O trabalho do Grupo Corpo é um dos mais elogiados dentro e fora do Brasil. Há 50 anos, a companhia encanta gerações. E na turnê comemorativa, que já tinha passado pelo Rio de Janeiro antes de rodar o mundo, os bailarinos mineiros voltam à capital carioca para uma curta e disputada temporada, com o clássico 21 e a última produção, Piracema, no mesmo programa.
Quando falei com Rodrigo Pederneiras em 2025 para a Bravo, ele não fez apenas um recorte histórico. Ao dividir esses cinquenta anos em três fases, ele descreveu um processo de tomada de controle sobre a própria criação que começa com os trabalhos narrativos assinados por Oscar Araiz, passa pelos anos 1980 como um período de aprendizado e apropriação, e chega ao início dos anos 1990 como o momento em que a companhia encontra aquilo que viria a se tornar sua linguagem. É nesse ponto que 21 aparece, não como um título entre outros, mas como um marco que reorganiza o modo de criar, porque é ali que o grupo passa a trabalhar com música original feita em colaboração direta com os compositores. O que muda, a partir daí, não é apenas o resultado, mas a lógica interna da construção: a dança deixa de responder à música e passa a nascer com ela, em um processo em que não há hierarquia entre som e movimento, mas uma tentativa constante de fusão.

Essa mudança ajuda a entender por que 21 continua a operar como uma espécie de eixo dentro do repertório, mesmo depois de mais de três décadas. Há nele uma organização quase matemática do tempo, construída a partir do próprio número que dá título ao balé, que se traduz em repetição, progressão e estrutura, mas que nunca se impõe como rigidez. O que se percebe não é o cálculo, mas o efeito desse cálculo transformado em movimento. A repetição, nesse caso, não aparece como recurso visível, mas como método interno que sustenta a coreografia e permite que ela se desenvolva sem perder coesão. É um balé que parece preciso sem soar mecânico, justamente porque a lógica que o organiza não precisa ser explicitada para ser sentida.
Se 21 marca o momento em que o Grupo Corpo passa a existir como linguagem, Piracema, criada em 2025 dentro das comemorações dos cinquenta anos da companhia, desloca essa linguagem para outro tipo de relação com o tempo. O próprio título já indica um caminho que não é apenas metafórico. A piracema é o movimento dos peixes que sobem o rio, um deslocamento feito contra a corrente, por necessidade, por insistência, por continuidade. Ao trazer essa imagem para o centro da obra, o Grupo Corpo não está apenas propondo um tema, mas uma lógica de movimento que atravessa a coreografia. O que se vê em cena não é mais a fragmentação que organiza 21, mas um fluxo contínuo, coletivo, em que o movimento parece atravessar os corpos em vez de se decompor em unidades reconhecíveis.
Essa diferença não significa ruptura, e talvez esse seja o ponto mais importante do programa apresentado no Rio. Ao colocar lado a lado uma obra que consolidou sua linguagem e outra que surge como resultado de cinquenta anos de trabalho, o Grupo Corpo não propõe uma leitura de evolução linear, mas uma convivência entre camadas. Isso se torna ainda mais evidente quando se considera a forma como Rodrigo descreve seu processo criativo ao longo da entrevista, insistindo na ideia de que a dança não se organiza a partir da narrativa e de que o objetivo não é contar uma história com início, meio e fim, mas produzir uma experiência que se constrói na relação direta com o espectador. Ao falar da dificuldade de emocionar e da raridade de conseguir fazer alguém sentir algo novo, ele desloca o eixo da análise para um campo em que a compreensão não depende de tradução, mas de percepção.
Essa chave é fundamental para entender por que 21 e Piracema funcionam juntos sem que um explique o outro. Em vez de estabelecer uma progressão clara, o programa cria uma espécie de campo em que diferentes formas de organizar o tempo coexistem. Em 21, o tempo se apresenta como estrutura, como contagem interna que organiza o movimento. Em Piracema, ele se manifesta como fluxo, como continuidade que não se deixa interromper. Entre um e outro, o que se percebe não é uma mudança de linguagem, mas uma mudança de relação com essa linguagem, que deixa de ser construída diante do espectador e passa a aparecer como resultado de um processo acumulado ao longo de décadas.

O contexto em que esse programa chega ao Rio reforça ainda mais essa leitura. Depois de uma circulação internacional, em que as obras já foram atravessadas por outros públicos e outras formas de recepção, o retorno ao Brasil não se apresenta como estreia, mas como reencontro. Entre os dias 6 e 10 de maio de 2026, no Teatro Multiplan VillageMall, a companhia apresenta exatamente esse diálogo entre passado e presente, com ingressos esgotados, em uma resposta que confirma a relação direta construída ao longo do tempo com o público brasileiro. Não se trata apenas de reconhecimento, mas de continuidade, de uma presença que não precisa ser reintroduzida porque nunca deixou de existir, mesmo nos períodos em que a companhia esteve mais concentrada no circuito internacional.
Essa circulação constante, que alterna Brasil e exterior sem estabelecer um início ou fim claros, também faz parte do modo como o Grupo Corpo pensa sua própria trajetória. Novas obras não substituem as anteriores, nem reorganizam o repertório a partir de rupturas. Elas se somam, criando um campo em que diferentes momentos da linguagem continuam ativos. 21 não aparece como memória, nem Piracema como conclusão. Ambos operam no presente, como partes de um mesmo sistema que se desloca sem se desfazer.
É nesse ponto que a ideia de repetição, tão presente na forma como Rodrigo descreve o processo de criação, ganha outro peso. O movimento não nasce pronto, mas é construído ao longo do ensaio, ajustado, repetido até atingir um nível de depuração em que deixa de parecer repetido. Esse trabalho, que não se mostra diretamente no palco, sustenta tanto a precisão de 21 quanto a fluidez de Piracema, permitindo que estruturas aparentemente opostas convivam dentro de um mesmo vocabulário.

O que o Grupo Corpo faz com o tempo, ao colocar essas obras lado a lado, não é simplesmente revisitar sua história, mas torná-la visível como processo. O tempo deixa de ser uma linha que separa passado e presente e passa a funcionar como um campo em que diferentes momentos coexistem. Não há ruptura, nem permanência no sentido estático, mas um movimento contínuo que permite que a linguagem se desloque sem perder sua base.
Talvez seja essa a forma mais precisa de entender o que se vê em cena depois de cinquenta anos. Não como celebração de um percurso encerrado, mas como evidência de que esse percurso continua em movimento, operando dentro das próprias obras e na relação que elas estabelecem entre si. O Grupo Corpo não retorna ao mesmo lugar. Ele faz com que esse lugar se desloque junto com ele.
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