Apex: Charlize Theron sustenta thriller irregular na Netflix

Juntar os talentos de Charlize Theron e Taron Egerton parece uma escolha óbvia — e, em teoria, quase uma garantia de sucesso, desde que ambos recebam material à altura. Não é exatamente o caso de Apex, o thriller que chegou à Netflix, ainda que a presença dos dois seja suficiente para sustentar algum nível de entretenimento.

Dirigido por Baltasar Kormákur, que construiu sua carreira em torno de narrativas de sobrevivência como Everest, Beast e Adrift, o filme parte de uma premissa igualmente direta: uma mulher experiente em esportes extremos decide atravessar sozinha uma região isolada da Austrália, apenas para se ver presa em um jogo de caça conduzido por um homem aparentemente comum e profundamente instável.

Charlize Theron, como tantas atrizes depois de conquistar o Oscar, encontrou nos filmes de ação um território de reinvenção e, no seu caso, isso nunca soou como concessão. Há um controle físico e uma presença que sustentam personagens que não dependem de explicação constante. Em Apex, ela faz de Sasha menos uma heroína invencível e mais um corpo em desgaste, alguém que resiste, mas paga o preço.

Taron Egerton, por sua vez, aproveita a oportunidade de romper com o carisma habitual para construir um antagonista que flerta com o exagero. Seu Ben é uma espécie de predador com aparência comum, um serial killer que, em alguns momentos, parece evocar a energia caótica de figuras como o coronel Kurtz de Apocalypse Now menos pela profundidade, mais pela sensação de descontrole.

Juntos, os dois percorrem um terreno conhecido: Apex recicla praticamente todos os clichês do suspense de sobrevivência. A perseguição na natureza, o jogo psicológico, a inversão de forças ao longo do percurso. Nada aqui é exatamente novo e talvez por isso o filme nunca alcance o nível de tensão verdadeiramente perturbador de obras como Deliverance, que ainda hoje permanece insuperável nesse tipo de narrativa.

Isso não significa, no entanto, que o filme não funcione em seus próprios termos. Mesmo quando não faz muito sentido, Apex entrega sequências de ação bem coreografadas, explorando com eficiência o cenário natural e mantendo um ritmo que evita o desgaste completo da fórmula. Kormákur sabe filmar o espaço e entende como extrair tensão do movimento, ainda que o roteiro raramente vá além do básico.

No fim, o que permanece não é a história, mas o confronto. Theron e Egerton operam em registros diferentes — ela na contenção, ele no excesso — e é justamente esse desequilíbrio que sustenta o filme. Apex pode não saber exatamente o que quer dizer, mas entende muito bem o que precisa entregar: uma disputa física e psicológica que, mesmo previsível, ainda prende.


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