branca transparente. Na sua primeira cena da temporada, é vista gravando vídeos com orelhas e nariz de cachorro, agindo como um animal para atrair atenção no TikTok e OnlyFans. Tudo para maximizar seus lucros e financiar seu casamento de luxo com Nate (Jacob Elordi), orçado em cerca de US$ 50.000 apenas em flores.

Humor na crítica de Margo: problemático como Euphoria

Enquanto Euphoria esbarra não apenas em sua negatividade-assinatura e misoginia, Margo’s Got Money Troubles segue uma narrativa mais leve, mais irônica para questionar e expor problemas semelhantes.

O livro de Rufi Thorpe foi elogiado justamente pela abordagem humana, cômica e empoderada sobre o trabalho sexual e a maternidade solo e é o contraponto imediato à Euphoria. Enquanto Cassie entra no OnlyFans por desespero e busca validação externa (de novo: sob justificativa de independência financeira), Margo o faz por necessidade pragmática para sustentar seu bebê, Bodhi.

A estratégia de Margo é genial porque ela trata o OnlyFans como um personagem de entretenimento, e não apenas como conteúdo erótico puro. Como ela não se sente confortável com a pornografia tradicional, ela decide usar o conhecimento de seu pai (um ex-lutador de luta livre profissional) para criar uma “persona”.

Margo aplica o conceito de Kayfabe, que na luta livre é a manutenção da ilusão de que tudo o que acontece no ringue é real. Assim cria uma personagem com história, dramas e conflitos, tratando seus assinantes como a “plateia” de um show. Em vez de apenas postar fotos, ela cria narrativas. Se ela está brava com algo, ela “atua” aquela raiva, o que gera muito mais assinantes do que uma nudez sem contexto.

Margo também percebe que o público do OnlyFans é composto majoritariamente por homens jovens e nostálgicos. Começa a falar sobre Pokémon e a mostrar sua coleção enquanto faz suas transmissões ou sessões de fotos. Isso cria um ponto de interesse comum que faz com que os assinantes sintam que ela é “uma deles”, aumentando drasticamente as gorjetas e o tempo de retenção na plataforma.

Diferente das produções hiperprofissionais, Margo aposta na estética caseira, mas com a disciplina de uma atleta. Ela estuda os horários de pico, analisa quais tipos de comentários geram mais dinheiro e usa o humor para desarmar situações desconfortáveis.

O resultado: Ela consegue ganhar dinheiro suficiente para sustentar o filho e manter o apartamento, transformando o que era um “problema de dinheiro” em um negócio de branding pessoal.

Sim, muitos críticos e leitores acreditam que a história de Margo simplifica demais os perigos da plataforma porque, ao mostrar Margo ganhando empoderamento e controle através da venda de sua imagem, a obra pode mascarar o esgotamento mental e a pressão que muitas criadoras sentem para se manterem relevantes em um mercado saturado. E tampouco ressalta como na vida real, o OnlyFans pode trazer riscos de vazamento de dados, perseguição (stalking) e um estigma social que pode fechar portas em carreiras futuras.

Ou seja, enquanto Euphoria é exploratória e foca no “choque”, “aprisionando” suas personagens femininas em traumas sexuais repetitivos, Margo, a proposta pode ser perigosamente inocente.

A força da narrativa: o interesse de Hollywood

Ter o OnlyFans no centro de duas séries de sucesso revela uma mudança mais profunda na forma como narrativas contemporâneas lidam com desejo, poder e dinheiro. Se, por muito tempo, histórias sobre sexualidade e exposição estavam associadas a margens ou a exceções, hoje elas aparecem como parte central da experiência cotidiana. Não como desvio, mas como possibilidade.

É por isso que o OnlyFans se torna um elemento tão potente dentro dessas narrativas. Ele concentra, em um único espaço, questões que atravessam toda a cultura digital atual: a monetização da intimidade, a construção de identidade sob vigilância constante, a promessa de autonomia que convive com novas formas de pressão.

Há, evidentemente, um discurso de empoderamento que sustenta a popularidade da plataforma, e ele não é irrelevante. Para muitos, o OnlyFans representa uma alternativa real a estruturas tradicionais de trabalho e exploração. Mas esse discurso convive com uma realidade mais ambígua, em que a autonomia depende de visibilidade e a visibilidade depende de exposição contínua, criando um ciclo que não se sustenta sem desgaste.

Talvez seja justamente essa ambiguidade que torne o tema tão atraente para a ficção, afinal, não há resposta simples, não há leitura única, não há conclusão confortável. Porque, ao deixar de ser exceção, a questão obriga a encarar uma pergunta mais difícil e muito menos espetacular. Não é sobre entrar no OnlyFans, mas por que é uma escolha cada dia mais popular?


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