Muito antes de chegar aos cinemas, Michael já carregava um problema inevitável: é impossível falar do filme sem voltar ao mito, à produção e às polêmicas que o cercam.
A biografia oficial de Michael Jackson já nasceu cercada por uma pergunta que vai além da estreia: haverá uma continuação? E, mais do que isso, essa continuação é sequer possível?

Quando li o que Matthew Belloni descreve sobre o roteiro de Michael, o que mais me chamou a atenção não foi apenas o conteúdo, mas o limite que ele expõe. Porque, mais do que oferecer uma versão dos fatos, o texto dele revela um impasse estrutural: talvez essa história simplesmente não possa ser contada por inteiro. E, se não pode ser contada por inteiro, o que acontece com uma eventual segunda parte?
À primeira vista, tudo aponta para uma continuação. O filme termina com um letreiro que indica que “a história continua”, um gesto que funciona menos como encerramento e mais como promessa. Executivos da Lionsgate já disseram que a equipe criativa trabalha para entregar “mais Michael” pouco depois do primeiro lançamento. Há, inclusive, a possibilidade de reaproveitar material já filmado: cerca de 30% de um segundo filme poderia vir de cenas prontas, incluindo performances das turnês Dangerous e sequências ligadas à investigação em Neverland.
No papel, o caminho parece óbvio. O primeiro filme se encerra em 1988, no auge da era Bad. Uma continuação de Michael 2 avançaria naturalmente pelos anos 1990 e 2000, passando por Dangerous, HIStory, Invincible, Neverland, o julgamento de 2005, a absolvição e o que veio depois. O elenco e o diretor já demonstraram interesse. Jaafar Jackson afirma que tem “mais a oferecer”. Antoine Fuqua fala em um vasto material ainda não explorado, incluindo o Super Bowl e “tudo o que envolve Neverland”.
E, ainda assim, tudo o que torna essa continuação narrativamente inevitável também a torna estruturalmente frágil.
Porque as mesmas informações que indicam um segundo filme também revelam o que precisou ser removido para que o primeiro existisse.

A versão original de Michael avançava até os anos 1990. Essa versão não existe mais. Entre 45 e 60 minutos foram cortados, incluindo um terceiro ato inteiro centrado nas primeiras acusações de abuso. Uma sequência da invasão policial em Neverland foi filmada e retirada. Cenas com Diana Ross desapareceram. Até uma abertura simbólica, com Michael diante do espelho enquanto luzes policiais piscavam do lado de fora, foi descartada.
No caso de Diana Ross, interpretada por Kat Graham, a exclusão não foi um detalhe isolado, mas resultado direto desse mesmo processo de revisão. As cenas já haviam sido gravadas e, no roteiro original, ela funcionava como uma figura central na formação de Michael, uma mentora que atravessava desde os tempos de Motown até The Wiz. Sua presença ampliaria o retrato emocional do artista, trazendo uma camada de afeto e influência que ia além da indústria. Com a reestruturação do filme para evitar riscos legais ligados ao caso Chandler, tudo o que estava associado a esse período — direta ou indiretamente — foi sendo eliminado. Há ainda a possibilidade de questões de direitos de imagem e controle criativo terem contribuído para o corte, algo que também explicaria ausências como a de Janet Jackson. No resultado final, esse espaço é ocupado por Berry Gordy, deslocando o eixo da narrativa para uma relação mais institucional e menos íntima.
O motivo central desses cortes não foi apenas criativo. Foi legal.

