5 personagens de séries que retratam a maternidade na TV

Durante muito tempo, a televisão tratou mães como figuras relativamente previsíveis. Elas apareciam como eixo moral da família, símbolo de acolhimento ou presença estabilizadora em narrativas centradas nos filhos. Nos últimos anos, porém, as séries passaram a enxergar maternidade de maneira muito mais contraditória, desconfortável e humana. As mães da TV contemporânea já não precisam ser perfeitas, equilibradas ou emocionalmente resolvidas. Algumas são controladoras. Outras sobreviventes. Algumas transformam proteção em manipulação. Outras tentam impedir que os próprios traumas contaminem os filhos e falham no processo.

Talvez por isso personagens maternas tenham se tornado algumas das figuras mais fascinantes da televisão recente. Elas carregam culpa, ambição, ressentimento, medo, desejo de controle e, ao mesmo tempo, uma necessidade desesperada de proteger aqueles que amam. Em muitos casos, maternidade deixa de ser apenas relação familiar e passa a funcionar como linguagem de poder, sobrevivência emocional ou tentativa de reparação.

Das mansões da Era Dourada aos subúrbios violentos de Ginny & Georgia, passando pelo horror emocional de Stranger Things e pelos conflitos geracionais de Gilmore Girls, essas mães ajudaram a redefinir a forma como a TV contemporânea representa família.

Bertha Russell (The Gilded Age)

Bertha Russell talvez seja uma das mães mais fascinantes da televisão recente justamente porque maternidade, para ela, nunca está separada de ambição social. Interpretada por Carrie Coon, Bertha ama os filhos, mas também entende perfeitamente o valor estratégico deles dentro da ascensão da família Russell na Nova York da Era Dourada.

Gladys frequentemente se transforma em peça de negociação social e política, enquanto George Russell percebe mais rapidamente o custo emocional das escolhas da esposa. O interessante é que a série nunca transforma Bertha em vilã simples. Ela é implacável porque compreende o funcionamento brutal daquele universo. Em muitos momentos, parece menos cruel do que lúcida. A pergunta que fica é justamente essa: Bertha está errada ou apenas entende o jogo antes dos outros?

Lorelai Gilmore (Gilmore Girls)

Antes de Ginny & Georgia, existiu Lorelai Gilmore. Interpretada por Lauren Graham, ela praticamente redefiniu a figura da mãe “cool” dos anos 2000. Lorelai tenta construir com Rory uma relação oposta à frieza emocional e ao controle rígido que viveu com Emily Gilmore.

Durante muito tempo, Gilmore Girls romantiza essa dinâmica quase amistosa entre mãe e filha. Só que a própria série, aos poucos, revela os limites emocionais dessa escolha. Lorelai é divertida, afetuosa e extremamente carismática, mas frequentemente transforma as próprias inseguranças em parte da relação com Rory.

E talvez seja justamente isso que faz a personagem funcionar tão bem até hoje. Lorelai nunca parece uma mãe idealizada. Ela parece alguém tentando desesperadamente quebrar um ciclo geracional sem saber exatamente como fazer isso.

Georgia Miller (Ginny & Georgia)

Georgia Miller é uma das mães mais caóticas da televisão recente porque transforma proteção materna em justificativa para mentira, manipulação e violência. A série brinca quase conscientemente com a ideia da “mãe sociopata charmosa”, alguém capaz de qualquer coisa para proteger os filhos e preservar a própria narrativa.

Interpretada por Brianne Howey, Georgia mistura carisma, trauma e instinto de sobrevivência em níveis quase perigosos. Tudo nela gira em torno de controle narrativo. Ela quer decidir como será vista, como os filhos irão enxergá-la e qual versão do passado poderá sobreviver.

O fascinante é que, apesar de todas as escolhas moralmente questionáveis, a série consegue fazer o público entender de onde vem o desespero da personagem. Georgia é produto de violência, abandono e pobreza extrema. A maternidade dela nasce menos de estabilidade emocional e mais de sobrevivência.

Joyce Byers (Stranger Things)

Joyce Byers se tornou uma das mães mais importantes da TV recente justamente porque Stranger Things nunca transforma instinto materno em histeria caricatural. Desde a primeira temporada, quando todos acreditam que Will está morto ou que ela enlouqueceu, Joyce é praticamente a única pessoa que se recusa a abandonar o filho. E a série deixa claro que ela estava certa o tempo inteiro.

Interpretada por Winona Ryder, Joyce funciona como contraponto emocional ao universo nostálgico e aventuresco da série. Enquanto boa parte dos personagens vive a fantasia Spielberg/Stephen King dos anos 1980, Joyce introduz medo real, precariedade financeira e trauma constante.

Ela está sempre cansada, emocionalmente sobrecarregada e tentando sobreviver economicamente enquanto cria os filhos praticamente sozinha. Mesmo assim, continua insistindo quando ninguém acredita nela. Talvez por isso Joyce tenha marcado tanto o público. Ela representa uma maternidade menos idealizada e mais sobrevivente.

Rebecca Pearson (This Is Us)

Rebecca Pearson virou uma das mães mais marcantes da TV recente justamente porque This Is Us transformou maternidade em memória emocional. Interpretada por Mandy Moore em diferentes fases da vida, Rebecca acompanha décadas da família Pearson enquanto a série mostra como mães acabam ocupando simultaneamente os papéis de proteção, culpa e centro afetivo invisível da família.

O interessante é que Rebecca nunca aparece como figura perfeita. A série insiste em mostrar suas falhas, inseguranças e favoritismos, especialmente na relação desigual entre Kevin, Kate e Randall. Em vários momentos, ela erra tentando acertar, protege demais alguns filhos, entende menos outros e carrega o peso permanente de tentar manter a família emocionalmente unida após a morte de Jack.

Existe também algo muito forte na maneira como This Is Us retrata envelhecimento através da maternidade. Rebecca não é apenas mãe. Ela também é mulher, viúva, cantora frustrada, alguém que teve sonhos interrompidos e que aos poucos passa a enfrentar perda de memória e declínio cognitivo. A série entende que mães continuam existindo como indivíduos muito depois dos filhos crescerem.

Talvez por isso essas personagens tenham marcado tanto a televisão recente. Nenhuma delas representa maternidade como ideal abstrato. Todas erram, exageram, manipulam, sufocam ou fracassam em algum momento. Mas talvez seja justamente aí que essas séries encontrem algo mais próximo da experiência real: mães como pessoas complexas, contraditórias e emocionalmente inacabadas.


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