Hacks, temporada 5, episódio 6 (Recap): Inteligência Artificial, medo do futuro e a crise criativa de Deborah Vance

Se tem algo que ainda não entendo muito sobre a estratégia de despedida de Hacks, é justamente a decisão de liberar dois episódios por semana. Existe quase uma ansiedade em avançar logo para o fim, como se a própria série estivesse contaminada pela urgência de Deborah Vance em recuperar o controle da própria narrativa o mais rápido possível. E talvez exista algo coerente nisso. Deborah sempre teve horror à estagnação.

Não sou exatamente do grupo que considera Hacks uma série perfeita. Em alguns momentos, acho até que ela acelera conflitos importantes rápido demais ou abandona certas consequências emocionais no meio do caminho. Ainda assim, poucas produções conseguem manter um nível tão consistente de inteligência, caos e humanidade ao longo de cinco temporadas. Mesmo quando exagera, Hacks quase sempre encontra uma forma de transformar excesso em charme.

Aqui, “QuikScribbl” praticamente esquece boa parte do que vínhamos acompanhando até agora — inclusive toda a guerra envolvendo Ava e os direitos de Who’s Cooking Dinner — para mergulhar em um dos temas mais sufocantes do presente: a Inteligência Artificial. E o episódio acerta justamente porque não tenta transformar isso em uma discussão puramente técnica. Tudo é filtrado pelas inseguranças humanas das personagens.

Enquanto Deborah segue obcecada pelo Madison Square Garden, outro problema cresce silenciosamente: as obras do The Diva estão custando uma fortuna. O sistema elétrico precisa ser refeito, o ar-condicionado exige milhões extras e até a gigantesca estátua de Deborah planejada para a entrada vira motivo de debate interno. Afinal, até onde vai o ego e onde começa a inviabilidade financeira?

É justamente essa necessidade de manter o projeto vivo que leva Deborah a aceitar a reunião com Graham Sweeney, um típico bilionário do Vale do Silício embalado pela estética corporativa do momento e pela crença de que tecnologia pode substituir praticamente qualquer processo humano. A proposta parece tentadora: alimentar uma IA com a voz, o estilo e as piadas de Deborah Vance.

A partir daí, o episódio constrói um dos conflitos geracionais mais interessantes da temporada. Deborah continua enxergando o mercado como um espaço brutal onde adaptação é sobrevivência. Ava reage emocionalmente a tudo porque ainda acredita que algumas linhas não deveriam ser ultrapassadas. Enquanto Deborah pensa em dinheiro, praticidade e continuidade, Ava imediatamente percebe o que está em jogo quando criatividade vira apenas mais um banco de dados.

E Hacks entende perfeitamente onde mora o verdadeiro terror disso tudo. Não é apenas sobre tecnologia. É sobre substituir processo humano por eficiência artificial.

Um dos argumentos mais repetidos pelos defensores da IA é justamente a ideia de “otimizar” o trabalho criativo, eliminando tempo perdido, tentativa, repetição e erro. Só que é exatamente nesse espaço imperfeito que nasce qualquer voz artística real. Quando Graham sugere que, no futuro, Deborah talvez nem precise mais escrever as próprias piadas, algo finalmente muda nela. Pela primeira vez no episódio, Deborah se alinha completamente à Ava.

Fracassar, insistir, testar, errar, reescrever e encontrar uma voz própria é o que dá sentido à arte. Não existe atalho para isso.

E então surge o verdadeiro medo humano por trás da discussão tecnológica: o medo da substituição, da irrelevância e de um mundo que já não valoriza esforço, experiência ou singularidade. Deborah e Ava continuam tendo visões completamente diferentes sobre o presente, mas respondem em sintonia diante da ameaça de um futuro onde tudo parece descartável.

Paralelamente, Jimmy e Kayla vivem uma das tramas mais caóticas da temporada ao tentarem contratar o comediante Bruno Fox para uma residência no The Diva, em Las Vegas. O que deveria ser uma simples negociação se transforma rapidamente em uma espiral de álcool, drogas, paranoia e colapso emocional. Bruno admite ter cometido um atropelamento fatal anos antes, e a situação implode de vez. Em vez de garantirem um nome importante para salvar o cassino de Deborah, acabam incentivando Bruno a se entregar para a polícia — decisão que ainda provoca outro desastre: Kayla perde o apoio financeiro do pai, justamente o empresário que representava Bruno. É o tipo de confusão absurda que Hacks sabe transformar em humor desconfortável como poucas séries hoje.

O episódio termina com Deborah tomando talvez sua decisão mais importante da temporada. Em vez de insistir na grandiosidade quase narcisista de The Diva, ela decide reduzir o projeto e transformar o espaço em um clube de comédia menor, íntimo e voltado para novos talentos.

Depois de temporadas inteiras tentando eternizar a própria imagem, Deborah finalmente parece começar a compreender que legado talvez tenha menos relação com monumentos gigantescos e mais com abrir espaço para outras vozes existirem.

E assim seguimos esperando o Madison Square Garden.


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