Shakira em Copacabana: ensaio e setlist confirmam show pensado para o Brasil

Existe algo de simbólico em Copacabana que vai além da logística de reunir multidões. A praia se transformou, nos últimos anos, em um palco que mede não apenas popularidade, mas também a capacidade de um artista de dialogar com diferentes camadas de público ao mesmo tempo. Madonna abriu essa nova fase com um espetáculo pensado como legado. Lady Gaga transformou a própria presença em evento cultural. Shakira entra nesse eixo com uma vantagem silenciosa, mas decisiva: ela não precisa construir uma relação com o Brasil, porque essa relação já existe há décadas.

Ao ser anunciada como a terceira artista a enfrentar esse tipo de escala, o debate inevitavelmente recai sobre números, público e comparações. Mas, no caso de Shakira, talvez o ponto mais interessante esteja menos na disputa e mais na coerência. Copacabana não é apenas um desafio de público para ela. É um retorno a um território que ajudou a moldar o começo da sua trajetória internacional.

Uma conexão que vem do início

Antes de se tornar um nome global, Shakira já encontrava no Brasil um dos seus primeiros grandes mercados fora do eixo hispânico. Nos anos 1990 e no início dos anos 2000, quando ainda transitava entre o rock latino e o pop mais cru, o país respondeu com uma intensidade que antecipava o que viria depois. Essa recepção não era apenas comercial. Havia uma identificação estética e emocional que atravessava idioma, ritmo e imagem.

O Brasil funcionou, naquele momento, como um espaço de validação. Não no sentido institucional, mas no sentido de público. Era um mercado que abraçava artistas estrangeiros de forma orgânica, especialmente aqueles que traziam uma mistura de tradição e experimentação. Shakira se encaixava exatamente nesse ponto de interseção. Sua música carregava referências latinas, mas também um desejo claro de diálogo global. O público brasileiro reconheceu isso cedo.

Essa memória não desaparece. Ela se atualiza a cada retorno, a cada turnê, a cada gesto que sinaliza que essa troca não foi circunstancial. É nesse contexto que a escolha de incluir uma canção de Gonzaguinha ganha outro peso.

O ensaio em Copacabana como chave de leitura

O ensaio em Copacabana não funciona como simples aquecimento. Ele já revela o eixo do show e, talvez mais importante, confirma uma intuição que atravessa toda a relação de Shakira com o Brasil. A abertura com “O Que É, O Que É?”, de Gonzaguinha, em participação com Maria Bethânia, repetida em bis, indica que não se trata de uma citação pontual. É uma escolha estrutural. Ao insistir na música logo no início, Shakira sinaliza que quer ancorar o espetáculo em uma leitura afetiva do Brasil.

A sequência com “O Leãozinho”, ao lado de Caetano Veloso, aprofunda essa decisão. Não são canções óbvias para um público internacional, nem escolhas que funcionam apenas como aceno superficial. São repertórios que exigem escuta e que carregam uma ideia muito específica de Brasil. Inserir essas músicas no coração do show cria uma camada que não estava presente nas apresentações recentes de Madonna e Lady Gaga na mesma praia.

Ao mesmo tempo, o restante do ensaio já aponta para o equilíbrio entre esse mergulho local e a identidade pop que sustenta sua carreira global. “La Fuerte”, ainda que em versão reduzida, “Loca” em inglês, “Chantaje”, “Can’t Remember to Forget You”, que retorna ao repertório pela primeira vez desde 2018, e “Addicted to You” funcionam como pontos de reconhecimento imediato. “Objection (Tango)” aparece como elo com uma fase em que Shakira já experimentava essa mistura de estilos que hoje parece natural.

O desenho que surge desse ensaio é menos sobre alternar hits e mais sobre construir uma narrativa. As músicas brasileiras não aparecem como intervalo. Elas reorganizam a percepção do show.

