Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
Faltando pouco mais de um mês para completar 44 anos, o príncipe William apareceu na capa da revista Tatler e um detalhe específico funcionou como gatilho imediato para seus detratores. Ao “aliviar” o avanço de sua calvície, a imagem não apenas virou motivo de piada, como também acabou expondo, de forma involuntária, aquilo que muitos insistem em tratar como seu ponto fraco.
Não é a primeira vez que a Tatler escorrega ao retratar a família real. O pintor nigeriano Oluwole Omofemi já havia produzido, para a revista, um retrato da rainha Elizabeth II durante o Jubileu de Platina, em 2022, também recebido com uma mistura de elogios e estranhamento. Ao recorrer a uma estética semelhante a William, a intenção parecia clara: associá-lo visualmente à avó, figura que muitos historiadores apontam como uma de suas maiores referências institucionais, talvez até mais do que Diana ou Charles.

O efeito, porém, acabou sendo outro. Ao apresentar William com mais cabelo do que ele efetivamente tem hoje, a capa evidenciou exatamente aquilo que parecia tentar suavizar. Manchetes em tom de brincadeira surgiram quase imediatamente, com trocadilhos como “Hair Apparent”, “Cured Baldness” ou “Fuller Head”, deslocando o foco da imagem de qualquer leitura simbólica mais ampla para um detalhe físico específico.
E é justamente esse desvio que interessa. Porque, diante disso, a pergunta que se impõe não é apenas sobre a capa ou sobre a escolha estética da revista. A pergunta é mais direta e, ao mesmo tempo, mais reveladora: qual é, afinal, o problema da careca do príncipe?
A insistência na careca de William diz menos sobre ele e mais sobre o tipo de leitura que se faz de figuras públicas que carregam poder simbólico. Não se trata apenas de estética. Trata-se de um deslocamento: quando a crítica não encontra um ponto objetivo de ataque, recorre ao corpo. E, nesse caso específico, a perda de cabelo se tornou um atalho fácil, repetido, compartilhável e socialmente aceito como provocação.
William cresceu sob uma lógica de construção de imagem muito clara. Durante anos, o cabelo fez parte de um visual que reforçava juventude, continuidade e até uma certa ideia de príncipe clássico. O processo de rarefação foi gradual, visível, impossível de ser “controlado” dentro de um padrão midiático que cobra consistência visual de quem ocupa lugares de destaque. Ao contrário de celebridades que recorrem a procedimentos ou transformações estéticas mais agressivas, ele deixou que o processo seguisse seu curso natural. Isso cria um contraste direto com a lógica contemporânea de gestão da aparência, que privilegia intervenção, disfarce e manutenção artificial de uma imagem estável.

O ponto em que isso se torna mais revelador é quando a careca passa a ser usada como linguagem simbólica. No caso de Harry, especialmente em Spare, a comparação com o irmão aparece carregada de subtexto. Ao descrever um encontro tenso em 2021, ele escreve que observou William talvez pela primeira vez desde a juventude e notou o “familiar scowl”, a “alarming baldness”, mais avançada do que a dele, e a semelhança com Diana que estaria se desfazendo com o tempo. Na entrevista ao 60 Minutes, Anderson Cooper lê esse trecho e observa que se trata de uma passagem dura. Harry responde que não vê dessa forma, mas o sorriso irônico que acompanha o momento sugere consciência do impacto. Ele sabia exatamente onde estava tocando.
É justamente aí que a careca deixa de ser cabelo e passa a ser linguagem. Harry não está apenas descrevendo uma mudança física. Ele está marcando uma perda. William, durante a juventude, tinha um dos traços que o aproximavam mais claramente de Diana, o cabelo claro, farto, somado ao rosto que por anos sustentou a comparação com a mãe. Quando Harry escreve que essa semelhança estava se desfazendo, ele sugere que algo daquele privilégio simbólico também se diluía. Como se a calvície retirasse de William uma parte da aura que o acompanhava desde menino.
Esse é o subtexto mais delicado e, ao mesmo tempo, mais incisivo. Para Harry, que sempre viveu sob a definição de “spare”, ver o irmão perder um dos sinais físicos mais fortes de sua ligação com Diana pode carregar uma satisfação difícil de nomear. Não necessariamente consciente, nem explicitada, mas perceptível. William era o primogênito, o herdeiro, o filho que carregava o rosto da mãe com mais nitidez, o jovem príncipe loiro que parecia destinado a cumprir a narrativa ideal da monarquia. A perda do cabelo, nesse sentido, pode aparecer como uma forma de nivelamento simbólico. O herdeiro também envelhece. O herdeiro também perde. O herdeiro também deixa de corresponder à imagem perfeita que um dia o protegeu.

