A chegada de uma estrela e o início de um projeto
A passagem de Natalia Osipova foi tão intensa e rápida como solos que encantam fãs e seguidores de todo o mundo. Uma das maiores bailarinas da atualidade, a estrela esteve no Rio de Janeiro para acompanhar a etapa eliminatória latino-americana do prêmio que leva seu nome e que ainda em 2026 terá a grande final, em Londres.
O Prix Osipova contou com inscrições não apenas de brasileiros, mas de artistas e aspirantes de vários países vizinhos também. Natalia, que formou ao lado de Julio Bocca e Cecília Kerche o grupo de jurados, desembarcou direto para as provas e ensaios, e ainda encontrou espaço para subir ao palco e dançar o segundo ato de Giselle em uma disputada noite de gala no Theatro Municipal. Mas o foco sempre foi os novos talentos.

“Acredito muito na importância de apoiar e inspirar a próxima geração de bailarinos. Este projeto não foi apenas um convite, foi algo que também idealizei com muito cuidado, justamente com o objetivo de criar uma oportunidade real para jovens talentos. O fato de as inscrições serem gratuitas para todos os candidatos foi essencial para mim, pois acredito que o acesso deve ser o mais amplo e democrático possível”, ela disse.
O que é o Prix Osipova e como funciona
O Prix Osipova nasce justamente dessa ideia de acesso aliado a rigor. Inspirado nos grandes concursos internacionais, como o Prix de Lausanne, ele foi estruturado não apenas como uma competição de palco, mas como um processo completo de avaliação. Antes mesmo das apresentações finais, os candidatos passam por aulas, ensaios e sessões técnicas observadas de perto pelo júri, em um formato que privilegia não apenas o resultado, mas o caminho até ele.
Essa lógica muda a dinâmica tradicional de concursos. O que está em jogo não é apenas a execução de uma variação conhecida, mas a capacidade de absorver correções, adaptar o corpo, responder rapidamente a orientações. Em outras palavras, o que se observa ali é o bailarino em formação, não apenas o intérprete pronto.
A etapa latino-americana reuniu centenas de inscritos e selecionou pouco mais de cinquenta participantes, que chegaram ao Rio para dias intensos de trabalho. Ao longo desse processo, a presença de Osipova funcionou menos como símbolo e mais como intervenção direta. Cada ajuste, cada observação, carregava não apenas uma correção técnica, mas uma transmissão de repertório, de escola, de história.
Ao final, além das colocações e prêmios, o que se estabelece é uma ponte concreta. Parte dos participantes segue para a final em Londres, no Royal Opera House, enquanto outros recebem bolsas, convites e possibilidades que, até então, pareciam distantes.

Mas talvez o aspecto mais revelador do Prix Osipova não esteja nos resultados. Está naquilo que não se mede facilmente. Na experiência de estar em sala com uma artista desse porte, na percepção de que o balé ainda se constrói nesse espaço íntimo da aula e do ensaio, e na sensação de que, por alguns dias, o eixo dessa tradição se deslocou — e passou, com intensidade rara, pelo Rio de Janeiro.
A noite de Giselle e o peso de um retorno
Se durante o dia o foco estava nos jovens bailarinos, à noite houve um breve deslocamento desse eixo. A gala no Theatro Municipal colocou Natalia Osipova novamente no centro do palco, em um momento que carregava um peso silencioso. Depois de um 2025 marcado por afastamento devido a uma lesão, sua volta aos palcos aconteceu há poucos meses, ainda cercada por expectativa. O retorno se deu em março, em Londres, com Giselle, papel que atravessa sua trajetória e ao qual ela recorre como quem retorna a um território conhecido. Foi justamente o papel que escolheu para sua apresentação no Rio.

“Giselle é um dos papéis mais marcantes da minha carreira, é um papel que evolui comigo ao longo da vida, nunca é fixo. Cada apresentação traz novas nuances e emoções, guiadas pelo momento, pela minha própria maturidade artística e pela troca com os bailarinos e o público presente”, ela defendeu.
A escolha de apresentar apenas o segundo ato no Theatro Municipal, com um corpo de baile formado por bailarinas da Companhia Jovem CDA Para Todos, projeto social do Conservatório Dança e Arte, em Ipanema, reforça essa dimensão. É ali que a personagem deixa de existir no plano humano e passa a operar em outra lógica, mais abstrata, mais técnica, mas também mais exposta.
“O segundo ato de Giselle representa, para mim, a essência mais profunda do ballet clássico e exige grande controle e elevação, qualidades que sempre fizeram parte da minha identidade como bailarina, especialmente no trabalho de saltos, e que, junto à entrega artística, encontram nesse momento do ballet uma forma muito particular de expressão”, completou.


Para quem acompanha sua carreira, não há novidade na associação entre Osipova e Giselle. É um papel que, de certa forma, a define. Mas isso não o torna confortável. Ao contrário, é justamente na repetição que o desafio se intensifica. Cada retorno exige um novo equilíbrio entre técnica e interpretação, entre memória corporal e reinvenção.
E talvez tenha sido isso que atravessou a apresentação no Municipal. Não a ideia de uma volta triunfal, mas algo mais delicado. A percepção de um corpo que retoma sua potência ao mesmo tempo em que negocia com seus próprios limites. O público, claro, a recebeu efusivamente, interrompendo algumas cenas com aplausos e bravos.
A viagem, o prêmio e o que fica
Inserida no contexto do Prix, a apresentação de Osipova ganha outro sentido. Não era apenas uma estrela convidada, mas uma demonstração ao vivo do que está sendo ensinado ali. A aula, o ensaio, a construção paciente de um gesto, tudo isso reapareceu condensado no palco.
Foram dois dias de provas e quatro brasileiros foram escolhidos para a grande final em Londres: Keirison Lima, Maria Laura Possato, Pietra Sanches e Enzo Santos, os quatro vencedores brasileiros que garantiram vaga para a etapa final do Prix Osipova no Royal Opera House.
E para aqueles jovens bailarinos que passaram o dia sendo observados por ela, a cena se completa. Não apenas ouvir as correções, mas ver, em poucos minutos, o que elas significam quando atravessam um corpo que já percorreu esse caminho inteiro.

“A grande diferença da ideia do Prix Osipova era não só ter ela idealizando isso tudo, emprestando o nome dela e estando presente na realização. Ela também foi jurada, e isso é um grande diferencial do Prix, que nenhum outro concurso tinha”, disse Nicole Abramoff, sócia fundadora do Conservatório Dança e Arte, idealizador e organizador do concurso com a bailarina russa.
“É a primeira edição do Prix, mas é uma edição significativa para muitos de nós brasileiros e da América Latina, porque ela dá oportunidade aos bailarinos de realmente realizar os seus sonhos, de correr atrás dos seus sonhos”, disse Enzo Santos, um dos finalistas escolhidos para Londres e presente na masterclass. Ele, que sonhava dançar no Bolshoi, está dando seus passos para tentar uma carreira profissional no ballet. “É um projeto lindo, que eu acredito que é só o início de tudo e que vai realizar muitos sonhos pela frente”.
O Prix Osipova termina com prêmios, vagas e promessas. Mas o que permanece não é exatamente isso. É a sensação de que, por alguns dias, o balé voltou ao seu ponto mais essencial. Não o espetáculo acabado, mas o processo. Não o aplauso, mas a construção silenciosa que o antecede. E, no centro de tudo, uma artista que, mesmo ao retornar de uma pausa forçada, escolhe estar ali não apenas para ser vista, mas para ensinar a ver.
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