Gonzaguinha como gesto e leitura de público

Cantar Gonzaguinha não é apenas uma escolha curiosa para um show internacional. É uma decisão que revela um entendimento específico de onde se está e para quem se canta. Gonzaguinha ocupa um lugar muito particular na música brasileira, associado a intensidade emocional, crítica social e uma certa ideia de Brasil que não é exportada de forma óbvia.

Ao trazer esse repertório para um palco como Copacabana, Shakira não apenas homenageia. Ela se insere, ainda que momentaneamente, em uma tradição que não é a sua. Isso exige mais do que boa vontade. Exige leitura de contexto.

Esse tipo de gesto também diferencia sua passagem pelo Rio das experiências recentes na mesma praia. Madonna operava em uma chave de celebração da própria carreira. Lady Gaga transformava o show em extensão de uma narrativa estética muito própria. Shakira, ao incorporar um elemento local tão específico, desloca o foco para a relação entre artista e público.

Entre o global e o local

A carreira de Shakira sempre foi construída nesse equilíbrio entre pertencimento e deslocamento. Ela é, ao mesmo tempo, profundamente marcada por sua origem e extremamente adaptável a diferentes mercados. No Brasil, essa equação encontra um terreno particularmente fértil.

A familiaridade do público com sua música não elimina a sensação de novidade. Existe sempre uma camada de redescoberta, como se cada apresentação atualizasse uma relação que nunca ficou completamente no passado. Isso ajuda a explicar por que sua presença em Copacabana carrega uma expectativa diferente.

Não se trata apenas de ver uma estrela global em um palco icônico. Trata-se de observar como uma artista que já passou por diversas reinvenções revisita um dos lugares que ajudaram a sustentar sua expansão inicial.

O setlist como confirmação desse desenho

O ensaio aponta o conceito. O repertório completo confirma. A estrutura que vem sendo apresentada na turnê “Las Mujeres Ya No Lloran”, combinada com os ajustes feitos no Rio, indica um show que percorre diferentes fases da carreira enquanto mantém o Brasil como eixo narrativo.

A base provável inclui:

“Hips Don’t Lie”
“Whenever, Wherever”
“Suerte”
“Estoy Aquí”
“Antología”
“Inevitable”
“Día de Enero”
“La Tortura”
“Chantaje”
“TQG”
“BZRP Music Sessions #53”
“Monotonía”
“Te Felicito”
“Copa Vacía”
“Don’t Wait Up”
“Me Enamoré”
“Underneath Your Clothes”
“Illegal”
“Empire”
“Objection (Tango)”
“She Wolf”
“Loba”
“Addicted to You”
“Rabiosa”
“Loca”
“Perro Fiel”
“Girl Like Me”
“Can’t Remember to Forget You”
“Ojos Así”
“Choka Choka” com Anitta

No BIS

“O que é, o que é?” com Maria Bethânia
“O Leãozinho” com Caetano Veloso

Mais do que uma sequência de sucessos, esse repertório desenha uma trajetória. Ele começa com o Brasil, passa pela origem latina, atravessa a consolidação global e chega ao presente, marcado por uma artista que transformou sua própria narrativa pessoal em matéria-prima musical.

O que está em jogo neste show

Mais do que repetir um modelo de sucesso recente, o show de Shakira em Copacabana coloca em evidência uma questão que atravessa o pop contemporâneo. O que sustenta um artista em escala global não é apenas o alcance, mas a capacidade de criar relações que resistam ao tempo e às mudanças de linguagem.

No caso dela, o Brasil não é um capítulo lateral. É parte da estrutura. É um dos espaços onde sua música deixou de ser apenas promessa para se tornar fenômeno.

Cantar para uma multidão na praia mais emblemática do país, depois de Madonna e Lady Gaga, poderia ser apenas mais um marco em uma carreira consolidada. Mas, no caso de Shakira, funciona também como uma espécie de retorno narrativo. Um momento em que passado e presente se encontram não como nostalgia, mas como continuidade.


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