A tentativa de usar a calvície como marcador, no entanto, ganha uma camada involuntária de ironia. Harry também apresenta sinais evidentes de perda de cabelo. Ao nomear o ponto sensível do irmão, ele expõe a própria vulnerabilidade. William, por outro lado, parece ter incorporado a transformação com um pragmatismo quase desarmado. Em 2025, ao elogiar o cabelo de uma mulher, comentou que gostaria de ter um cabelo assim, acrescentando que já não tinha chance. A piada funciona porque não há tentativa de ocultação. Há aceitação.
Do ponto de vista biológico, a questão também é mais complexa do que a leitura popular sugere. A calvície masculina é frequentemente associada ao lado materno, mas essa explicação é incompleta. Trata-se de uma condição poligênica, influenciada por múltiplos fatores, incluindo hormônios, idade e diferentes combinações genéticas herdadas de ambos os lados da família. No caso de William, a observação pública costuma apontar para o lado Windsor, já que Andrew e Edward também apresentam perda de cabelo significativa, enquanto os Spencer parecem, em geral, preservar melhor esse traço. Ainda assim, essa leitura é apenas visual. A herança genética não se organiza de forma tão linear.
William começou a perder cabelo ainda jovem, na casa dos 20 anos, e já no casamento em 2011 a rarefação era perceptível. Em 2018, ao adotar um corte mais raspado, praticamente encerrou a tentativa de manter o visual anterior, assumindo a mudança como parte da própria imagem. Há também um dado curioso na forma como ele próprio já falou sobre o assunto. Quando tinha mais cabelo, usava a franja longa como uma espécie de cortina, quase um gesto inconsciente de proteção diante da exposição pública. A perda do cabelo pode, então, ser lida também como perda de anteparo. O rosto fica mais exposto, a idade mais evidente, o papel mais definido.

A reação pública a essa transformação revela outra camada. A calvície masculina ocupa um lugar ambíguo. Para alguns, associa-se à maturidade, segurança e até autoridade. Para outros, especialmente quando se trata de alguém que foi construído como ideal de juventude e beleza, ela marca uma quebra de expectativa. No caso de William, não se trata apenas de um homem que perdeu cabelo. Trata-se do herdeiro loiro de Diana que perdeu cabelo. A mudança não é apenas física. É simbólica.
É nesse ponto que a repetição de termos depreciativos nas redes sociais ganha sentido. Não porque sejam sofisticados, mas porque são simples. A aparência vira terreno de disputa porque é visível, compartilhável e de fácil leitura. O uso de apelidos como “ovo” não é exatamente uma crítica, mas uma forma de pertencimento a um grupo que escolhe um alvo comum. O conteúdo importa menos do que o gesto de repetir.
A capa recente da Tatler expõe esse desconforto de maneira quase involuntária. Ao apresentar William com mais cabelo do que ele tem hoje, a imagem chamou a atenção justamente pelo artifício. Em vez de preservar uma ideia de continuidade, evidenciou a tentativa de corrigir visualmente algo que já faz parte da identidade dele. O resultado foi imediato, comentários, piadas, estranhamento. A imagem idealizada não convence porque o público já reconhece o homem real.

No fundo, a careca de William incomoda porque desmonta diferentes tipos de expectativa ao mesmo tempo. Para quem critica, oferece um ponto fácil de ataque. Para quem acompanha a rivalidade entre os irmãos, funciona como metáfora de perda e de disputa simbólica. Para a própria monarquia, evidencia a passagem do tempo de forma incontornável. E para o público em geral, lembra algo que costuma ser ignorado enquanto é possível: até os príncipes envelhecem, perdem cabelo, mudam de rosto e deixam para trás a imagem que um dia sustentou parte de seu encanto.
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