Os Newton Brothers se transformaram, silenciosamente, em uma das duplas mais influentes da música para cinema e televisão da última década. Mesmo para quem talvez ainda não reconheça imediatamente o nome, é praticamente impossível não ter sido atravessado pelo trabalho deles nos últimos anos. Basta pensar em séries como The Haunting of Hill House, Midnight Mass, The Fall of the House of Usher, X-Men ‘97, ou Daredevil: Born Again. Ou em filmes como Doctor Sleep e Five Nights at Freddy’s. Há uma identidade emocional muito específica que atravessa todas essas produções, e ela vem justamente da maneira como Andy Grush e Taylor Stewart compreendem a música não como complemento, mas como atmosfera psicológica.

Curiosamente, eles não são irmãos de sangue. O nome “The Newton Brothers” acaba criando essa impressão quase imediata, mas a parceria nasceu da afinidade criativa entre John Andrew Grush e Taylor Newton Stewart, músicos multi-instrumentistas americanos que passaram a trabalhar juntos ainda nos anos 2000. Ao longo dos anos, a dinâmica artística entre os dois se tornou tão integrada que o nome da dupla acabou funcionando quase como descrição simbólica dessa relação criativa.
Desde o início, os dois demonstravam uma obsessão particular pela relação entre imagem e som. Cresceram ouvindo tanto ópera e trilhas clássicas de John Williams quanto música eletrônica, synthwave e bandas como Kraftwerk. Mas as influências deles vão muito além disso. Em entrevistas, os dois frequentemente citam compositores como Bernard Herrmann, Jerry Goldsmith, Hans Zimmer, Ennio Morricone e Angelo Badalamenti como referências fundamentais para entender a música como linguagem emocional e não apenas narrativa. Há também uma forte herança do minimalismo contemporâneo, especialmente de Philip Glass e Jóhann Jóhannsson, perceptível no uso de repetição, progressão lenta e construção atmosférica.
Isso ajuda a explicar por que o trabalho deles raramente soa “retro” ou “tradicional”, mesmo quando utiliza orquestra clássica. A música dos Newton Brothers opera numa fronteira muito particular entre o orgânico e o eletrônico. Cordas melancólicas convivem com sintetizadores analógicos, ruídos processados, respirações manipuladas digitalmente e drones quase industriais. Em vez de simplesmente pontuar emoções, eles criam estados psicológicos.
Outra característica importante é a quantidade impressionante de instrumentos que dominam. Entre os dois, tocam piano, guitarra, baixo, clarinete, flauta, saxofone, violoncelo, acordeão, órgão, percussão e sintetizadores. Essa variedade instrumental faz com que cada projeto tenha uma assinatura própria sem perder a identidade autoral da dupla.
E talvez justamente aí esteja a grande assinatura deles.

Enquanto muitos compositores contemporâneos trabalham o horror pela intensidade sonora, os Newton Brothers trabalham o horror pela vulnerabilidade emocional. A música deles quase nunca “grita”. Ela se infiltra lentamente. Existe uma sensação constante de luto, suspensão e memória quebrada em suas composições. Em muitas obras, a trilha parece funcionar como manifestação interna dos personagens, como se estivéssemos ouvindo ansiedade, culpa ou trauma ganhando forma sonora.
Isso aparece claramente na forma como usam silêncio e espaço. Em The Haunting of Hill House, por exemplo, a ausência de música em determinados momentos se torna tão importante quanto os temas principais. Já em Midnight Mass, a assinatura deles surge no uso quase religioso do som, transformando coral, órgão e harmonias litúrgicas em elementos simultaneamente espirituais e ameaçadores.
Outra marca recorrente é a maneira como trabalham temas melódicos extremamente simples, mas emocionalmente devastadores. Em vez de criar melodias grandiosas e facilmente “assobiáveis”, os Newton Brothers preferem fragmentos melancólicos que retornam ao longo da narrativa como lembranças traumáticas. Muitas vezes o espectador sequer percebe conscientemente esses retornos, mas sente emocionalmente a repetição.
Isso também ajuda a explicar por que a parceria com Mike Flanagan se tornou tão importante para ambos. Hoje é praticamente impossível dissociar a identidade audiovisual do diretor da música criada pela dupla. Desde Oculus, eles colaboram de maneira quase simbiótica, redefinindo o som do horror moderno para uma geração acostumada a sustos rápidos e excesso sonoro.
Durante muitos anos, o terror audiovisual ficou associado a trilhas agressivas, jumpscares sonoros e excesso musical. Os Newton Brothers caminharam em outra direção. Em produções como Hill House e Midnight Mass, o silêncio se torna tão importante quanto a música. Eles trabalham tensão emocional antes da tensão física. Em vez de apenas anunciar sustos, a trilha cria uma sensação constante de luto, desorientação e melancolia.