Uma cláusula ligada ao acordo com a família Chandler — firmado em 1994 após a acusação de 1993, quando Michael pagou para encerrar a disputa civil — proíbe a dramatização, representação ou mesmo menção direta ao caso em obras comerciais. Esse tipo de cláusula não surgiu por acaso. Já naquele momento, havia a percepção de que a história de Michael Jackson ultrapassaria o presente e, inevitavelmente, seria recontada no futuro. Ao estabelecer esse limite, o acordo não apenas encerrou uma disputa, mas antecipou e restringiu qualquer tentativa posterior de narrativa pública sobre aquele episódio.
O problema é que essa cláusula, segundo relatos de bastidores, só foi devidamente considerada quando o filme já havia sido rodado em uma versão que incluía esse material. O resultado foi uma reformulação emergencial: 22 dias de refilmagens, custos adicionais milionários e a eliminação completa de um terceiro ato. O filme, então, recua para 1988, encerrando-se antes de entrar na zona juridicamente sensível.
O que Belloni descreve no roteiro original dialoga diretamente com esse limite: uma tentativa de abordar 1993 ao mesmo tempo em que contorna aquilo que não pode ser mostrado, nomeado ou confrontado.
E é justamente esse ponto — não a falta de material, mas o excesso do que não pode ser dito — que torna a pergunta inevitável: qual o sentido de realmente realizar Michael 2 se não é possível sequer citar tudo o que aconteceu?
Porque é nesse ponto que tudo muda. É ali que a trajetória pública de Michael Jackson se rompe.

O roteiro original que Belloni leu tentava voltar a 1993, para reorganizar o fato dentro de uma narrativa possível. Uma narrativa que, como era esperado, protege Michael. Ao enquadrar o caso Chandler como tentativa de extorsão e transformar a revista corporal em trauma central, o filme estabelece uma linha clara: Michael como vítima de um sistema que o expôs e de pessoas que o exploraram.
Isso precisou ser cortado também porque não se trata apenas de uma escolha narrativa. Ao fazer o acordo, Michael Jackson também abriu mão de algo que hoje faz falta: uma conclusão formal.
O que resta é uma zona cinzenta que nenhuma narrativa consegue atravessar sem distorcer.
E talvez seja por isso que a confirmação de que o roteiro tentaria inocentar Michael inevitavelmente esbarra naquilo que não pode ser reencenado sem consequências.
Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. É possível acreditar que Jordan Chandler foi vítima. E também reconhecer que a dinâmica familiar ao redor dele não era simples, nem passiva, nem isenta de interesses. O convívio íntimo entre Michael e crianças nunca foi um detalhe, e tampouco foi um segredo. Isso não resolve o caso, não absolve ninguém, mas impede que a história seja reduzida a uma narrativa única.
O acordo de 1993 cristaliza esse impasse. Ao evitar um julgamento, protegeu Michael naquele momento, mas também o prendeu, de forma permanente, a uma suspeita que nunca poderia ser totalmente dissipada. Pagou-se para encerrar um processo, mas não para encerrar a dúvida.
Mais do que isso, não endereçando o drama, a narrativa emperra na etapa final da vida do cantor e não falta história entre 1993 e 2009. Ao contrário.

A partir de 1993, tudo o que define Michael Jackson como figura pública se torna inseparável desse núcleo. Vieram as humilhações públicas, a entrevista com Oprah, o documentário de Martin Bashir, o casamento com Lisa Marie Presley e o divórcio, o novo casamento com a enfermeira Debbie Rowe, os três filhos cuja origem foi questionada, o período fora dos Estados Unidos, o abandono de Neverland, o julgamento de 2005, a absolvição, o desgaste financeiro, a tentativa de retorno com This Is It e, por fim, uma morte que até hoje alimenta teorias conspiratórias.
Nada disso existe isoladamente. Tudo passa, inevitavelmente, por 1993.
E é exatamente por isso que parece improvável que essa segunda parte um dia aconteça.
Porque, diferente de livros e documentários — que não dependem da aprovação da família —, um projeto oficial tem limites claros. O musical da Broadway evitou o confronto direto. O filme tenta enquadrá-lo. Mas nenhum desses formatos consegue sustentar a complexidade dos anos finais sem entrar em territórios que o próprio espólio historicamente evita.
Sem enfrentar esse núcleo com liberdade, não há continuidade possível.
O filme pode funcionar como espetáculo, como reconstrução do artista, como reafirmação de um legado. Pode até reaproveitar o material que foi cortado. Mas existe um ponto a partir do qual não é mais possível avançar sem romper com as condições que permitem que esse projeto exista.
No fim, Belloni não está apenas descrevendo um roteiro. Ele está mostrando por que essa história para exatamente onde começa a ficar mais difícil.
E, no caso de Michael Jackson, o que fica de fora nunca é um detalhe. É justamente aquilo que impede que a história continue.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
