Marilyn Monroe aos 100 anos: as novas revelações sobre seus últimos meses

Marilyn Monroe é como uma esfinge moderna ainda a ser decifrada. Algo absolutamente impossível, nós sabemos. Poucas figuras da cultura pop continuam sendo revisitadas de maneira tão constante quanto ela. Mas, perto do centenário de seu nascimento, em 1º de junho de 2026, o novo material divulgado sobre seus últimos meses chama a atenção por um motivo diferente. Em vez de alimentar apenas o fascínio em torno da morte, das teorias conspiratórias ou da imagem congelada da “loira trágica”, os relatos recuperam uma Marilyn muito mais lúcida sobre o próprio lugar dentro de Hollywood e sobre o peso da personagem que ela precisou sustentar por anos.

O livro Marilyn: The Lost Photographs, The Last Interview reúne a entrevista final concedida à revista Life e uma série de fotos raras feitas por Allan Grant em julho de 1962, poucas semanas antes de sua morte. A conversa, conduzida pelo jornalista Richard Meryman, havia sido publicada parcialmente na época, mas agora aparece de forma integral, acompanhada de imagens que permaneceram inéditas durante décadas. A gravação estava disponível há anos pra quem quisesse ouvir. Eu ouvi e sempre cito a frase que ficou marcada pra mim, a que ela pede para ser levada a sério.

Mas hoje tentam provar ali que uma mulher que falava de futuro não tiraria a própria vida pouco tempo depois. Por isso, o que mais impressiona não é exatamente a melancolia retrospectiva que inevitavelmente cerca qualquer fala de Marilyn nos dias finais de sua vida, mas a clareza com que ela parecia entender o mecanismo que a cercava. Em vários momentos, a atriz fala sobre o desconforto de ter sido reduzida a um símbolo sexual, algo que lhe trouxe fama, mas também a transformou em objeto público. Ela ironiza o próprio status, comenta como Hollywood constantemente a diminuía e lembra que, mesmo estrelando Gentlemen Prefer Blondes, recebia muito menos que Jane Russell e ainda precisava lutar até por um camarim próprio.

Ao mesmo tempo, há na entrevista uma Marilyn mais leve e espirituosa do que a memória coletiva costuma permitir. Ela ri ao falar da fama, compara a celebridade ao excesso de caviar e descreve o próprio atraso crônico quase como um gesto de resistência. Quando a imprensa dizia que ela estava deprimida ou em decadência, respondia demorando ainda mais para ficar pronta, acrescentando mais brilho, mais maquiagem, mais glamour, quase como provocação.

As novas imagens também ajudam a desmontar a ideia de uma Marilyn permanentemente derrotada. Nas fotografias feitas em casa, aparece relaxada, sorrindo, vulnerável sem parecer destruída. Existe algo muito humano nesse contraste entre a mulher descalça, de robe e maquiagem borrada, e a figura pública que o mundo insistia em enxergar apenas como fantasia.

Esse contraste reaparece também nos relatos de James Haspiel, fã que se tornou um dos amigos mais próximos da atriz nos anos 1950 e início dos anos 1960. Para ele, Marilyn Monroe era uma invenção necessária para Hollywood, enquanto Norma Jeane existia longe das câmeras. Haspiel descreve uma mulher discreta, generosa e muito menos performática do que a caricatura criada em torno dela. Conta que Marilyn saía pelas ruas de Nova York sem maquiagem para distribuir dinheiro anonimamente a pessoas em situação de rua e chegou a comprar pássaros capturados apenas para libertá-los depois.

Há algo especialmente revelador na forma como ela fala sobre família. Marilyn comenta que tudo o que queria, em algum nível, era ter sido uma mulher casada e feliz, com uma família estável, mas admite que sua vida acabou sendo construída de outra maneira. Também fala com carinho dos enteados e do desconforto de vê-los expostos às histórias cruéis publicadas sobre ela. Em vez da imagem eterna da estrela inalcançável, surge alguém ainda profundamente marcada pela infância em orfanatos e lares adotivos, tentando construir algum senso de pertencimento.

Talvez seja justamente isso que mantenha Marilyn tão viva culturalmente cem anos depois de seu nascimento. Não apenas a beleza ou o mistério de sua morte, mas a sensação constante de que existia sempre uma distância entre quem ela era e o que o público queria consumir. Hollywood criou Marilyn Monroe como fantasia coletiva, mas as entrevistas, cartas, sessões de fotos e relatos íntimos continuam revelando uma mulher tentando negociar espaço dentro dessa própria invenção.

E existe algo profundamente contemporâneo nisso. A dificuldade de controlar a própria narrativa, a transformação da intimidade em espetáculo, a pressão para sustentar uma imagem pública mesmo quando ela já não corresponde mais à pessoa real. Marilyn entendia tudo isso talvez antes mesmo da cultura das celebridades atingir o nível obsessivo de hoje.

Por isso, essas novas revelações acabam funcionando menos como solução definitiva para o “mistério Marilyn” e mais como lembrete de que ela nunca coube inteiramente na personagem que o cinema vendeu ao mundo. Mesmo perto do fim, ainda tentava explicar que havia algo além da imagem.


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