Isso fica especialmente evidente em Midnight Mass, talvez um dos trabalhos mais sofisticados da dupla. A série mistura horror religioso, culpa católica, desejo de transcendência e fanatismo espiritual. A trilha acompanha tudo isso de maneira quase litúrgica, usando órgãos, coral e harmonias minimalistas para criar uma sensação de devoção e ameaça simultaneamente. Não é apenas música de terror. É música sobre fé, morte e redenção.
Já em The Haunting of Hill House, eles trabalham a ideia da memória traumática como algo sonoro. Certos temas retornam como fantasmas emocionais. A música não está ali apenas para assustar, mas para lembrar continuamente aos personagens — e ao espectador — que o passado nunca desapareceu completamente.
Esse entendimento emocional do horror levou a dupla a um novo patamar dentro da indústria. Quando Mike Flanagan assumiu Doctor Sleep, sequência de The Shining, os Newton Brothers enfrentaram talvez seu maior desafio: dialogar musicalmente com um dos filmes mais icônicos da história do cinema sem simplesmente imitá-lo.
A solução foi brilhante. Eles incorporaram referências à trilha original de O Iluminado, incluindo variações do “Dies Irae”, mas expandiram o universo sonoro em direção a algo mais emocional e melancólico. Afinal, Doctor Sleep é menos sobre um hotel assombrado e mais sobre trauma geracional, alcoolismo e sobrevivência. A trilha compreende perfeitamente isso.
Mas a carreira deles deixou de pertencer apenas ao horror.
Nos últimos anos, os Newton Brothers passaram a ocupar um espaço cada vez maior dentro das grandes franquias contemporâneas. X-Men ‘97 representou um momento decisivo justamente porque mostrou que eles conseguiam transportar sua assinatura emocional para um universo completamente diferente. Em vez de tratar a animação apenas como nostalgia dos anos 1990, eles construíram uma trilha que amplia a dimensão política, emocional e épica dos personagens mutantes.
O mesmo aconteceu em Daredevil: Born Again, onde optaram por uma abordagem mais psicológica e urbana do que heroica no sentido tradicional da Marvel. Há algo quase noir na maneira como utilizam percussão baixa, sintetizadores escuros e cordas discretas para acompanhar Matt Murdock.
Ao mesmo tempo, eles seguem profundamente associados ao universo de Mike Flanagan. Entre os projetos mais recentes está The Fall of the House of Usher, adaptação de Edgar Allan Poe lançada pela Netflix, que mistura horror gótico, crítica social e decadência moral com uma trilha sonora que alterna elegância clássica e desconforto moderno.
Outro trabalho recente importante foi Five Nights at Freddy’s, adaptação do fenômeno dos videogames, onde precisaram dialogar com um público muito mais jovem sem abandonar a densidade atmosférica característica da dupla.
E os próximos anos devem consolidar ainda mais esse momento.

Os Newton Brothers estão diretamente envolvidos em Carrie, nova adaptação produzida por Mike Flanagan para a Amazon MGM Studios, um dos projetos de horror mais aguardados em desenvolvimento atualmente. Também seguem ligados aos futuros trabalhos televisivos de Flanagan após sua saída da Netflix e migração para a Amazon, o que praticamente garante que continuarão sendo parte central da identidade sonora desse novo capítulo da carreira do diretor.
Além disso, o enorme sucesso de X-Men ‘97 colocou a dupla definitivamente no radar dos grandes estúdios para propriedades ligadas à cultura pop e super-heróis. Hoje, eles ocupam um espaço raro em Hollywood: compositores capazes de circular entre horror autoral, streaming prestige TV, franquias geek e blockbusters sem perder personalidade.
E talvez essa seja justamente a razão pela qual o trabalho deles se tornou tão relevante neste momento do audiovisual. Os Newton Brothers entendem algo que muitos filmes e séries contemporâneos ainda tentam descobrir: a trilha sonora não existe apenas para acompanhar imagens. Ela existe para criar memória emocional.
Em muitas obras deles, o espectador pode até esquecer diálogos específicos ou detalhes do enredo, mas continua carregando a sensação deixada pela música dias depois. Porque a verdadeira assinatura dos Newton Brothers não está apenas nas notas que compõem. Está na habilidade de transformar som em assombração emocional.
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